Arquivo da categoria ‘Cagação de Regra’

Aviso importante

6 Novembro, 2008

Na eventualidade de alguém ainda vir aqui, que fique comunicado que este blog NÃO é um espaço público, não é um fórum de debates nem está procurando audiência, e portanto seu proprietário, ou seja EU, e eu tão-somente, se considera no direito de apagar, vilipendiar, caluniar, mandar tomar em orifícios monossílabos qualquer idiota que apareça para defender a integridade do pai de todos os emos, o senhor João Gilberto, suposto messias da MPB – é bom que saibam que, assim como sou ateu em religião, também o sou em música.

Portanto, não tente. Ou tente, se quiser. De acordo com meu humor, vai receber uma resposta ou não, vai ser liberado ou não, mas jamais, repetindo, jamais será levado em consideração porque se você se dá ao trabalho de ficar xingando alguém na internet só porque questiona sua fé nas qualidades de seu ídolo, isso significa que no fundo você sabe que as críticas que incomodaram tem lá sua razão. Quaisquer qualidades que o senhor João Gilberto tenha não saem enaltecidas quando são alvo da defesa de debilóides de internet que abreviam pronomes e não sabem escrever.

Seja meu convidado para sair deste blog, pegar o seu violão, pôr de pé no meio da sala e então sentar em cima até que o braço se enterre bem fundo em seu rabo.

Era o que tínhamos por enquanto. Obrigado.

Algumas considerações com 1968 como pretexto

26 Maio, 2008

Não se fala por estes dias em outra coisa senão o vertiginoso ano de 1968. E, como é muito freqüente acontecer, abundam as interpretações dos participantes daquela geração de que aquele momento foi a plenitude uma assim chamada “era de ouro”. As memórias daqueles anos, evocadas e edulcoradas hoje, quando a decadência – alguém pensou em José Dirceu – já se apossou dos sonhos de juventude, remontam, talvez por um vício saudosista, o passado como o limiar de uma era brilhante, como um período em que era possível “sentir no ar” que o mundo estava aberto à frente e que se vivia o ápice de um tempo – e, como os pensamentos que seguem esse modelo, o arco final do raciocínio é que esse movimento em direção ao progressoa foi abortado por alguma tragédia ou evento externo e inesperado.

É o que falam os escritos que se referem aos anos 20, por exemplo, à louca “era do jazz” na qual a liberdade sexual e cultural de um grupo de privilegiados fez brotar uma efervescência que sedimentou o caminho para a modernidade. Até que a quebra da Bolsa em 1929 pusesse tudo por terra. Também assim vemos o 1968, que ainda se lamenta porque seus projetos foram “abortados” pela ditadura militar aqui no Brasil e pelo refluxo do conservadorismo no resto do mundo: jovens tomaram as ruas em Paris, em Praga, nos Estados Unidos, defendendo um ideal de amor e poesia, enquanto aqui trabalhos sociais e manifestações de ampla força cultural traziam para o público intelectual classe média um conhecimento maior do chamado “Brasil Profundo” – até que os militares vieram com suas botas e terminaram com tudo, na já amplamente divulgada versão da juventude da época e velharada de hoje (quando eu penso que exemplos citados dessa tentativa de “ver o Brasil” são filmes de Glauber Rocha e Maria Bethânia cantando Carcará no show Opinião quase chego à conclusão de que os milicos estavam no caminho certo – não, na verdade não penso, mas a piada era boa).

Como fala por exemplo David Harvey em A condição pós-moderna, ou Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida e Identidade, a noção de luta por um progresso melhor morreu com o século 20, não temos mais essa noção de que o mundo vai evoluir em direção a um futuro utópico (isso é uma noção moderna clássica). O que temos é um presente perpétuo, que não deixa saídas. Acho que a situação pode ser pior para a geração depois da minha, mas para mim, nascido em 1974, criado em um bairro pobre de uma cidade do Interior da metade sul do Rio Grande do Sul, a impressão é sempre de um triste intervalo, de um vazio em que estivemos sempre mergulhados nessa decepção que as gerações antigas sentiam, mas sem o consolo de uma época áurea. Que a chamada “época áurea” era quando ainda tínhamos a esperança de que a situação ruim fosse melhorar. O nosso auge parece ter passado enquanto a gente estava ocupado demais tendo esperança de que ele viria.

