Arquivo da categoria ‘Nada Demais’

De um e-mail não enviado

29 Junho, 2009

Para alívio da poesia e da dignidade do autor…

Meu amor por ti é como uma luz incidindo oblíqua na poluíção da rua.  Não muda o essencial,  mas faz a gente pensar em como aquilo parece bonito mesmo com tanta fumaça e veneno.

Meu amor por ti é um feto sombrio, que me rasga a carne e permanece atado a mim pelo cordão dantesco de um afeto doente.

Meu amor por ti é estar no meio da corda estentida no abismo, grandioso vir-a-ser que não consegue ser nem vir. É o equilibrista acometido por ataque de pânico: eu não quer ir adiante, mas voltar é tão perigoso quanto.

Meu amor por ti me queima como ácido e é algo sem o que não mais me imagino – mas que ainda vai acabar me matando.

Meu amor por ti é três carteiras de cigarro por dia em tempos de polticamente correto.

Meu amor por ti é má poesia
Espontânea mas sem efeito.
E constrangedora
para terceiros

Identidades

3 Dezembro, 2008

Organizar cartas e arquivos, aproveitando uma folga não planejada mas sempre bem-vinda, é uma experiência de tal modo desconcertante que o resultado final muitas vezes é mais cansativo do que simplesmente permanecer na senda segura do cotidiano. Principalmente quando já se deixou de ser jovem, e se está instalado a contragosto naquilo que enchem a boca para chamar de vida adulta.

Primeiro chama a atenção o desperdício de tempo e energia, monumental, desmedido, e eu muitas vezes não entendo como este mesmo sujeito que escrevia, por exemplo, páginas e páginas deste blog sem esforço há uns cinco anos agora simplesmente aparece só de vez em quando – não que faça diferença, mas vou tentar retomar este espaço com mais freqüência, foi um ano difícil, foram dois anos difíceis, na verdade, mas não aquela dificuldade de antes, a dificuldade entre pular da janela e se arrastar por aí puxando um cadáver pelo pé descarnado, como uma vez comentou um leitor bissexto destes textos ainda mais bissextos. A dificuldade é simplesmente a superposição de tarefas e atribuições cada vez maior, o que não é de modo algum um desprazer, é só um cansaço, uma exaustão que mina a disposição para ainda ter opinião e impressões sobre tudo: e sim, no fim é um sinal de um certo embotamento no contato com o mundo, o que, se por um lado é bom por preservar a pele, por outro desperta uma saudade inevitável daquela energia tão dolorida que se tinha para ser desperdiçada como se não fosse acabar nunca.

Mas estamos de volta, e pra dizer a verdade há umas coisas bem legais acontecendo naquilo que eu chamaria de minha “vida concreta” – eu usava, de brincadeira, “vida civil”, mas o fato é que isso transformaria a identidade Hefestus na “vida militar”, e não há muitos precedentes para o sucesso de sujeitos mancos e corcundas nas forças armadas, como qualquer um que viu o filme 300 vai se lembrar. Essas coisas do mundo concreto poderiam render alguma conversa descompromissada, mas o fato é que isso entraria demais na identidade (aí sim) civil, o que não me interessa. Certa vez uma amiga, uma das poucas criaturas que conhece ambas as metades desta massa esquizofrênica, leu alguns de meus textos ficcionais e perguntou por que eu não publicava mais daquilo no blog, e a resposta sempre foi de que este Hefestus é um exercício de liberdade que talvez se tornasse de restrição se eu tivesse que um dia escolher publicar de novo aquilo com meu próprio nome – como talvez algo com meu próprio nome esteja perto de ser publicado. Aí ela me sugeriu que assumisse a identidade “Hefestus” de uma vez, mas não era por aí, nunca foi o objetivo. Sei que há gente que o faz na internet e nos livros, e me lembro da Indigo como o exemplo mais à mão, mas Hefestus nunca fui eu eu, o eu de fora da rede, o eu que tinha crises depressivas e fazia confidências constrangedoras e bebia demais e rodava pela noite desterrado de si mesmo. NO início até foi um pouco, mas depois ficou claro que o blog era uma oportunidade de extrapolação e até de invenção, o que tornava muito divertido contar algo que realmente acontecera e algo que só havia saído da minha cabeça com o mesmo “valor de face”, por assim dizer, como se não houvesse diferença. E por isso não me compadeço da eterna ladainha de uma Clarah Averbuck a respeito de como as pessoas confundem “o que ela escreve no blog” com o que ela é. Essa relação de acumulação na passagem da vida para o texto é óbvia para qualquer escritor, e se não se quer compremeter a recepção do que se escreve com argumentos colaterais e complamente acessórios, é óbvio que o anonimato é a melhor coisa a se fazer. E por isso o Hefestus destas páginas pôde talvez roçar os limites do abjeto e agora olhar com alguma tranqüilidade e até carinho para o que rabiscou naquele tempo justamente porque os efeitos foram mínimos. Aquilo era fase, era o motivo para iniciar o blog e ao mesmo tempo… ao mesmo tempo em algum lugar lá no fundo eu sabia, mesmo nas trevas, que o dia em que aquilo tudo passasse provavelmente eu perceberia o exagero e me sentiria muito constrangido comigo mesmo – porque em tempos de BBB e de reality shows de tudo quanto é tipo, e de revista Caras, e de celebridades que vendem fotos de filho com exclusividade para o tablóide que pagar melhor, eu ainda mantenho um certo pudor antiquado da exposição em demasia, e para escrever o que eu precisava naquela época, aquelas palavras que me ajudaram, de certo modo, na tormenta mais difícil, eu queria a liberdade de não ter de ficar dando explicações. Por isso a identidade secreta desde o início.

