Arquivo da categoria ‘Insônias’

Corrompendo Bukowski

21 Abril, 2009

Alguns poemas curtos do mestre em tradução deste tosco que vos escreve:

Causa e efeito
os melhores com frequência
morrem por suas próprias mãos
apenas para fugir,
e os deixados para trás
não podem sequer entender
por que alguém
poderia querer
fugir
deles 
Poema para meu aniversário de 43 anos
Acabar sozinho
na tumba de um quarto
sem cigarros
ou vinho –
só uma lâmpada
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
o quarto.
…De manhã
eles estão lá fora
ganhando grana:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, policiais,
barbeiros, lavadores de carros,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
taxistas…
e você se vira
para o lado esquerdo
para apanhar o sol
nas suas costas
e afastá-lo
de seus olhos.

Identidades

3 Dezembro, 2008

Organizar cartas e arquivos, aproveitando uma folga não planejada mas sempre bem-vinda, é uma experiência de tal modo desconcertante que o resultado final muitas vezes é mais cansativo do que simplesmente permanecer na senda segura do cotidiano. Principalmente quando já se deixou de ser jovem, e se está instalado a contragosto naquilo que enchem a boca para chamar de vida adulta.

Primeiro chama a atenção o desperdício de tempo e energia, monumental, desmedido, e eu muitas vezes não entendo como este mesmo sujeito que escrevia, por exemplo, páginas e páginas deste blog sem esforço há uns cinco anos agora simplesmente aparece só de vez em quando – não que faça diferença, mas vou tentar retomar este espaço com mais freqüência, foi um ano difícil, foram dois anos difíceis, na verdade, mas não aquela dificuldade de antes, a dificuldade entre pular da janela e se arrastar por aí puxando um cadáver pelo pé descarnado, como uma vez comentou um leitor bissexto destes textos ainda mais bissextos. A dificuldade é simplesmente a superposição de tarefas e atribuições cada vez maior, o que não é de modo algum um desprazer, é só um cansaço, uma exaustão que mina a disposição para ainda ter opinião e impressões sobre tudo: e sim, no fim é um sinal de um certo embotamento no contato com o mundo, o que, se por um lado é bom por preservar a pele, por outro desperta uma saudade inevitável daquela energia tão dolorida que se tinha para ser desperdiçada como se não fosse acabar nunca.

Mas estamos de volta, e pra dizer a verdade há umas coisas bem legais acontecendo naquilo que eu chamaria de minha “vida concreta” – eu usava, de brincadeira, “vida civil”, mas o fato é que isso transformaria a identidade Hefestus na “vida militar”, e não há muitos precedentes para o sucesso de sujeitos mancos e corcundas nas forças armadas, como qualquer um que viu o filme 300 vai se lembrar. Essas coisas do mundo concreto poderiam render alguma conversa descompromissada, mas o fato é que isso entraria demais na identidade (aí sim) civil, o que não me interessa. Certa vez uma amiga, uma das poucas criaturas que conhece ambas as metades desta massa esquizofrênica, leu alguns de meus textos ficcionais e perguntou por que eu não publicava mais daquilo no blog, e a resposta sempre foi de que este Hefestus é um exercício de liberdade que talvez se tornasse de restrição se eu tivesse que um dia escolher publicar de novo aquilo com meu próprio nome – como talvez algo com meu próprio nome esteja perto de ser publicado. Aí ela me sugeriu que assumisse a identidade “Hefestus” de uma vez, mas não era por aí, nunca foi o objetivo. Sei que há gente que o faz na internet e nos livros, e me lembro da Indigo como o exemplo mais à mão, mas Hefestus nunca fui eu eu, o eu de fora da rede, o eu que tinha crises depressivas e fazia confidências constrangedoras e bebia demais e rodava pela noite desterrado de si mesmo. NO início até foi um pouco, mas depois ficou claro que o blog era uma oportunidade de extrapolação e até de invenção, o que tornava muito divertido contar algo que realmente acontecera e algo que só havia saído da minha cabeça com o mesmo “valor de face”, por assim dizer, como se não houvesse diferença. E por isso não me compadeço da eterna ladainha de uma Clarah Averbuck a respeito de como as pessoas confundem “o que ela escreve no blog” com o que ela é. Essa relação de acumulação na passagem da vida para o texto é óbvia para qualquer escritor, e se não se quer compremeter a recepção do que se escreve com argumentos colaterais e complamente acessórios, é óbvio que o anonimato é a melhor coisa a se fazer. E por isso o Hefestus destas páginas pôde talvez roçar os limites do abjeto e agora olhar com alguma tranqüilidade e até carinho para o que rabiscou naquele tempo justamente porque os efeitos foram mínimos. Aquilo era fase, era o motivo para iniciar o blog e ao mesmo tempo… ao mesmo tempo em algum lugar lá no fundo eu sabia, mesmo nas trevas, que o dia em que aquilo tudo passasse provavelmente eu perceberia o exagero e me sentiria muito constrangido comigo mesmo – porque em tempos de BBB e de reality shows de tudo quanto é tipo, e de revista Caras, e de celebridades que vendem fotos de filho com exclusividade para o tablóide que pagar melhor, eu ainda mantenho um certo pudor antiquado da exposição em demasia, e para escrever o que eu precisava naquela época, aquelas palavras que me ajudaram, de certo modo, na tormenta mais difícil, eu queria a liberdade de não ter de ficar dando explicações. Por isso a identidade secreta desde o início.

