Organizar cartas e arquivos, aproveitando uma folga não planejada mas sempre bem-vinda, é uma experiência de tal modo desconcertante que o resultado final muitas vezes é mais cansativo do que simplesmente permanecer na senda segura do cotidiano. Principalmente quando já se deixou de ser jovem, e se está instalado a contragosto naquilo que enchem a boca para chamar de vida adulta.
Primeiro chama a atenção o desperdício de tempo e energia, monumental, desmedido, e eu muitas vezes não entendo como este mesmo sujeito que escrevia, por exemplo, páginas e páginas deste blog sem esforço há uns cinco anos agora simplesmente aparece só de vez em quando – não que faça diferença, mas vou tentar retomar este espaço com mais freqüência, foi um ano difícil, foram dois anos difíceis, na verdade, mas não aquela dificuldade de antes, a dificuldade entre pular da janela e se arrastar por aí puxando um cadáver pelo pé descarnado, como uma vez comentou um leitor bissexto destes textos ainda mais bissextos. A dificuldade é simplesmente a superposição de tarefas e atribuições cada vez maior, o que não é de modo algum um desprazer, é só um cansaço, uma exaustão que mina a disposição para ainda ter opinião e impressões sobre tudo: e sim, no fim é um sinal de um certo embotamento no contato com o mundo, o que, se por um lado é bom por preservar a pele, por outro desperta uma saudade inevitável daquela energia tão dolorida que se tinha para ser desperdiçada como se não fosse acabar nunca.
Mas estamos de volta, e pra dizer a verdade há umas coisas bem legais acontecendo naquilo que eu chamaria de minha “vida concreta” – eu usava, de brincadeira, “vida civil”, mas o fato é que isso transformaria a identidade Hefestus na “vida militar”, e não há muitos precedentes para o sucesso de sujeitos mancos e corcundas nas forças armadas, como qualquer um que viu o filme 300 vai se lembrar. Essas coisas do mundo concreto poderiam render alguma conversa descompromissada, mas o fato é que isso entraria demais na identidade (aí sim) civil, o que não me interessa. Certa vez uma amiga, uma das poucas criaturas que conhece ambas as metades desta massa esquizofrênica, leu alguns de meus textos ficcionais e perguntou por que eu não publicava mais daquilo no blog, e a resposta sempre foi de que este Hefestus é um exercício de liberdade que talvez se tornasse de restrição se eu tivesse que um dia escolher publicar de novo aquilo com meu próprio nome – como talvez algo com meu próprio nome esteja perto de ser publicado. Aí ela me sugeriu que assumisse a identidade “Hefestus” de uma vez, mas não era por aí, nunca foi o objetivo. Sei que há gente que o faz na internet e nos livros, e me lembro da Indigo como o exemplo mais à mão, mas Hefestus nunca fui eu eu, o eu de fora da rede, o eu que tinha crises depressivas e fazia confidências constrangedoras e bebia demais e rodava pela noite desterrado de si mesmo. NO início até foi um pouco, mas depois ficou claro que o blog era uma oportunidade de extrapolação e até de invenção, o que tornava muito divertido contar algo que realmente acontecera e algo que só havia saído da minha cabeça com o mesmo “valor de face”, por assim dizer, como se não houvesse diferença. E por isso não me compadeço da eterna ladainha de uma Clarah Averbuck a respeito de como as pessoas confundem “o que ela escreve no blog” com o que ela é. Essa relação de acumulação na passagem da vida para o texto é óbvia para qualquer escritor, e se não se quer compremeter a recepção do que se escreve com argumentos colaterais e complamente acessórios, é óbvio que o anonimato é a melhor coisa a se fazer. E por isso o Hefestus destas páginas pôde talvez roçar os limites do abjeto e agora olhar com alguma tranqüilidade e até carinho para o que rabiscou naquele tempo justamente porque os efeitos foram mínimos. Aquilo era fase, era o motivo para iniciar o blog e ao mesmo tempo… ao mesmo tempo em algum lugar lá no fundo eu sabia, mesmo nas trevas, que o dia em que aquilo tudo passasse provavelmente eu perceberia o exagero e me sentiria muito constrangido comigo mesmo – porque em tempos de BBB e de reality shows de tudo quanto é tipo, e de revista Caras, e de celebridades que vendem fotos de filho com exclusividade para o tablóide que pagar melhor, eu ainda mantenho um certo pudor antiquado da exposição em demasia, e para escrever o que eu precisava naquela época, aquelas palavras que me ajudaram, de certo modo, na tormenta mais difícil, eu queria a liberdade de não ter de ficar dando explicações. Por isso a identidade secreta desde o início.
Naquela época pouca gente sabia o que era blog, o que tornava ainda a brincadeira mais interessante pela hipótese remota de que alguém no mundo real cruzasse com os textos e fizesse a ligação – e ainda assim houve duas pessoas que o fizeram. Depois, blog virou o assunto do momento, virou “meio de comunicação” e até mesmo canal patrocinado, e só agora me dou conta de que isso talvez tenha ajudado um pouco na minha retração posterior. E hoje, como se cruzou a linha e tem tanto blog por aí, este espçao de novo parece um lugar seguro para exercer esse paradoxo que é a confissão real-fictícia em espaço de acesso público feita por sujeito que tenta preservar algo da sua identidade. E talvez agora, associado a um aliviar possível das atribuições em cascatas, seja mais fácil retomar estes conceitos com regularidade.
Mas que às vezes aquela energia lá do começo faz falta, ah, isso faz, com depressão, porres homéricos, chatice e tudo o que vem no pacote.