Naquela época pouca gente sabia o que era blog, o que tornava ainda a brincadeira mais interessante pela hipótese remota de que alguém no mundo real cruzasse com os textos e fizesse a ligação – e ainda assim houve duas pessoas que o fizeram. Depois, blog virou o assunto do momento, virou “meio de comunicação” e até mesmo canal patrocinado, e só agora me dou conta de que isso talvez tenha ajudado um pouco na minha retração posterior. E hoje, como se cruzou a linha e tem tanto blog por aí, este espçao de novo parece um lugar seguro para exercer esse paradoxo que é a confissão real-fictícia em espaço de acesso público feita por sujeito que tenta preservar algo da sua identidade. E talvez agora, associado a um aliviar possível das atribuições em cascatas, seja mais fácil retomar estes conceitos com regularidade.

Mas que às vezes aquela energia lá do começo faz falta, ah, isso faz, com depressão, porres homéricos, chatice e tudo o que vem no pacote.

Espaço

26 Setembro, 2008

No inverno a casa devora silêncios
Regala-se tanto com seu próprio ser
pesado, sem contato com o mundo
e tanto banqueteia-se em sua existência
autosuficiente
e inerte
que incha,
obesa de espaços vazios

A casa engorda nas ausências.

Houve verões, e a casa
já os desfrutou de janelas abertas
e portas escancaradas
e o piso suado de marcas de pés
e carimbos da carne livre
rolando sobre as tábuas
No verão a casa mostrava-se
como sílfide em miniblusa

E tudo era um mover-se batendo
Em algo colocado no lugar errado
E até para o ritual diário da
nulidade cotidiana
havia que se pedir licença.

“posso passar?”
“vai demorar muito?”
“um instante para abrir a porta”.

No inverno sem ela,
a casa se tranca em si mesma
E suas entranhas incham
do próprio vazio
E estar na imensidão despovoada da casa
obesa
encerrada e sem atrativos
como enrolada em fuseau vagabundo
É sentir-se um inútil parasita

que engole o mesmo silêncio
e permanece imóvel
no espaço que se vai
dilatando,

metódico como pesadelos.

 

* Sim, algum leitor de mais sensibilidade já deve ter percebido que este é o terceiro poema mais ou menos no mesmo mote. Há um motivo, estou compondo aos poucos uma série deles. Talvez depois de terminada junte tudo aqui numa página separada. E se não, valeu o exercício, ao menos.

Reorganizando a estante de discos

7 Julho, 2008

Estranho ouvir Fake Plastic Trees de novo.

Há alguns anos era uma audição que vinha acompanhada de uma dor com o peso do mundo, e a voz dolente de Thom Yorke ao cantar if I could be who you wanted… all the time parecia cravar repetidas vezes um punhal de gelo no meu peito.

E hoje a melancolia estética da música ainda está lá. Mas não mais a dor, o punhal de gelo, o coração parecendo desmoronar aos poucos como um morro erodido pela chuva.

Passou. O que fazia a dor estar lá passou.

E é estranho sentir que mesmo a dor deixa saudade.

Bukowski

26 Maio, 2008

Mestre Buk

Tradução minha para A Smile to Remember

um sorriso para relembrar

nós tínhamos peixes dourados e eles nadavam rodando e rodando
no aquário sobre a mesa próxima às cortinas pesadas
cobrindo a foto na janela e
minha mãe sempre sorrindo, querendo que todos nós
fôssemos felizes, me disse: “Seja feliz, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
consegue
mas meu pai continuou a bater nela e em mim várias vezes por semana
furioso dentro de sua fotografia de 30cm x 15cm porque ele não conseguia
entender aquilo que o estava atacando por dentro.

minha mãe, pobre peixe
querendo ser feliz, surrada duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria
por que você nunca sorri?”

e então ela sorriria para me mostrar como fazer, e aquele foi
o sorriso mais triste que jamais vi

um dia, os peixes dourados morreram. Todos os cinco
ficaram flutuando na água, de lado, seus
olhos ainda abertos.
e quando meu pai chegou da rua ele jogou-os para o gato.
ali mesmo no chão da cozinha e nós ficamos assistindo enquanto minha mãe
sorria.

