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De um e-mail não enviado

29 Junho, 2009

Para alívio da poesia e da dignidade do autor…

Meu amor por ti é como uma luz incidindo oblíqua na poluíção da rua.  Não muda o essencial,  mas faz a gente pensar em como aquilo parece bonito mesmo com tanta fumaça e veneno.

Meu amor por ti é um feto sombrio, que me rasga a carne e permanece atado a mim pelo cordão dantesco de um afeto doente.

Meu amor por ti é estar no meio da corda estentida no abismo, grandioso vir-a-ser que não consegue ser nem vir. É o equilibrista acometido por ataque de pânico: eu não quer ir adiante, mas voltar é tão perigoso quanto.

Meu amor por ti me queima como ácido e é algo sem o que não mais me imagino – mas que ainda vai acabar me matando.

Meu amor por ti é três carteiras de cigarro por dia em tempos de polticamente correto.

Meu amor por ti é má poesia
Espontânea mas sem efeito.
E constrangedora
para terceiros

Corrompendo Bukowski

21 Abril, 2009

Alguns poemas curtos do mestre em tradução deste tosco que vos escreve:

Causa e efeito
os melhores com frequência
morrem por suas próprias mãos
apenas para fugir,
e os deixados para trás
não podem sequer entender
por que alguém
poderia querer
fugir
deles 
Poema para meu aniversário de 43 anos
Acabar sozinho
na tumba de um quarto
sem cigarros
ou vinho –
só uma lâmpada
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
o quarto.
…De manhã
eles estão lá fora
ganhando grana:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, policiais,
barbeiros, lavadores de carros,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
taxistas…
e você se vira
para o lado esquerdo
para apanhar o sol
nas suas costas
e afastá-lo
de seus olhos.

Espaço

26 Setembro, 2008

No inverno a casa devora silêncios
Regala-se tanto com seu próprio ser
pesado, sem contato com o mundo
e tanto banqueteia-se em sua existência
autosuficiente
e inerte
que incha,
obesa de espaços vazios

A casa engorda nas ausências.

Houve verões, e a casa
já os desfrutou de janelas abertas
e portas escancaradas
e o piso suado de marcas de pés
e carimbos da carne livre
rolando sobre as tábuas
No verão a casa mostrava-se
como sílfide em miniblusa

E tudo era um mover-se batendo
Em algo colocado no lugar errado
E até para o ritual diário da
nulidade cotidiana
havia que se pedir licença.

“posso passar?”
“vai demorar muito?”
“um instante para abrir a porta”.

No inverno sem ela,
a casa se tranca em si mesma
E suas entranhas incham
do próprio vazio
E estar na imensidão despovoada da casa
obesa
encerrada e sem atrativos
como enrolada em fuseau vagabundo
É sentir-se um inútil parasita

que engole o mesmo silêncio
e permanece imóvel
no espaço que se vai
dilatando,

metódico como pesadelos.

 

* Sim, algum leitor de mais sensibilidade já deve ter percebido que este é o terceiro poema mais ou menos no mesmo mote. Há um motivo, estou compondo aos poucos uma série deles. Talvez depois de terminada junte tudo aqui numa página separada. E se não, valeu o exercício, ao menos.

Uma tradução

13 Julho, 2008

Tradução feita por este que vos escreve para um poema de Mestre Bukowski.

Tem tudo a ver com este horário…

one thirty-six a.m.
 

Eu rio às vezes quando penso nisso
digo
Céline na máquina de escrever
ou Dostoiéwski…
ou Hamsun…
homens comuns com pés, ouvidos, olhos,
homens comuns com cabelo sobre suas cabeças
sentados lá, datilografando palavras
enquanto estavam em dificuldades na vida
enquando estavam sendo enganados quase até a loucura.

Dostoiéwski se levanta
deixa a máquina e vai mijar,
volta
bebe um copo de leite e pensa
no cassino e
na roleta.

Céline pára, levanta, caminha até a
janela, observa, pensa, meu último paciente
morreu hoje. Eu não tenho que fazer mais nenhum
atendimento aqui.
quando eu o vi pela última vez
ele pagou a conta;
São aqueles que não pagam suas contas,
os que continuam vivendo.
Céline volta, senta-se
à máquina
Ainda tem uns bons dois minutos
e então começa a datilografar.

Hamsun pára à frente de sua máquina pensando,
Eu me pergunto: eles vão acreditar
em todas estas coisas que escrevo?
Ele senta, começa a datilografar.
Ele não sabe o que é um bloqueio de
escritor:
ele é um filho-da-puta prolífico
quase tão magnífico quanto
o sol.
Ele continua datilografando.

E eu rio
não muito alto
para estas paredes, estas
paredes azuis e amarelo-sujo
meu gato dorme sobre a
mesa
escondendo seus olhos da
luz.

Ele não está só esta noite
e nem
eu.

Cacos no piso

13 Julho, 2008

Havia uma ilusão aqui
antes
Ficava bem ali, na
cabeceira da cama
E um certo afeto
derramado
havia manchado o tecido
do sofá que se foi.

Entornávamos no chão
poesia? Não?
coisas mais sólidas
ou antes, líquidas
e o frescor do parquê
no verão era o único
ar incondicional
que nossos corpos exigiam

Antes do inverno tomar a casa,
dormíamos ao relento
em varanda alheia
e o frio nos parecia
um reino
Quando a casa chegou
o sol viciado
pela janela inconveniente
jogou luz demais
e não deixou sombra intacta
em que pudésssemos esconder
nosso afeto.