Comecei a trabalhar aos 12. Aos 14, arranjei tempo para, com alguns vizinhos, montar uma banda de rock. Em dois anos de atividade, mudamos de formação três vezes (a terceira sem mim) e de nome cinco. E nossos únicos pontos altos foram uma apresentação em Santa Maria em um show coletivo com outras bandas novas da região e um show em que, na nossa cidade, abrimos para o à época já conhecido – embora menos que hoje – Frank Solari. achávamos que podíamos melhorar e que logo alcançaríamos algo.

Não alcançamos. Aquele momento de trabalho duro e ralação era o nosso auge, não teríamos mais do que aquilo.

Em 1984, na incensada democratização do Brasil, eu tinha 10 anos. Impossível participar plena e ativamente daquilo. Em 1989, quando o Lula concorria na primeira eleição direta e eu cheguei a fazer campanha e colar cartaz, eu tinha 15. Início, apenas, e nem votar eu pude. E o candidato que eu havia escolhido perdeu, como perderia todas as eleições seguintes, e eu jamais imaginaria que quando ele finalmente ganhasse quem perderia seríamos nós, os que votamos nele.

Hoje, quando volto para a minha cidade, procuro perscrutar os caminhos dos colegas de infância e juventude. Um, que sonhava passar na ESA e fazer carreira, virou balconista de farmácia em Santa Maria e depois atendente de treiler de xis aqui em Porto Alegre. Outro, o melhor de nós musicalmente falando, desistiu de viver da música e virou cabo da Brigada na região metropolitana. Outro é um mecânico bêbado. Um outro – vizinho, mas não da banda – hoje é biscateiro e tem cinco filhos. Cinco filhos com 32 anos. Um outro chegou a ser músico em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Torrou os poucos miolos que tinha cheirando, fumando e tomando tudo o que apareceu pela frente e foi descoberto há alguns anos como mendigo em Porto Alegre. Repatriado pela mãe, vende artesanato no centro da nossa cidade. Tem ataques de fúria e fala sozinho sentado na calçada. Um outro, que chegou a tocar com a gente mas que não se incorporou ao grupo, sumiu no mundo. Em 2002, encontrei-o de férias na nossa cidade. Estava vivendo na Bahia, era de um grupo de axé e morava numa cidade mais próxima de Brasília do que de Salvador. Achei bom – menos a parte do axé, claro. Mas bem ou mal era um cara com alguma chance, no fim, de ser o único dentre nós que foi adiante na música. Em 2003, noutras férias, soube que desde a última vez que o vira ele havia matado um sujeito numa briga por mulher e estava foragido da justiça.

Escuto sempre essa ladainha idiota da “era de ouro” na qual as mudanças “eram palpáveis” e a “efervescência estava no ar”. Papo de burguês da Capital. Qualquer capital. Para toda uma geração criada nas cidades mais pobres do Estado, não houve o tal período. Houve uma expectativa que foi na verdade o período de glória. A glória de poder esperar algo melhor no dia seguinte.

Fico imaginando como deve ser isso na cabeça de quem tem 18 hoje, num país em que não sobrou nada: nem ética, nem sonho de engajamento político, nem solidariedade, nem exemplos, em que o panorama é de pobre moral, artística e espiritual.

Logo, vítimas dos anos 70, calem essa boca, por favor. A estrela intelectual de vocês não resolveu nada em oito anos. A estrela operária em outros oito fez mais para desacreditar a política e a democracia do que os próprios milicos. Os míticos guerrilheiros engajados na transformação política brasileira por meio da luta armada, como Dirceu e Genoíno, capitularam à corrupção. Calem a boca, por favor, e não se lamuriem por seus fracassos. Vocês pelo menos ainda têm a desculpa de um sonho abortado.

