Já fui um leitor melhor. Ou melhor, já fui um leitor mais curioso pelo entorno de um livro: seu autor, o contexto de sua produção, até mesmo uma vaga idéia da trama já me ajudada (nunca fui daqueles que gostam de ser “surpreendidos” pela obra e portqanto resolvem não ler nada sobre ela. Acho que obra que te surpreende é a que é boa, só). O fato é que eu já fui de me informar mais, ler resenhas para saber que livros estavam sendo traduzidos no Brasil, de quem, em que circunstância…
Dia desses me bateu que não tenho mais saco pra ler resenhas, nem mesmo críticas mais ou menos fundamentadas porque parece que hoje tudo o que se fala sobre livros em jornais e assemelheados é uma gigantesca tentativa de descrever com prolixidade uma impressão que um surfista poderia resumir em uma ou duas palavras: “Ducaralho” se gostou e “uma bosta”, se não gostou.
O resenhista, quando fala de um livro, está em parte compartilhando seu juízo sobre a obra com um leitor. Mas ao mesmo tempo me parece que ele quer ser admirado pelo que está dizendo, não apenas pelo conteúdo mas pela forma, então surge uma série de lugares-comuns e clichês de crítica que se espalham pelas páginas como o time do Inter ocupa espaços em campo. E confesso que isso irrita (os clichês, nunca o Inter), ainda mais porque na maioria das vezes a postura é arrogante, apontando clichês e coisas de mau gosto na obra, mas numa linguagem em que o vocabulário é restrito, composto de palavras complicadas que os críticos adoram repetir. Se formos contar numericamente, a variedade vocabular da maioria das resenhias em atividade é a mesma de uma revista de rock-pauleira, só que os críticos usam palavras mais complicadas.
Reparem:
Em uma crítica favorável, o livro sempre
* É tecido por múltiplas ou por uma variedade de vozes,
* é narrado com humor e tem uma trama imaginativa
* Tem um texto que flui / solto / leve / agradável
* é uma experiência de leitura inesquecível.
Há sempre um arrazoado pretensioso sobre a função da arte antes de se amarrar uma sentença que resume a obra e que poderia ser melhor entendida como uma equação matémática:
A OBRA É UM….
[retrato]-[espelho]-[panorama]-[flagrante]-
[fiel]-[cruel]-[vibrante]-[bem acabado]-[cáustico]
DA/DO
[solidão]-[abandono]-[desespero]-[isolamento]-
DO HOMEM NO/NA
[sociedade moderna]-[mundo pós-moderno]-[civilização tecnológica contemporânea]-[mundo primitivo arcaico].
Com a recombinação apropriada desses elementos e de outros que podem ser lembrados mais adiante, têm-se já um projeto de crítica.
Ah, claro, e há um monte daqueles que finalizam com o manjado truque retórico de pesar prós-e-contras no resumo final, normalmente feito em uma frase ou duas, e dizer que pelo menos o livro cumpre o que se propõe, está acima da média ou é competente. E alinhava com o supremo clichê de efeito: o que, convenhamos, não é pouco.
Talvez por isso hoje eu leia bem menos disso. O que me deixa tempo para fazer o que faríamos num mundo ideal: ignorar as críticas e ir direto à fonte. O demais, que se foda.