Naquela época pouca gente sabia o que era blog, o que tornava ainda a brincadeira mais interessante pela hipótese remota de que alguém no mundo real cruzasse com os textos e fizesse a ligação – e ainda assim houve duas pessoas que o fizeram. Depois, blog virou o assunto do momento, virou “meio de comunicação” e até mesmo canal patrocinado, e só agora me dou conta de que isso talvez tenha ajudado um pouco na minha retração posterior. E hoje, como se cruzou a linha e tem tanto blog por aí, este espçao de novo parece um lugar seguro para exercer esse paradoxo que é a confissão real-fictícia em espaço de acesso público feita por sujeito que tenta preservar algo da sua identidade. E talvez agora, associado a um aliviar possível das atribuições em cascatas, seja mais fácil retomar estes conceitos com regularidade.

Mas que às vezes aquela energia lá do começo faz falta, ah, isso faz, com depressão, porres homéricos, chatice e tudo o que vem no pacote.

Reorganizando a estante de discos

7 Julho, 2008

Estranho ouvir Fake Plastic Trees de novo.

Há alguns anos era uma audição que vinha acompanhada de uma dor com o peso do mundo, e a voz dolente de Thom Yorke ao cantar if I could be who you wanted… all the time parecia cravar repetidas vezes um punhal de gelo no meu peito.

E hoje a melancolia estética da música ainda está lá. Mas não mais a dor, o punhal de gelo, o coração parecendo desmoronar aos poucos como um morro erodido pela chuva.

Passou. O que fazia a dor estar lá passou.

E é estranho sentir que mesmo a dor deixa saudade.

A casa no inverno

25 Junho, 2008

Ausências antigas vertem das
paredes. E memórias relegadas
chovem radioativas nas
dançantes partículas de
água e silêncio que
revestem as ruas para
depois cederem espaço a
um vento que sopra decepções ancestrais.

Vozes velhas viajam nesse
vento, vazias. Vozes de
alter egos mortos bebendo nos
beijos palavras de amores perdidos.
Vozes afônicas de tanto grito
trancado, mudo estático.
Vozes que mancham o
cenário de fundo da
memória como
óleo vazando de um mecanismo defeituoso

A casa no inverno é fria de
esquecimento 
A matéria úmida das
promessas não cumpridas absorve qualquer
vestígio de sol.

E o esfregão
não limpa ou
seca. Apenas espalha os
cacos recendendo a
pinho de uma história
mal contada

Maltratada

A casa no inverno afoga seus
mortos. Na certeza desesperada de
que tanto tempo e ainda é inverno.
Haverá um verão, se
ainda tarda tanto?

Não que faça alguma diferença

27 Maio, 2008

Mas ainda tem alguém aí?

Ecos de um diálogo antigo

7 Abril, 2008

Ela – Sonhei contigo essa noite. É impúblicável
Eu – Opa, agora fiquei curioso.
Ela – Não me lembro exatamente do sonho, me lembro é das sensações.
Eu – E como eram as sensações?
Ela – Boas, mas estranhas, levei um susto quando acordei, pensei que não era sonho, que era real.
Eu – Algumas ruins?
Ela – Sim, boas e ruins.
Eu – Hm… Eu te provocava algo ruim no sonho?
Ela – Sim, tu disse que tínhamos que parar, ou tu ia enlouquecer.

Belo conselho.

Pena que eu não segui

Passeio Noturno

12 Março, 2008

Eu os vejo lá fora
os bêbados contra a parede
buscando um pouco de lucidez
no fundo de seus olhos fechados
com as mãos na parede
tentando escorar o mundo que gira.
Os tristes e patéticos
bêbados loucos
grudados às paredes
como aquelas sombras que ficaram
impressas
quando a bomba caiu em Hiroshima.
Sombras de cinzas
decalcadas na parede.
Sempre a parede

Alguns deles
escorregam tijolos abaixo
quase em câmera lenta
como gângsters mortos
em um filme barato de Kung Fu.

Eu os vejo
prontos para afundar
com a cabeça rodopiando sobre o pescoço
no ritmo
em que suas entranhas giram por dentro

Eu os vejo
derramados sobre a sarjeta
sobre a urina o vômito o lixo
eu sei que eles agora
se sentem tão mal
que pedem a morte
mas que amanhã a estas horas
terão vindo buscar mais
daquilo que os enjoa.

