Não se fala por estes dias em outra coisa senão o vertiginoso ano de 1968. E, como é muito freqüente acontecer, abundam as interpretações dos participantes daquela geração de que aquele momento foi a plenitude uma assim chamada “era de ouro”. As memórias daqueles anos, evocadas e edulcoradas hoje, quando a decadência – alguém pensou em José Dirceu – já se apossou dos sonhos de juventude, remontam, talvez por um vício saudosista, o passado como o limiar de uma era brilhante, como um período em que era possível “sentir no ar” que o mundo estava aberto à frente e que se vivia o ápice de um tempo – e, como os pensamentos que seguem esse modelo, o arco final do raciocínio é que esse movimento em direção ao progressoa foi abortado por alguma tragédia ou evento externo e inesperado.
É o que falam os escritos que se referem aos anos 20, por exemplo, à louca “era do jazz” na qual a liberdade sexual e cultural de um grupo de privilegiados fez brotar uma efervescência que sedimentou o caminho para a modernidade. Até que a quebra da Bolsa em 1929 pusesse tudo por terra. Também assim vemos o 1968, que ainda se lamenta porque seus projetos foram “abortados” pela ditadura militar aqui no Brasil e pelo refluxo do conservadorismo no resto do mundo: jovens tomaram as ruas em Paris, em Praga, nos Estados Unidos, defendendo um ideal de amor e poesia, enquanto aqui trabalhos sociais e manifestações de ampla força cultural traziam para o público intelectual classe média um conhecimento maior do chamado “Brasil Profundo” – até que os militares vieram com suas botas e terminaram com tudo, na já amplamente divulgada versão da juventude da época e velharada de hoje (quando eu penso que exemplos citados dessa tentativa de “ver o Brasil” são filmes de Glauber Rocha e Maria Bethânia cantando Carcará no show Opinião quase chego à conclusão de que os milicos estavam no caminho certo – não, na verdade não penso, mas a piada era boa).
Como fala por exemplo David Harvey em A condição pós-moderna, ou Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida e Identidade, a noção de luta por um progresso melhor morreu com o século 20, não temos mais essa noção de que o mundo vai evoluir em direção a um futuro utópico (isso é uma noção moderna clássica). O que temos é um presente perpétuo, que não deixa saídas. Acho que a situação pode ser pior para a geração depois da minha, mas para mim, nascido em 1974, criado em um bairro pobre de uma cidade do Interior da metade sul do Rio Grande do Sul, a impressão é sempre de um triste intervalo, de um vazio em que estivemos sempre mergulhados nessa decepção que as gerações antigas sentiam, mas sem o consolo de uma época áurea. Que a chamada “época áurea” era quando ainda tínhamos a esperança de que a situação ruim fosse melhorar. O nosso auge parece ter passado enquanto a gente estava ocupado demais tendo esperança de que ele viria.
Comecei a trabalhar aos 12. Aos 14, arranjei tempo para, com alguns vizinhos, montar uma banda de rock. Em dois anos de atividade, mudamos de formação três vezes (a terceira sem mim) e de nome cinco. E nossos únicos pontos altos foram uma apresentação em Santa Maria em um show coletivo com outras bandas novas da região e um show em que, na nossa cidade, abrimos para o à época já conhecido – embora menos que hoje – Frank Solari. achávamos que podíamos melhorar e que logo alcançaríamos algo.
Não alcançamos. Aquele momento de trabalho duro e ralação era o nosso auge, não teríamos mais do que aquilo.
Em 1984, na incensada democratização do Brasil, eu tinha 10 anos. Impossível participar plena e ativamente daquilo. Em 1989, quando o Lula concorria na primeira eleição direta e eu cheguei a fazer campanha e colar cartaz, eu tinha 15. Início, apenas, e nem votar eu pude. E o candidato que eu havia escolhido perdeu, como perderia todas as eleições seguintes, e eu jamais imaginaria que quando ele finalmente ganhasse quem perderia seríamos nós, os que votamos nele.
Hoje, quando volto para a minha cidade, procuro perscrutar os caminhos dos colegas de infância e juventude. Um, que sonhava passar na ESA e fazer carreira, virou balconista de farmácia em Santa Maria e depois atendente de treiler de xis aqui em Porto Alegre. Outro, o melhor de nós musicalmente falando, desistiu de viver da música e virou cabo da Brigada na região metropolitana. Outro é um mecânico bêbado. Um outro – vizinho, mas não da banda – hoje é biscateiro e tem cinco filhos. Cinco filhos com 32 anos. Um outro chegou a ser músico em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Torrou os poucos miolos que tinha cheirando, fumando e tomando tudo o que apareceu pela frente e foi descoberto há alguns anos como mendigo em Porto Alegre. Repatriado pela mãe, vende artesanato no centro da nossa cidade. Tem ataques de fúria e fala sozinho sentado na calçada. Um outro, que chegou a tocar com a gente mas que não se incorporou ao grupo, sumiu no mundo. Em 2002, encontrei-o de férias na nossa cidade. Estava vivendo na Bahia, era de um grupo de axé e morava numa cidade mais próxima de Brasília do que de Salvador. Achei bom – menos a parte do axé, claro. Mas bem ou mal era um cara com alguma chance, no fim, de ser o único dentre nós que foi adiante na música. Em 2003, noutras férias, soube que desde a última vez que o vira ele havia matado um sujeito numa briga por mulher e estava foragido da justiça.
Escuto sempre essa ladainha idiota da “era de ouro” na qual as mudanças “eram palpáveis” e a “efervescência estava no ar”. Papo de burguês da Capital. Qualquer capital. Para toda uma geração criada nas cidades mais pobres do Estado, não houve o tal período. Houve uma expectativa que foi na verdade o período de glória. A glória de poder esperar algo melhor no dia seguinte.
Fico imaginando como deve ser isso na cabeça de quem tem 18 hoje, num país em que não sobrou nada: nem ética, nem sonho de engajamento político, nem solidariedade, nem exemplos, em que o panorama é de pobre moral, artística e espiritual.
Logo, vítimas dos anos 70, calem essa boca, por favor. A estrela intelectual de vocês não resolveu nada em oito anos. A estrela operária em outros oito fez mais para desacreditar a política e a democracia do que os próprios milicos. Os míticos guerrilheiros engajados na transformação política brasileira por meio da luta armada, como Dirceu e Genoíno, capitularam à corrupção. Calem a boca, por favor, e não se lamuriem por seus fracassos. Vocês pelo menos ainda têm a desculpa de um sonho abortado.

