Identidades

3 Dezembro, 2008 por hefestus

Organizar cartas e arquivos, aproveitando uma folga não planejada mas sempre bem-vinda, é uma experiência de tal modo desconcertante que o resultado final muitas vezes é mais cansativo do que simplesmente permanecer na senda segura do cotidiano. Principalmente quando já se deixou de ser jovem, e se está instalado a contragosto naquilo que enchem a boca para chamar de vida adulta.

Primeiro chama a atenção o desperdício de tempo e energia, monumental, desmedido, e eu muitas vezes não entendo como este mesmo sujeito que escrevia, por exemplo, páginas e páginas deste blog sem esforço há uns cinco anos agora simplesmente aparece só de vez em quando – não que faça diferença, mas vou tentar retomar este espaço com mais freqüência, foi um ano difícil, foram dois anos difíceis, na verdade, mas não aquela dificuldade de antes, a dificuldade entre pular da janela e se arrastar por aí puxando um cadáver pelo pé descarnado, como uma vez comentou um leitor bissexto destes textos ainda mais bissextos. A dificuldade é simplesmente a superposição de tarefas e atribuições cada vez maior, o que não é de modo algum um desprazer, é só um cansaço, uma exaustão que mina a disposição para ainda ter opinião e impressões sobre tudo: e sim, no fim é um sinal de um certo embotamento no contato com o mundo, o que, se por um lado é bom por preservar a pele, por outro desperta uma saudade inevitável daquela energia tão dolorida que se tinha para ser desperdiçada como se não fosse acabar nunca.

Mas estamos de volta, e pra dizer a verdade há umas coisas bem legais acontecendo naquilo que eu chamaria de minha “vida concreta” – eu usava, de brincadeira, “vida civil”, mas o fato é que isso transformaria a identidade Hefestus na “vida militar”, e não há muitos precedentes para o sucesso de sujeitos mancos e corcundas nas forças armadas, como qualquer um que viu o filme 300 vai se lembrar. Essas coisas do mundo concreto poderiam render alguma conversa descompromissada, mas o fato é que isso entraria demais na identidade (aí sim) civil, o que não me interessa. Certa vez uma amiga, uma das poucas criaturas que conhece ambas as metades desta massa esquizofrênica, leu alguns de meus textos ficcionais e perguntou por que eu não publicava mais daquilo no blog, e a resposta sempre foi de que este Hefestus é um exercício de liberdade que talvez se tornasse de restrição se eu tivesse que um dia escolher publicar de novo aquilo com meu próprio nome – como talvez algo com meu próprio nome esteja perto de ser publicado. Aí ela me sugeriu que assumisse a identidade “Hefestus” de uma vez, mas não era por aí, nunca foi o objetivo. Sei que há gente que o faz na internet e nos livros, e me lembro da Indigo como o exemplo mais à mão, mas Hefestus nunca fui eu eu, o eu de fora da rede, o eu que tinha crises depressivas e fazia confidências constrangedoras e bebia demais e rodava pela noite desterrado de si mesmo. NO início até foi um pouco, mas depois ficou claro que o blog era uma oportunidade de extrapolação e até de invenção, o que tornava muito divertido contar algo que realmente acontecera e algo que só havia saído da minha cabeça com o mesmo “valor de face”, por assim dizer, como se não houvesse diferença. E por isso não me compadeço da eterna ladainha de uma Clarah Averbuck a respeito de como as pessoas confundem “o que ela escreve no blog” com o que ela é. Essa relação de acumulação na passagem da vida para o texto é óbvia para qualquer escritor, e se não se quer compremeter a recepção do que se escreve com argumentos colaterais e complamente acessórios, é óbvio que o anonimato é a melhor coisa a se fazer. E por isso o Hefestus destas páginas pôde talvez roçar os limites do abjeto e agora olhar com alguma tranqüilidade e até carinho para o que rabiscou naquele tempo justamente porque os efeitos foram mínimos. Aquilo era fase, era o motivo para iniciar o blog e ao mesmo tempo… ao mesmo tempo em algum lugar lá no fundo eu sabia, mesmo nas trevas, que o dia em que aquilo tudo passasse provavelmente eu perceberia o exagero e me sentiria muito constrangido comigo mesmo – porque em tempos de BBB e de reality shows de tudo quanto é tipo, e de revista Caras, e de celebridades que vendem fotos de filho com exclusividade para o tablóide que pagar melhor, eu ainda mantenho um certo pudor antiquado da exposição em demasia, e para escrever o que eu precisava naquela época, aquelas palavras que me ajudaram, de certo modo, na tormenta mais difícil, eu queria a liberdade de não ter de ficar dando explicações. Por isso a identidade secreta desde o início.