Havia o indizível
encostado atrás desta porta
que agora fecho
encerrando pó e papéis
jogados em desordem
dividindo espaço
na sala vazia

com os cacos esparsos
de nossas mãos
entrelaçadas

A casa no inverno

25 Junho, 2008

Ausências antigas vertem das
paredes. E memórias relegadas
chovem radioativas nas
dançantes partículas de
água e silêncio que
revestem as ruas para
depois cederem espaço a
um vento que sopra decepções ancestrais.

Vozes velhas viajam nesse
vento, vazias. Vozes de
alter egos mortos bebendo nos
beijos palavras de amores perdidos.
Vozes afônicas de tanto grito
trancado, mudo estático.
Vozes que mancham o
cenário de fundo da
memória como
óleo vazando de um mecanismo defeituoso

A casa no inverno é fria de
esquecimento 
A matéria úmida das
promessas não cumpridas absorve qualquer
vestígio de sol.

E o esfregão
não limpa ou
seca. Apenas espalha os
cacos recendendo a
pinho de uma história
mal contada

Maltratada

A casa no inverno afoga seus
mortos. Na certeza desesperada de
que tanto tempo e ainda é inverno.
Haverá um verão, se
ainda tarda tanto?

Bukowski

26 Maio, 2008

Mestre Buk

Tradução minha para A Smile to Remember

um sorriso para relembrar

nós tínhamos peixes dourados e eles nadavam rodando e rodando
no aquário sobre a mesa próxima às cortinas pesadas
cobrindo a foto na janela e
minha mãe sempre sorrindo, querendo que todos nós
fôssemos felizes, me disse: “Seja feliz, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
consegue
mas meu pai continuou a bater nela e em mim várias vezes por semana
furioso dentro de sua fotografia de 30cm x 15cm porque ele não conseguia
entender aquilo que o estava atacando por dentro.

minha mãe, pobre peixe
querendo ser feliz, surrada duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria
por que você nunca sorri?”

e então ela sorriria para me mostrar como fazer, e aquele foi
o sorriso mais triste que jamais vi

um dia, os peixes dourados morreram. Todos os cinco
ficaram flutuando na água, de lado, seus
olhos ainda abertos.
e quando meu pai chegou da rua ele jogou-os para o gato.
ali mesmo no chão da cozinha e nós ficamos assistindo enquanto minha mãe
sorria.

O corpo

23 Maio, 2008

Visto aqui de baixo, o corpo é o céu.
e os seios solenes
globos nebulosos
abertos em luz
pelos quais escorre
a voz do Senhor
como nos filmes bíblicos
da sessão da tarde.

Visto aqui de baixo, o corpo é o teto.
e os pômulos gloriosos
lustres brilhantes
e a rosácea suave
a contornar os mamilos
discretamente túrgidos
são pequenas chamas
tremulantes
no desatino da pele.

Visto aqui de baixo o corpo é uma árvore
e os seios frutos maduros
dourados com recortes
triangulares de branco
como a casca calada
revelando o sumo
branco da polpa firme.

Visto do corpo, o corpo é o espelho
a curva, o volume,
a luz incidindo na torre tímida
do mamilo em riste
e aqui debaixo,
o corpo se torna promessa
delírio,
tremedeira
rigidez
excitada
esperando
pela
explosão de realidade
que um dia o corpo
- e só o corpo -
talvez conceda

dadivosamente.

À moda de Monterroso

22 Maio, 2008

Microcontos com no máximo 50 caracteres. Excluindo os espaços, o título e a pontuação (podem contar).

Episódio
Na janela, o bilhete:
– Não pense em mim hoje.

– Tarde demais.
Pensei.

Diário de Adolescência
Grito por socorro
nas páginas antigas.
E hoje não me escuto.

História de Amor nº 5
– Se eu tentasse me matar tu voltava?
– Só se tu conseguisse.

Setenta anos
A vida secou o rio de meu rosto.
Ficou só este solo gretado.

Encontro às escuras
Quando ele viu a coleção de CDs de pagode
O tesão por ela se foi.

Recaída
Limpou-se no lençol, exausta
Eu mudo.
– Que tu sente por mim?
– Raiva.

Sazonal
Sonhava os cabelos loiros à luz do outono.
No Outono, ela se foi.

O Dia Seguinte
Ela anotou o número.
ele usava tantos bolsos
que perdeu.

Mudou a intimidade ou mudamos nós?

22 Maio, 2008

O gesto de repetição que me encontra não significou “eu não te amo”, e sim “você não pode me amar tanto quanto gostaria de fazer, você que está tristemente amando seu amor por mim, e no entanto seu amor por mim não ama você”.
Portanto, não é certo dizer: eu conheci as palavras “Eu te amo”; tudo que conheci foi o silêncio expectante que deveria ter sido quebrado por mim dizendo “eu te amo”.
Kafka. Cartas a Milena.

Leitura emendada com a da correspondência dolorosa entre Scott Fitzgerald e sua bela e maluca esposa Zelda.

Estranho pensar que são cartas pessoais – e cartas de amor – escritas muito, muito antes de todo mundo escrever blogs por aí.
E, no entanto, parece que naquela época as pessoas tinham mais coragem de se expor. Ou faziam isso com mais qualidade. Talvez naquela época as pessoas simplesmente não tivessem o medo do ridículo.

Porque Fernando Pessoa nos liberou para considerar todas as cartas de amor ridículas. Mas ninguém parece nos liberar para passar ridículo.