Arquivo da categoria ‘Ficções Reais de Amores Inventados’

Ficções Reais de Amores Inventados – 4

9 Dezembro, 2008

D

Tinha um nome de heroína de Dostoiévsky, e para mim, ao menos para alguém muito parecido comigo e que em alguns momentos até mesmo poderia ser eu, seria impossível não se apaixonar por uma linda mulher com um nome de heroína de Dostoiévsky. Apresentados por uma amiga comum durante uma Feira do Livro, fui arrebatado de imediato por sua visão artística do mundo, por sua aura de alguém com um contato direto com um mundo do qual eu nunca passei da soleira. Aquela noite se desenrolou com um cerveja, e um churrasco em um grupo de amigos, e ela rindo e de bom humor e já admiravelmente bêbada constrangendo-se a si mesma falando em voz alta indiscrições que provocaram curiosidade dos garçons no momento em que nos dirigíamos todos, eu, ela, uma amiga dela, o casal dos meus amigos, para o carro de onde nos espalharíamos. Ela, contudo, havia soltado uma pista de que estaria outra vez com aquele mesmo grupo na Feira do Livro no sábado seguinte, e lá estava eu, e desta vez conseguimos um passeio só nosso por entre os estandes e estantes desordenados, e conversamos de livros, do mundo, da arte (a dela) e do projeto de arte (o meu). E no fim daquela noite eu tinha um telefone, e mais duas semanas depois daquilo, após uma apresentação na qual ela tocou e me enredou nas teias mágicas de sua música, eu a beijei em frente a seu apartamento. E então ela me disse que estava com alguém, um estar que não era estar e não mudava muita coisa, mas que não modificava o encanto nem tornava tudo menos confuso.  Depois daquilo, não nos vimos mais por um ano. E então, outra vez nos encontramos na Feira do Livro, e outra vez bebemos juntos, e falamos, e combinamos um jantar na Cidade Baixa – que começou com a formalidade acanhada de uma confratenização entre amigos antigos e terminou com uma fúria de beijos e afagos no carro dela, quando ela me deu carona até em casa. Ela não subiu, contudo, e queria marcar um café para conversar sobre aquilo tudo. E não teve tempo para ele por outro ano. E no terceiro ano depois da churrascaria, e de sua alegria bêbada e de sua música sedutora, ela finalmente ligou, e o café na Cidade Baixa evoluiu para uma frase, “eu não sei o que sinto por ti, só sei que sinto”, e para outra vez o fogo e o delírio, e desta vez finalmente a casa em que ela me recebeu no meio de jornais espalhados por toda parte, livros fora de ordem e uma cesta de maçãs sobre a mesa com tampo de vidro. Depois daquilo ela viajaria para o Rio, mas voltaria, e ficou de ligar quando voltasse. E ela não ligou, e eu não liguei, e passou mais um ano. E na Feira seguinte ela não estava mais lá. Nunca mais esteve.

Agridoce: Ela era alta – mais alta do que eu. Os cabelos revoltos e negros emoldurando seu sorriso sarraceno e suas sobrancelhas levantinas desciam até o começo da cintura, cintura que ela remexia em arrancos de dança do ventre enquanto agitava as mãos longas e cheias de nervuras, os dedos de pianista, a pele branca ao ponto de se verem as veias. Era mais velha, ela era louca e cheia de dúvidas, e sua voz grave podia sorrir com a sabedoria do deserto ou imitar personagens de desenho animado sem muito intervalo entre uma coisa e outra. Os óculos muito grossos por vezes eram até eficientes em esconder-lhe a beleza do rosto, mas não podiam nada contra o sorriso, que conciliava insegurança e vida na mesma equação. Ela era uma sinfonia de curvas e penedos, um coro de vozes sussurantes que se expressavam por seus movimentos, que pareciam deixar no ar um rastro de vento e brisa de outono. E negava com todos os ossos e nervos e texturas de sua pele o poema por demais sentimental de Affonso Romano de Sant’Anna sobre a mulher madura, que ela era, mas que não economizava gestos como se avara de si mesmo, e sim os esbanjava com uma vivacidade que não devia dever nada aos 20 anos que ela não tinha mais. Seus quadris ondulantes ao som de um tango-milonga. Minha teiniaguá alucinada, guardiã de um tesouro que sumiu com a luz do dia. E cuja furna jamais encontrei de novo.

