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Decohenlogo

7 Abril, 2008

\"The field Commander Cohen\"

Ou “10 razões pelas quais você deveria curtir Leonard Cohen tanto quanto eu”

Ele é escritor-compositor, e não o contrário
Gabriel, o Pensador, resolveu virar escritor infantil. Madonna idem. Chico Buarque, depois de fazer nome como um dos maiores compositores musicais em qualquer língua, decidiu virar finalmente “romancista” – eu gostei muito de Budapeste, mas os outros dois estão abaixo da crítica. Do mesmo modo, Nelson Motta se descobriu romancista. Bob Dylan lançou, depois de já ser Bob Dylan, Tarantula, uma experiência que só fez a cabeça de quem estava chapado pela contracultura. Depois, suas Crônicas, que são ok mais como testemunho. De toda essa fauna, o canadense Leonard Cohen é um dos que transitam na maré contrária. Já era um nome consolidado como poeta e havia granjeado uma boa reputação com o lírico romance Beautiful Losers (1966) quando finalmente lançou o mitológico Songs of Leonard Cohen (1967). Há que se respeitar quem passa das praias amplas do romance para a concisão melódica de uma canção de alta qualidade. Mais: Cohen trouxe para suas músicas um senso narrativo que as transforma em pequenas histórias musicadas, na melhor tradição da canção-conto em língua inglesa praticada por gênios do rock e do pop como Lou Reed, Bob Dylan ou o próprio Johnny Cash.

A voz
Sim, eu sei, esse era o Sinatra, mas aqui eu quero dizer a voz mesmo, a emissão sonora produzida pelo aparelho fonador de um indivíduo. A de Cohen é grave, densa e arrastada como um rio lamacento. Quado canta pode ser ao mesmo tempo sedutor e sofrido, o que é uma combinação rara, principamente no mundo “bate-palma-pra-mim-que-eu-sou-foda” da música pop.

Um sucesso na experimentação musical
Cohen não é um virtuose do instrumento, embora seja um grande cantor, mas suas canções transitaram ao longo destas mais de quatro décadas de carreira por ritmos e temas variados sempre com um grau de sucesso e qualidade que não se encontra em qualquer fenômeno atual. Ele fez músicas a partir de bases da tradição sacra (como Bird on a Wire ou a Hallelujah que mais tarde Jeff Buckley regravaria também com uma interpretação pessoal dilacerante), de canções patrióticas da II Guerra (The Partisan), das hediondas experimentações eletrônicas dos anos 1980 (The Future, Everybody Knows e First we Take Manhattan), de ritmos tradicionais modernizados por ele (Take This Waltz) e mesmo da canção clássica na linha Sinatra e Tony Benett (I’m your Man e Ain’t no cure for Love).

Famous Blue Raincoat
Uma sofrida e complexa história de traição, fraternidade e desamor em uma canção dolente que dura pouco mais de cinco minutos. Um homem dirige uma carta amarga e afetuosa ao mesmo tempo a um amigo que tempos antes teve um caso com a mulher do narrador-missivista. A complexidade desse tipo de relação triangular nos anos em que a música foi composta (fim dos anos 1960, incluída, não por acaso, em um disco chamado Songs of Love and Hate, de 1970) é retratada de forma elíptica e ao mesmo tempo muito clara. E enquanto a narrativa pode ser deduzida na primeira audição, há referências sutis que dão mostras de algumas das obsessões do próprio artista, como no verso em que ele diz que o amigo foi para a estação à procura de qualquer trem que passasse e que voltou de lá sem Lili Marlene alguma – referência tanto ao filme de Fassbinder quanto à canção que, na II Guerra, por sua popularidade, foi adotada por ambos os lados do conflito, numa alusão sutil à Jane mencionada na música, amante dos dois homens da história.

