Arquivo da categoria ‘Mídia’

Algumas considerações com 1968 como pretexto

26 Maio, 2008

Não se fala por estes dias em outra coisa senão o vertiginoso ano de 1968. E, como é muito freqüente acontecer, abundam as interpretações dos participantes daquela geração de que aquele momento foi a plenitude uma assim chamada “era de ouro”. As memórias daqueles anos, evocadas e edulcoradas hoje, quando a decadência – alguém pensou em José Dirceu – já se apossou dos sonhos de juventude, remontam, talvez por um vício saudosista, o passado como o limiar de uma era brilhante, como um período em que era possível “sentir no ar” que o mundo estava aberto à frente e que se vivia o ápice de um tempo – e, como os pensamentos que seguem esse modelo, o arco final do raciocínio é que esse movimento em direção ao progressoa foi abortado por alguma tragédia ou evento externo e inesperado.

É o que falam os escritos que se referem aos anos 20, por exemplo, à louca “era do jazz” na qual a liberdade sexual e cultural de um grupo de privilegiados fez brotar uma efervescência que sedimentou o caminho para a modernidade. Até que a quebra da Bolsa em 1929 pusesse tudo por terra. Também assim vemos o 1968, que ainda se lamenta porque seus projetos foram “abortados” pela ditadura militar aqui no Brasil e pelo refluxo do conservadorismo no resto do mundo: jovens tomaram as ruas em Paris, em Praga, nos Estados Unidos, defendendo um ideal de amor e poesia, enquanto aqui trabalhos sociais e manifestações de ampla força cultural traziam para o público intelectual classe média um conhecimento maior do chamado “Brasil Profundo” – até que os militares vieram com suas botas e terminaram com tudo, na já amplamente divulgada versão da juventude da época e velharada de hoje (quando eu penso que exemplos citados dessa tentativa de “ver o Brasil” são filmes de Glauber Rocha e Maria Bethânia cantando Carcará no show Opinião quase chego à conclusão de que os milicos estavam no caminho certo – não, na verdade não penso, mas a piada era boa).

Como fala por exemplo David Harvey em A condição pós-moderna, ou Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida e Identidade, a noção de luta por um progresso melhor morreu com o século 20, não temos mais essa noção de que o mundo vai evoluir em direção a um futuro utópico (isso é uma noção moderna clássica). O que temos é um presente perpétuo, que não deixa saídas. Acho que a situação pode ser pior para a geração depois da minha, mas para mim, nascido em 1974, criado em um bairro pobre de uma cidade do Interior da metade sul do Rio Grande do Sul, a impressão é sempre de um triste intervalo, de um vazio em que estivemos sempre mergulhados nessa decepção que as gerações antigas sentiam, mas sem o consolo de uma época áurea. Que a chamada “época áurea” era quando ainda tínhamos a esperança de que a situação ruim fosse melhorar. O nosso auge parece ter passado enquanto a gente estava ocupado demais tendo esperança de que ele viria.

Comecei a trabalhar aos 12. Aos 14, arranjei tempo para, com alguns vizinhos, montar uma banda de rock. Em dois anos de atividade, mudamos de formação três vezes (a terceira sem mim) e de nome cinco. E nossos únicos pontos altos foram uma apresentação em Santa Maria em um show coletivo com outras bandas novas da região e um show em que, na nossa cidade, abrimos para o à época já conhecido – embora menos que hoje – Frank Solari. achávamos que podíamos melhorar e que logo alcançaríamos algo.

Não alcançamos. Aquele momento de trabalho duro e ralação era o nosso auge, não teríamos mais do que aquilo.

Em 1984, na incensada democratização do Brasil, eu tinha 10 anos. Impossível participar plena e ativamente daquilo. Em 1989, quando o Lula concorria na primeira eleição direta e eu cheguei a fazer campanha e colar cartaz, eu tinha 15. Início, apenas, e nem votar eu pude. E o candidato que eu havia escolhido perdeu, como perderia todas as eleições seguintes, e eu jamais imaginaria que quando ele finalmente ganhasse quem perderia seríamos nós, os que votamos nele.