Ficções Reais de Amores Inventados – 3

18 Fevereiro, 2008

J

Foi colega de faculdade, estudou comigo por dois anos e eu nunca havia reparado nela. No final de 1993 eu a vi em uma festa, cabelo comprido um pouco descuidado, sem os óculos de todo o dia, e seu rosto revelava um mistério novo. E um dia, no início de 1994, ela cortou o cabelo e apareceu na minha frente tão bonita que não parecia a mesma pessoa. Ela gostava de outro cara na época, o que quase me fez, com a cagonice de que não me orgulho, bater em retirada. Mas eu disse foda-se e a cortejei com toda a timidez de um afeto hesitante, medroso de entrega. Um dia dividimos um guarda-chuva até a casa dela, que era perto da minha. Eu a deixei na porta, afaguei seu rosto e fui embora me amaldiçoando por não tê-la beijado. No outro dia, eu a puxei para mim com a loucura e a coragem dos desesperados. E aí começamos.

Agridoce: a pele era muito branca, e os cabelos, castanhos, lisos que ela de vez em quando, muito de vez em quando, arruinava com alguma permanente . Os olhos, castanho-esverdeados, mudavam de cor conforme a luz, caleidoscópio impassível. Ela sorria discreta mostrando uma falha entre os dentes, tinha uma voz grave, com modulação que raramente se alterava. Ela andava devagar, era econômica em gestos e palavras e foi a mulher mais inteligente que já conheci. Ela se encolhia no colchão à meia-luz e apertava o peito sentindo dores que não conseguia explicar. Não se dava com os avós mas chorou a noite toda quando o avô morreu, pela oportunidade de reconciliação sempre adiada e agora pra sempre perdida. Ela gostava de sundae de chocolate e de balinhas de côco, e uma vez fui buscá-las na Vila Jardim numa manhã de sábado – encontrando, contra todas possibilidades em contrário.
Com ela descobri o melhor e o pior de mim – e demorei muito tempo para aceitar que eu não podia me desvencilhar dela, como tentei fazer por anos, porque ela havia sido responsável por uma parte da minha formação. Só depois que entendi isso ela deixou de me assombrar – literalmente, por anos eu a chamei de ”sombra” – e virou um nome associado a lembranças passadas, e não o passado condicionando minha vida. Mas havia o lado amargo: ela não gostava de demonstrações públicas de afeto, era teimosa, competitiva e sentia-se ameaçada quando detectava um campo de ação ou conhecimento no qual eu era ou parecia ser mais capaz ou mais instruído do que ela. Depois de muito tempo, ela se tornou impaciente com minha raiva permanente, minha depressão crônica, meu negativismo incurável. E se foi.

Ela gostava de sonhar e planejar viagens, e infelizmente a maioria dos planos ela foi concretizar sozinha.

Ficções Reais de Amores Inventados – 2

12 Fevereiro, 2008

S

Em 2003, um e-mail intrigante e indignado surgiu na minha caixa de mensagens. Era uma garota fula da vida porque em um texto eu havia desancado uma banda depois de vê-los em um daqueles shows aos quais eu ia muito às segundas-feiras, quando ainda não era tão recluso quanto me tornei nos último anos. Ela comentou que morava em uma cidade do Interior e que a tal banda se apresentaria lá, ela estava pensando em ir mas depois de ler o que eu escrevi sobre os caras, desistiu, e ficou braba comigo por estragar seu programa.
Achei o episódio tão divertido que respondi educadamente dizendo que ela poderia simplesmente ter achado que eu era um imbecil e ido ao show assim mesmo. Ela respondeu que ficou braba porque, ao ler o texto, considerou que eu provavelmente tinha razão. E começou uma intensa embora breve troca de e-mails. Ela escrevia com humor e ironia, tinha tiradas poéticas, fantasiava mundos inventados, cheios de bruma e felinos.
Um dia, por coincidência, sem planejamento, fui passar uma semana na cidade em que ela morava. Mandei uma mensagem para que, se ela estivesse interessada, entrássemos em contato. Ela ligou. E nos conhecemos constrangidos no bar que ela e uns amigos freqüentavam. Nos falamos praticamente todos os dias, mas foi apenas no último, quando eu estava para voltar a Porto Alegre, que eu misturei vinho com cerveja e perdi a inibição de me aproximar dela e a noite em sua casa foi lírica e lúbrica, Cássia Eller entoando Nando Reis e corpos buscando em si mesmo o calor que a noite da cidade invernal nos negava.
Cheguei a voltar outra vez àquela cidade, desta vez apenas para vê-la, e fiquei lá um fim-de-semana. Depois do qual ela parou de me escrever e de atender aos meus telefonemas. Um dia ela me mandou uma explicação para isso, mas ela já não importa mais, hoje. Ela simplesmente não sentiu. Só.