Chelsea Hotel #2
Canção paradigmática por três motivos: o primeiro é sua beleza, o segundo é que se trata de uma crônica apurada do feérico panorama artístico do cenário musical americano nos anos 1960, e o terceiro é que talvez seja uma das poucas canções já compostas por um astro da música narrando a noite em que traçou outro astro (este tipo de trocadilho funciona melhor em inglês, mas eu quis dizer “estrela”) da música – no caso Janis Joplin, que passou uma noite com Cohen no quarto nº2 do lendário Hotel Chelsea de Nova York (onde Dylan Thomas morreu bêbado, Hemingway teria escrito Por quem os Sinos Dobram e Sid Vicious foi acusado de matar a namorada Nancy Spungen). Talvez ele tenha sido um calhorda ao escrever isso – na verdade a música foi escrita depois de Janis ter morrido de overdose pouco tempo depois daquela noite, e perpassa pela letra uma melancolia que de alguma forma mostra que aquela noite marcou Cohen o bastante para que ele inventasse sobre ela um sentimento particular traduzido na canção. Não necessariamente o sentimento real, mas é o que poetas fazem, no fim das contas.

Suzanne
Primeira obra a chamar atenção para o talento de Cohen como compositor, e responsável, na gravação da cantora Judy Collins. É uma pequena jóia poética, narrando o encontro com uma mulher fascinante que, consta a crônica, existiu na vida real, era uma poetisa e artista plástica de Toronto. Consta que ele teria se apaixonado por ela enquanto passavam longas tardes tomando chá, conversando e passeando à beira do rio, elementos singelos de uma amizade e de uma comunhão espiritual retratados com delicadeza nos belos versos que também oferecem uma curta porém impactante visão pessoal de Cohen sobre o espiritualismo religioso em geral e o Cristianismo em particular.

Hey, That’s no way to say goobye
Questão muito particular, claro, mas esta música figuraria, para mim, sem favor algum, entre as 10 melhores coisas já escritas sobre separação (ao lado de For no One dos Beatles, Ain’t not me, Baby de Bob Dylan e outras que eu teria que cavar para chegar a 10). Convenhamos, qualquer música que tenha um verso como “Eu te amei pela manhã / seus beijos profundos e mornos / seu cabelo sobre o travesseiro / como uma sonolenta tempestade dourada” já conta muitos pontos.

Sua influência consistente
Cohen é uma referência inegável em Nick Cave, Nick Drake e no já citado Jeff Buckley. Sua classe e sua poesia cool firmaram bases até hoje seguidas pelos novos integrantes da já mencionada linhagem da canção poético-narrativa. Não chega a ser uma influência avassaladora como a de Dylan ou mesmo de Johnny Cash, mas também Cohen tem seu lugar assegurado no rol dos grandes compositores românticos-sem-ser-bregas (ok, às vezes).

Ele é um mestre budista
Mestre mesmo, ordenado depois de anos vivendo em um mosteiro. Pode parecer uma bobagem, mas numa época em que popstars se tornam célebres por terem overdoses, entrarem e saírem de clínicas de reabilitação como se estas fossem os pátios ajardinados de suas próprias mansões, ter um artista relevante que se retira de tudo, mesmo da música por alguns anos, é louvável. Mesmo que isso normalmente redunde em pouco benefício musical – a fase católica de Bob Dylan não é das mais inspiradas, com a exceção de Gotta Serve Somebody, e o Tim Maia Racional é algo que vale pelo gênio musical de Tim mais do que pels letras (desculpem, pessoas, mas letras para mim são importantes).

Ele foi casado com Rebecca de Mornay
Certo, esta é uma razão bem pouco “artística”, mas para aqueles que, como eu, tiveram na sua adolescência o vislumbre das formas generosas e sempre dadivosamente mostradas em filmes como Negócio Arriscado, a sofrível refilmagem E Deus Criou a Mulher e mais tarde o suspense falhado Nunca Fale com Estranhos só podem respeitar o cara que andou pastando em campos tão verdejantes.