Eu os vejo com os olhos turvos
Seus rostos sem amparo
escorados na parede
Eu os vejo com a
boca seca
E se não fosse um deles
passaria reto
sem sentir pena
ou olhar pra trás.

Veneno da Madrugada

19 Fevereiro, 2008
Quatro e meia.
Não consigo dormir e a escuridão do quarto (está quente e a janela está aberta, dando de frente para o quarto do vizinho, e por isso mantenho a luz apagada, para que ela não se infiltre pelas persionas e perturbe o sono de seja lá quem for que esteja lá dentro) se torna mais opressiva conjugada com a melancolia inevitável desta hora.
Esta é a hora em que eu me sinto menor. É nesta hora que eu queria um filho? Um alguém para não me deixar dormir por um motivo nobre, alguém que eu pudesse conhecer desde a infância, alguém que eu visse formar-se diante de meus olhos
Quatro e meia.
A hora em que o desespero rasteja para as bordas do ser, crava suas unhas nas paredes e espia para dentro como quem procurasse morada e resolvesse se instalar por ali. A hora em que até mesmo a tristeza parece entristecer. É a hora em que o medo de não dormir mais provoca impulsos de confidência. E é nesta hora que é bom ter um blog, porque a esta hora eu já estaria escrevendo um e-mail para um pobre coitado que no dia seguinte leria sem entender nada e se alarmaria com os motivos que levaram o e-mail a ser enviado, e que provavelmente já não existiriam mais com a luz do sol.
Acontece isso com mensagens, das mais simples às mais desesperadas. A gente deixa em cada escrito um pedaço do que tínhamos de particular quando tudo começou. E quando esse texto é lido, provoca outra mensagem do outro lado, que chega quando o momento já é outro, e às vezes a resposta vem como a voz que se refere a um sonho, a algo que era compreensível e parte do contexto naquele momento, mas não agora.
Já são vinte pras cinco.
A hora em que eu sei que deveria me meter na cama e tentar dormir afundando os olhos na escuridão do quarto – o que há de errado, afinal? uma hora você apaga, por mais que role desesperado por um tempo que parece horas. Vai ver nem se passa tanto tempo assim, a percepção da passagem do tempo é subjetiva, sabemos disso há muito tempo, e agora está sendo reforçado pela biografia do Einstein, essa mais recente, que estou lendo. Alguém esses dias me perguntou de livros que eu estava lendo, aqui mesmo nesses comentários, e esse é um, e eu não tenho ainda um comentário consistente, preciso chegar ao fim do livro, me surpreende apenas o como a maneira como o biógrafo apresenta Einstein conjuga a genialidade com a personalidade obtusa de um sujeito que se viu desesperado depois que as implicações da sacada genial que ele teve sobre o conceito de Relatividade Geral saiu de seu controle. A Relatividade levou naturalmente ao Campo Quântico, e em vez de saudar essa percepção, Einstein a renegou e passou seus últimos anos batendo cabeça atrás de uma mal-sucedida tentativa de provar seu “campo unificado”. Boa leitura, amigos, eu recomendo, estou saindo da minha brutal ignorância em matéria de Ciências graças um pouco a ela.
Quinze pras cinco.
Morcegos se divertem guinchando perto da janela que eu deixo aberta. Sei que são morcegos porque um dia um deles entrou por uma fresta da janela da área de serviço e caiudentro de um balde que estava dentro do tanque. Ficou a noite toda arranhando o plástico e tentando sair dele, imagino que o balde ainda devesse estar molhado e as asas ficaram pesadas. fechei a porta do quarto e deixei-o lá até a manhã seguinte, quando o sol seria inclemente em atravessar a cobertura de acrílico e deixar a área mais clara do que o morcego gostaria. Aí peguei o balde e o sacudi pela janela, deixando que o morcego se virasse para amortecer a queda de quatro andares, mas sei que não morreu, ele planou confuso até o solo, debatendo as asas e tentando se esconder do sol.
Também eu me debato, mas nas sombras, e amanhã quando o sol entrar por esta janela aberta serei acordado por sua luz invasiva e tentarei planar eu também de volta ao térreo da minha vida ativa de assalariado.
Dez pras cinco.
Boa parte da angústia parece ter sangrado para as palavras na tela e agora uma certa leveza se instala. Talvez eu até conseguisse dormir um pouco se tentasse.
Bom conversar com vocês.
Pena que amanhã o contexto será outro, e qualquer manifestação de qualquer um de vocês soará como um sonho, um recado que vocês mandam para alguém que não sou mais eu. Porque amanhã o dia terá varrido um pouco esse peso que eu nem sei de onde vem.
Beijo nas crianças.