Mudou a intimidade ou mudamos nós?

22 Maio, 2008

O gesto de repetição que me encontra não significou “eu não te amo”, e sim “você não pode me amar tanto quanto gostaria de fazer, você que está tristemente amando seu amor por mim, e no entanto seu amor por mim não ama você”.
Portanto, não é certo dizer: eu conheci as palavras “Eu te amo”; tudo que conheci foi o silêncio expectante que deveria ter sido quebrado por mim dizendo “eu te amo”.
Kafka. Cartas a Milena.

Leitura emendada com a da correspondência dolorosa entre Scott Fitzgerald e sua bela e maluca esposa Zelda.

Estranho pensar que são cartas pessoais – e cartas de amor – escritas muito, muito antes de todo mundo escrever blogs por aí.
E, no entanto, parece que naquela época as pessoas tinham mais coragem de se expor. Ou faziam isso com mais qualidade. Talvez naquela época as pessoas simplesmente não tivessem o medo do ridículo.

Porque Fernando Pessoa nos liberou para considerar todas as cartas de amor ridículas. Mas ninguém parece nos liberar para passar ridículo.

O Tempora

7 Abril, 2008

Vejo um programa desses formados por esquetes do que se chamaria de “pegadinhas”, e sempre me impressiono o quanto tantas pessoas reagem violentamente ao estímulo da brincadeira. Senhoras dando bolsadas, sujeitos correndo atrás do ator prontos para fazer uso de espancamento, violência física e outras formas de interação social.

Ouvi dizer que hoje em dia esses programas são só encenações. E sinceramente, pelo que vi, fico torcendo para que sim, mas vou dizer agora o motivo por que eu não me espantaria se fosse verdade… Porque de uma maneira geral eu percebo que as pessoas lá fora parecem estar irritadas, nervosas, enfurecidas, que suas vidas são vividas no limite da civilidade e parece que estamos todos retornando aos tempos anteriores às normais sociais. Que estamos todos nós regredindo ao “estado da natureza”, ao revide violento e gratuito. Que estamos afundando numa espiral de intolerância. E é isso que vejo quando a primeira reação das pessoas aos trotes já é partir para a porrada, os brucutus agarram o ator engraçadinho pelo cabelo, dão tabefes, chutes, saem em perseguição, mulheres dão guarda-chuvadas ferozes e um sujeito lá está provocando riso com o fato de ser agredido.

Pra mim pelo menos é complicado.

Pra vocês não?

Da série Pesquisando e Andando

6 Março, 2008

Essa fazia tempo que eu não abordava justamente porque blog novo e semiabandonado não rende muita pesquisa no Google e, portanto, não rende post sobre pesquisas que vão parar no lugar errado. Como agora que o blog está em atividade de novo o pessoal tem aparecido outra vez, meu contador de visita diz que vieram parar aqui nesta págfina incautos procurando as seguintes expressões:

tatuagens de samurai 1
Bá, vou ficar devendo. Que eu soubesse, quem usava tatuagem era a Yakuza – e eles eram uma máfia, não um clã samurai.

verdade cristalizada 1
Bonito isso. Vendem na mesma prateleira que figos cristalizados? É usado para decorar doces?

textos inventados para ler 1
Ahn… Me corrijam se eu parecer imbecil, mas quais textos são inventados para NÃO ler?
 

Gavetas

5 Fevereiro, 2008
Um dia voltei da rua e a gaveta estava vazia, me confirmando com sua mudez acusatória o que eu já havia ouvido, já havia visto, e já havia sabido, intelectualmente sabido, intelectualmente notado, mas não havia entendido.
E de repente era meu aquele vazio.
Uma saudade tremenda, uma vontade de me encolher, fetal, no carpete, e me tornar líquido, me desfazer de tal modo que atravessasse o piso e o teto do apartamento de baixo, e afundasse em direção às caixas de força e luz no final do subsolo, e depois ao fundo da rua, mergulhando na escuridão acolhedora do centro da terra.
Mas não dá pra fazer isso. Então me sobra a solidez da saudade. Foram levados meus últimos vestígios.
Tenho um problema com gavetas. Elas sempre simbolizam mais coisas do que deveriam.
Tenho um problema com gavetas vazias.
Tenho vontade de mergulhar na gaveta vazia e sumir. desaparecer para nunca mais ser encontrado.

Do fundo da Adega

2 Janeiro, 2008

Amy Winehouse fez um sucesso astronômico com uma música na qual dizia:

They tried to make me go to rehab but I said ‘no, no, no’

Quem já não pensou ao ver alguma coisa associada ao nome da cantora na mídia que talvez ela tivesse feito melhor dizendo “sim”?