Hoje, quando volto para a minha cidade, procuro perscrutar os caminhos dos colegas de infância e juventude. Um, que sonhava passar na ESA e fazer carreira, virou balconista de farmácia em Santa Maria e depois atendente de treiler de xis aqui em Porto Alegre. Outro, o melhor de nós musicalmente falando, desistiu de viver da música e virou cabo da Brigada na região metropolitana. Outro é um mecânico bêbado. Um outro – vizinho, mas não da banda – hoje é biscateiro e tem cinco filhos. Cinco filhos com 32 anos. Um outro chegou a ser músico em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Torrou os poucos miolos que tinha cheirando, fumando e tomando tudo o que apareceu pela frente e foi descoberto há alguns anos como mendigo em Porto Alegre. Repatriado pela mãe, vende artesanato no centro da nossa cidade. Tem ataques de fúria e fala sozinho sentado na calçada. Um outro, que chegou a tocar com a gente mas que não se incorporou ao grupo, sumiu no mundo. Em 2002, encontrei-o de férias na nossa cidade. Estava vivendo na Bahia, era de um grupo de axé e morava numa cidade mais próxima de Brasília do que de Salvador. Achei bom – menos a parte do axé, claro. Mas bem ou mal era um cara com alguma chance, no fim, de ser o único dentre nós que foi adiante na música. Em 2003, noutras férias, soube que desde a última vez que o vira ele havia matado um sujeito numa briga por mulher e estava foragido da justiça.

Escuto sempre essa ladainha idiota da “era de ouro” na qual as mudanças “eram palpáveis” e a “efervescência estava no ar”. Papo de burguês da Capital. Qualquer capital. Para toda uma geração criada nas cidades mais pobres do Estado, não houve o tal período. Houve uma expectativa que foi na verdade o período de glória. A glória de poder esperar algo melhor no dia seguinte.

Fico imaginando como deve ser isso na cabeça de quem tem 18 hoje, num país em que não sobrou nada: nem ética, nem sonho de engajamento político, nem solidariedade, nem exemplos, em que o panorama é de pobre moral, artística e espiritual.

Logo, vítimas dos anos 70, calem essa boca, por favor. A estrela intelectual de vocês não resolveu nada em oito anos. A estrela operária em outros oito fez mais para desacreditar a política e a democracia do que os próprios milicos. Os míticos guerrilheiros engajados na transformação política brasileira por meio da luta armada, como Dirceu e Genoíno, capitularam à corrupção. Calem a boca, por favor, e não se lamuriem por seus fracassos. Vocês pelo menos ainda têm a desculpa de um sonho abortado.

Programa de humilhagem

19 Fevereiro, 2008

fidel.jpg

Papai Noel, Velho Batuta

Será que agora, com os pontos que sobraram no plano de Fidelização os cubanos conseguem finalmente uma passagem pra Miami?

Confetes

5 Fevereiro, 2008

Ou: pílulas que me ocorreram assistindo, aos pedaços, os desfiles do carnaval carioca: 

* Juro que se eu vir outro Dom João VI na TV eu jogo as botinas no vídeo.

* Tá, tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas não ficou claro pra mim uma coisa: a “entrada da mangueira” foi depois da “viradouro”?

* Por que um filme italiano narrado em tom de “fábula”, em tom de comédia e protagonizado e dirigido por um dos maiores cômicos italianos pode ser aclamado como obra-de-arte, vencer Oscar e tudo que é prêmio e um carro alegórico no meio do Carnaval carioca é proibido pela Justiça?

* Todo fim de ano escuto as entrevistas dos carnavalescos e jornalistas e sambistas e o escambau ligados ao desfile das escolas de Porto Alegre dizendo que “o carnaval de Porto Alegre está evoluindo de ano a ano”. E me pergunto: quanto ainda tem de melhorar pra ficar bom?