Naquela época pouca gente sabia o que era blog, o que tornava ainda a brincadeira mais interessante pela hipótese remota de que alguém no mundo real cruzasse com os textos e fizesse a ligação – e ainda assim houve duas pessoas que o fizeram. Depois, blog virou o assunto do momento, virou “meio de comunicação” e até mesmo canal patrocinado, e só agora me dou conta de que isso talvez tenha ajudado um pouco na minha retração posterior. E hoje, como se cruzou a linha e tem tanto blog por aí, este espçao de novo parece um lugar seguro para exercer esse paradoxo que é a confissão real-fictícia em espaço de acesso público feita por sujeito que tenta preservar algo da sua identidade. E talvez agora, associado a um aliviar possível das atribuições em cascatas, seja mais fácil retomar estes conceitos com regularidade.

Mas que às vezes aquela energia lá do começo faz falta, ah, isso faz, com depressão, porres homéricos, chatice e tudo o que vem no pacote.

Aviso importante

6 Novembro, 2008 por hefestus

Na eventualidade de alguém ainda vir aqui, que fique comunicado que este blog NÃO é um espaço público, não é um fórum de debates nem está procurando audiência, e portanto seu proprietário, ou seja EU, e eu tão-somente, se considera no direito de apagar, vilipendiar, caluniar, mandar tomar em orifícios monossílabos qualquer idiota que apareça para defender a integridade do pai de todos os emos, o senhor João Gilberto, suposto messias da MPB – é bom que saibam que, assim como sou ateu em religião, também o sou em música.

Portanto, não tente. Ou tente, se quiser. De acordo com meu humor, vai receber uma resposta ou não, vai ser liberado ou não, mas jamais, repetindo, jamais será levado em consideração porque se você se dá ao trabalho de ficar xingando alguém na internet só porque questiona sua fé nas qualidades de seu ídolo, isso significa que no fundo você sabe que as críticas que incomodaram tem lá sua razão. Quaisquer qualidades que o senhor João Gilberto tenha não saem enaltecidas quando são alvo da defesa de debilóides de internet que abreviam pronomes e não sabem escrever.

Seja meu convidado para sair deste blog, pegar o seu violão, pôr de pé no meio da sala e então sentar em cima até que o braço se enterre bem fundo em seu rabo.

Era o que tínhamos por enquanto. Obrigado.

Alan Kardesktop

26 Setembro, 2008 por hefestus

Espiritismo de Porco:

Se Alan Kardec tivesse um blog, todos os seus posts seriam post-mortem?

Espaço

26 Setembro, 2008 por hefestus

No inverno a casa devora silêncios
Regala-se tanto com seu próprio ser
pesado, sem contato com o mundo
e tanto banqueteia-se em sua existência
autosuficiente
e inerte
que incha,
obesa de espaços vazios

A casa engorda nas ausências.

Houve verões, e a casa
já os desfrutou de janelas abertas
e portas escancaradas
e o piso suado de marcas de pés
e carimbos da carne livre
rolando sobre as tábuas
No verão a casa mostrava-se
como sílfide em miniblusa

E tudo era um mover-se batendo
Em algo colocado no lugar errado
E até para o ritual diário da
nulidade cotidiana
havia que se pedir licença.

“posso passar?”
“vai demorar muito?”
“um instante para abrir a porta”.

No inverno sem ela,
a casa se tranca em si mesma
E suas entranhas incham
do próprio vazio
E estar na imensidão despovoada da casa
obesa
encerrada e sem atrativos
como enrolada em fuseau vagabundo
É sentir-se um inútil parasita

que engole o mesmo silêncio
e permanece imóvel
no espaço que se vai
dilatando,

metódico como pesadelos.

 

* Sim, algum leitor de mais sensibilidade já deve ter percebido que este é o terceiro poema mais ou menos no mesmo mote. Há um motivo, estou compondo aos poucos uma série deles. Talvez depois de terminada junte tudo aqui numa página separada. E se não, valeu o exercício, ao menos.

Agosto e alguma coisa depois

8 Setembro, 2008 por hefestus

Agosto se foi.

As coisas muitas vezes se tornam confusas com agosto. Nunca se sabe o que uma mítica, uma escrita, uma simples superstição, pode tentar fazer para provar que deve ser levada a sério.

As coisas ficam estranhas em agosto. Agosto já esteve presente em ondas cada vez mais constantes como um marco qualquer, retornando em espirais cada vez mais carregadas de símbolos, signos sobre signos, marcos celebratórios vários que na verdade celebravam derrotas e túmulos e acidentes de pista e tropeços de pescurso.