Agridoce: Ela era alta. Dependendo do salto, ficava maior do que eu. Mulher grande, ossos grandes, curvas, braços longos. A pele era pálida, mas era inverno. E seus cabelos eram compridos e lisos, escuros, desciam abaixo dos ombros e pareciam sempre perfumados de alecrim – nunca soube se se era xampu ou loção. A voz era grave, grossa, e toda vez que falava parecia que ela estava usando um tom mais alto do que o necessário. Mas ainda assim seu riso vibrava límpido no ar, como um toque de uma colher em um copo de cristal. Ela se vestia com elegância, mas na casa que dividia com outras três pessoas preferia um moletom velho e gasto, bege pintalgado de manchas nas mais diversas tonalidades e cores. Ela bebia vinho com as pernas encolhidas no sofá e tinha as mãos sempre frias. Os olhos eram agressivos, escuros e meio assustadores, olhavam fixo como se a gente estivesse em dívida. Embora ela própria tivesse como profissão de fé jamais se sentir em dívida com alguém. Antes de conhecê-la, eu a apelidei de Bast numa referência à deusa egípcia dos gatos, pelos quais tinha fixação. Ela gostou e se assinava assim, às vezes Bubastis, variação.

Uma divindade de uma civilização morta. É mais ou menos a evocação que minha mente forma dela passado hoje depois de tantos anos.

Ficções Reais de Amores Inventados

12 Fevereiro, 2008

Como eu resolvi retomar esta série do ponto em que havia parado, e tenho pudor de ficar espalhando coisas em mil e uma fontes diferentes, resolvi transpôr para cá os antigos textos publicados sob essa rubrica ainda no blog que eu mantinha no Blogger. O formato continua o mesmo daquela época, ou seja, algo parecido com algo que tenha um formato mas na verdade não tenho certeza de que tenha. Os próximos três textos são os antigos. Os novos serão a partir desses, sem periodicidade ou prazo.

L

A Flor do Cerrado, que esconde seu nome em tantas outras denominações que já nem sei mais se L é apenas uma de suas identidades, se devo chamá-la de L, ou de C, ou D, ou seja lá que denominação mística e cambiante esteja usando esta semana. Eu a conheci pela rede. Ela freqüentava estas páginas, deixava comentários impertinentes e eivados de uma inteligência e sensibilidade admiráveis. Um dia me apresentou seus textos, poéticos, espásticos, sinapses de uma mente que sofria e criava e amava em iguais proporções. Eu me apaixonei por ela por escrito, eu me apaixonei por sua voz ao telefone, mas sua presença era tão longínqua e impossível que tudo isso se incubou por quase um ano até que eu finalmente pudesse conhecê-la a casa física que seu espírito lindo habitava, até que tive uma rara oportunidade de vencer a distância.
Até hoje não sei direito por que fiz isso, já que no fim o que aconteceu foi que ela era tão apaixonante quanto parecia, tão graciosa e encantadora quanto eu esperava, e depois que uma semana meio mágica se passou, ela ficou e eu voltei. E o tipo de distância que se estabeleceu entre nós aumentou com o passar do tempo e hoje é tão grande quanto as milhas que nos separam. Embora de um jeito distorcido eu a ame até hoje. Como a recordação de um sonho reservado para outro eu que poderia ter nascido noutro lugar, feito outras coisas e ido parar em outra cidade. Como a mulher destinada a um eu que se perdeu em alguma decisão que eu ou alguém que tivesse influência sobre minha trajetória tenha tomado há muito tempo.
 

Agridoce: Magrinha como uma bailarina, pequena, algo em torno de 1m60cm. Elétrica, um jeito juvenil que transbordava dos olhos fundos, grandes e semi-cerrados, negros e escondidos atrás das pálpebras escuras. Aparelho nos dentes, que mostrava num sorriso não o brilho do metal de que era feito, mas da juventude que exalava de seu corpo firme com mais intensidade que o perfume doce e sensual que ela usava, ou que a fragrância de jasmim que eu percebia nos seus cabelos tingidos parcialmente de vermelho vivo, curtos, logo abaixo das orelhas. Ela era morena e sinuosa, tinha uma voz grave e rouca que escalava o ar no ritmo entrecortado de um sotaque indefinido e tropeçava nos ouvidos, líquida, deliciosa, mel escorrendo. Ela era doidivanas, era delicada e carente como um bichinho assustado, mas livre e poderosa como uma tempestade elétrica, como a chuva que caía pastosa e violenta na cidade cinza em que a encontrei. Suas pernas eram finas e esculpidas em ferro, seus braços se moviam no sentido excêntrico ao de seus quadris suaves, tornando salientes sob a pele os músculos . Além, é claro, de brincos, piercings, tatuagens, ela toda uma aristocrata ciberpunk, uma samurai delicada de um futuro distante por acidente gestada numa era simples demais para seus conceitos, sentimentos e amores complexos.