Arquivo da categoria ‘Excertos Permanentes’

A política do corpo

7 Abril, 2008

O corpo e suas satisfações não se tornaram menos efêmeros desde o tempo em que Durkheim louvou as instituições sociais duradouras. O empecilho, no entanto, é que tudo o mais – e principalmente aquelas instituições sociais – se tornou ainda mais efêmero que o “corpo e suas satisfações”. A duração da vida é uma noção comparativa, e o corpo mortal é agora talvez a mais longeva entidade à vista (de fato, a única entidade cuja expectativa de vida tende a crescer ao longo do tempo). O corpo, pode-se dizer, se tornou o único abrigo e santuário da continuidade e da duração; o que quer que possa significar o “longo prazo”, dificilmente excederá os limites impostos pela mortalidade corporal. Esta se torna a última linha de trincheiras da segurança, expostas ao bombardeio constante do inimigo, ou o último oásis entre as areias assoladas pelo vento. Donde a preocupação furiosa, obsessiva, febril e excessiva com a defesa do corpo. A demarcação entre o corpo e o mundo exterior está entre as fronteiras contemporâneas mais vigilantemente policiais. Os orifícios do corpo (os pontos de entrada) e as superfícies do corpo (os lugares de contato) são agora os principais focos do terror e da ansiedade gerados pela consciência da mortalidade. Eles não dividem mais a carga com outros focos (exceto, talvez, a “comunidade”).
Modernidade Líquida
, de Zygmunt Bauman