Publicitas

27 Abril, 2007

Não sou um sujeito para quem a publicidade faça efeito constantemente. Não sou do tipo que se convence pelo que vai numa propaganda justamente porque sou um consumidor pesadelo dos publicitários: eu não gosto de trocar de produto, eu não sou um cara que compre nada além do necessário e meus gastos supérfluos estão restritos a um tipo de produto que a publicidade maciça ou não aborda ou, quando aborda, não me convence. Explico melhor: papel higiênico, arroz, massa, carne, tudo o que eu compro obedece ao critério “preço no supermercado”, e não uma duvidosa qualidade pela qual valeria pagar mais. Meus gastos supérfluos, contudo, são concentrados em filmes de cinema, livros, gibis, CDs e um eventual café numa mesma padaria sempre (sou um cara de hábitos). E por ser um pedante xarope, não assisto aos filmes da Globo Vídeos, não leio os best-sellers mais vendidos ou mais anunciados. Portanto, como público-alvo minha utilidade para o mercado publicitário é nula (e eu não deixo de me congratular por isso).

Mas sou um cara que, como todo mundo, quando vê televisão, assiste às propagandas e até dá boas risadas delas. Mas foi só recentemente que começou a martelar na minha cabeça essa tese meio furada que eu começo a explicar aqui: a propaganda, como todo construto da imaginação (ou falta de) humana, também pode ser um retrato de sua época, e se assim for, cada vez tenho menos vontade de olhar este nosso tempo nos olhos. A publicidade, apesar da lenga-lenga corporativista, é sim uma obra que se constitui sobre estereótipos (estereótipos uma formas de comunicação universal e muito rápida, ou seja, muito úteis para dar um recado em poucos segundos). E, embora não seja a única responsável pelo mundo que nos cerca, como acreditam comunistas ingênuos, é sim algo que pega no ar um “clima” perceptível e o transforma em fato, reforçando e espalhando esse mesmo clima, então em determinado momento podemos sim dizer que a propaganda se torna responsável pela ideologia, pelos preconceitos e pela moral daquilo que veicula. Porque o humor é, antes de tudo, iconoclasta, mas não é uma desculpa para qualquer coisa, acho.

Senão vejamos. Numa rápida sucessão nos últimos meses, assisti a uma propaganda de uma companhia telefônica na qual as peças mais memoráveis são: uma mulher extorquindo dinheiro de uma idosa para ajudá-la a subir escadas debaixo de chuva e um homem oferecendo ajuda a outra senhora que caiu e se machucou e cobrando por isso. Surpreende na primeira veiculação, e depois a facilidade com que aquela situação desperta o riso provoca uma náusea indefinida.

Depois, uma propaganda de carro investe na idéia de que a marca de automóvel vendida na publicidade passa em alta velocidade por uma rua e o quebra-molas foge sozinho, ou que, ao disputar espaço em um estacionamento, um tanque de guerra desiste diante do carro anunciado.

Depois, a propaganda de um refrigerante cuja campanha foi lançada com o slogan “chegou, pega logo” e uns sujeitos agarravam minas muito receptivas para beijos de telenovela. Outro refrigerante anuncia “as coisas como são” em reclames que destilam tratados sobre arroto, sobre o riso pela desgraça alheia e por aí vai.

Tudo muito bonito, muito engraçado, muito divertido, muito bem-humorado.

E tudo estranhamente representativo de uma época como a nossa, lotada de violência, cinismo, grosseria e mau gosto. É um pensamen to que dialoga, em um certo ponto, com um texto que li recentemente, mas não me lembro em que jornal de língua inglesa na rede, sobre como o atual tesão das platéias de cinema, norte-americanas em um primeiro momento e mundiais mais adiante, é ver personagens serem torturados ou mortos das formas mais explícitas ou cruéis possíveis. Um fenômeno cuja epítome foi O Albergue, mas que poderia ser notada também em Jogos Mortais, no novo Bond e até no exagerado Snakes on a Plain, que se vale do mesmo humor das propagandas já citadas para validar a mesma crueldade.

O que me preocupa não são as propagandas, elas são, como eu disse, um sintoma, num primeiro momento – embora deixem de ser quando legitimam a realidade que comentam. O que me intriga é que, no momento em que espíritos tão toscos quanto publicitários já consideram tão natural usar em suas obras esse clima de cinismo, individualismo e agressividade descortês, é porque o clima geral já foi pra banha faz muito tempo.