Agosto ás vezes merece passar sem que o notemos, não vos parece?

Uma tradução

13 Julho, 2008 por hefestus

Tradução feita por este que vos escreve para um poema de Mestre Bukowski.

Tem tudo a ver com este horário…

one thirty-six a.m.
 

Eu rio às vezes quando penso nisso
digo
Céline na máquina de escrever
ou Dostoiéwski…
ou Hamsun…
homens comuns com pés, ouvidos, olhos,
homens comuns com cabelo sobre suas cabeças
sentados lá, datilografando palavras
enquanto estavam em dificuldades na vida
enquando estavam sendo enganados quase até a loucura.

Dostoiéwski se levanta
deixa a máquina e vai mijar,
volta
bebe um copo de leite e pensa
no cassino e
na roleta.

Céline pára, levanta, caminha até a
janela, observa, pensa, meu último paciente
morreu hoje. Eu não tenho que fazer mais nenhum
atendimento aqui.
quando eu o vi pela última vez
ele pagou a conta;
São aqueles que não pagam suas contas,
os que continuam vivendo.
Céline volta, senta-se
à máquina
Ainda tem uns bons dois minutos
e então começa a datilografar.

Hamsun pára à frente de sua máquina pensando,
Eu me pergunto: eles vão acreditar
em todas estas coisas que escrevo?
Ele senta, começa a datilografar.
Ele não sabe o que é um bloqueio de
escritor:
ele é um filho-da-puta prolífico
quase tão magnífico quanto
o sol.
Ele continua datilografando.

E eu rio
não muito alto
para estas paredes, estas
paredes azuis e amarelo-sujo
meu gato dorme sobre a
mesa
escondendo seus olhos da
luz.

Ele não está só esta noite
e nem
eu.

Cacos no piso

13 Julho, 2008 por hefestus

Havia uma ilusão aqui
antes
Ficava bem ali, na
cabeceira da cama
E um certo afeto
derramado
havia manchado o tecido
do sofá que se foi.

Entornávamos no chão
poesia? Não?
coisas mais sólidas
ou antes, líquidas
e o frescor do parquê
no verão era o único
ar incondicional
que nossos corpos exigiam

Antes do inverno tomar a casa,
dormíamos ao relento
em varanda alheia
e o frio nos parecia
um reino
Quando a casa chegou
o sol viciado
pela janela inconveniente
jogou luz demais
e não deixou sombra intacta
em que pudésssemos esconder
nosso afeto.

Havia o indizível
encostado atrás desta porta
que agora fecho
encerrando pó e papéis
jogados em desordem
dividindo espaço
na sala vazia

com os cacos esparsos
de nossas mãos
entrelaçadas

Reorganizando a estante de discos

7 Julho, 2008 por hefestus

Estranho ouvir Fake Plastic Trees de novo.

Há alguns anos era uma audição que vinha acompanhada de uma dor com o peso do mundo, e a voz dolente de Thom Yorke ao cantar if I could be who you wanted… all the time parecia cravar repetidas vezes um punhal de gelo no meu peito.

E hoje a melancolia estética da música ainda está lá. Mas não mais a dor, o punhal de gelo, o coração parecendo desmoronar aos poucos como um morro erodido pela chuva.

Passou. O que fazia a dor estar lá passou.

E é estranho sentir que mesmo a dor deixa saudade.

A casa no inverno

25 Junho, 2008 por hefestus

Ausências antigas vertem das
paredes. E memórias relegadas
chovem radioativas nas
dançantes partículas de
água e silêncio que
revestem as ruas para
depois cederem espaço a
um vento que sopra decepções ancestrais.

Vozes velhas viajam nesse
vento, vazias. Vozes de
alter egos mortos bebendo nos
beijos palavras de amores perdidos.
Vozes afônicas de tanto grito
trancado, mudo estático.
Vozes que mancham o
cenário de fundo da
memória como
óleo vazando de um mecanismo defeituoso

A casa no inverno é fria de
esquecimento 
A matéria úmida das
promessas não cumpridas absorve qualquer
vestígio de sol.

E o esfregão
não limpa ou
seca. Apenas espalha os
cacos recendendo a
pinho de uma história
mal contada

Maltratada

A casa no inverno afoga seus
mortos. Na certeza desesperada de
que tanto tempo e ainda é inverno.
Haverá um verão, se
ainda tarda tanto?

MPB – ou Modificando Provérbios Bíblicos

25 Junho, 2008 por hefestus

É mais fácil um Marcelo Camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um José Rico entrar no Reino dos Céus.