O acordo e o consumo

26 Maio, 2008

Não tenho uma posição muito clara a respeito do acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Acho que é mais prejudicial do que benéfico, e quem vai se beneficiar dele são as grandes companhias editoriais, que não contam com minha simpatia, de qualquer forma. Afinal, há uns três, quatro anos, lembro que elas fizeram um escarcéu e conseguiram a liberação de impostos como o IPI e o Cofins, sob o argumento de que esses tributos encareciam o preço dos livros. Os impostos caíram e os livros continuam criminosamente caros – se bem que pra que livros quando desistimos de alfabetizar o povo decentemente, mesmo?

Acho que mais do que a ortografia, vivemos é uma crise de linguagem, que tem também alguma referência cruzada com o que eu falei aí em cima e que toca em algo que eu penso desde que comecei este blog, em 2001: a  sociedade hoje funciona melhor como cruzamento de relações de consumo do que de cidadania (sinceramente, essa palavra ficou tão carregada pelo mau uso rançoso esquerdista que eu até hoje me sinto desdconfortável em usá-la). Quando tudo se resume em relações de consumo, passamos do Código Civil para o Código de Defesa do Consumidor, hoje provavelmente mais efetivo que o primeiro.

A linguagem mudou, mais do que a ortografia, a ela aderiu essa noção de consumo. Quando o politicamente correto começou a aparecer por aqui, foi tratado com a pena da galhofa, ridicularizado como um elemento irreal de coerção da linguagem. Uma bobagem destinada a não ter futuro. Como todos podem ver, teve.

A onda teve uma vantagem inegável: ensinou às pessoas que as palavras têm peso e não podem ser usadas impune ou levianamente.

Mas não deixo de enxergar na súbita ascensão do Politicamente correto, com toda sua paranóia lingüistica à cata de preconceitos em tudo o que toca, o início de outro fenômeno desagradável, também relacionado ao que eu falava com relação de consumo. A percepção do poder da palavra chegou às grandes corporações financeiras e foi o fim de todo um idioleto vigente desde, sei lá, nossos avós. O inglês, enquanto linguagem da metrópole e, portanto, da sofisticação, do poder, do pensamento pretensamente superior, passou a ser dominante, substituindo à larga termos que sempre usamos tão adequados quanto.

Não que eu seja contra a oxigenação da linguagem pela incorporação e deglutição de palavras estrangeiras, não me confundam com o Aldo Rebelo. Tem sido assim há anos, e o uso acabou por disciplinar os excessos. O futebol ao chegar aqui era foot-ball, no “goal” tínhamos “goalkeeper”, na frente center-forward, atrás os backs, no meio os center-halfs. Com o tempo, ficamos com o que precisávamos, como Gol e beque, e substituímos e traduzimos por Centroavante e meio-campista.
Mas no momento em que uma loja estipula que desconto é OFF, que grátis é FREE e que entrega a domicílio é DELIVERY, não se está usando uma terminologia só aplicável a um campo novo e com termos técnicos próprios, como foi o do futebol ou mesmo como é o caso da atual informática. Está-se sinalizando com uma piscadela de olho idiomática a proposta de um pacto lingüístico que exclua o populacho usando a língua internacional do dinheiro, do poder financeiro e da hegemonia cultural. É preguiça intelectual, misturada com frescura e com doses constrangedoras de deslumbramento – e isso não tem acordo ortográfico que dê jeito..

Ah, os critérios…

29 Abril, 2008

Foto: Ricardo Giusti / PMPA

Nunca entendo muito bem os critérios de administração pública desta cidade. Mas até aí, tudo bem. Se eu entendesse provavelmente seria administrador e não um palpiteiro em um blog.

Esse cidadão que vocês vêem na foto acima é o diretor do DMLU Mário Monks. Ele está acariciando uma das novas e simpáticas lixeiras metálicas que a prefeitura espalhou pela cidade de Porto Alegre, numa iniciativa que, visando à eleição próxima ou não, eu aplaudo, dado que encontrar uma lixeira no teu caminho era uma tarefa mais ou menos complicada, o que obrigada a todo mundo ficar com os bolsos cheios de papelama ou com o lixo mais melequento na mão por quadras a quadras (isso os otários como eu, porque tem os porcalhões que simplesmente jogam tudo na rua).

Então do que eu estou reclamando, perguntarão vocês? De nada em espécifico. É que esses dias passei pela Avenida Ipiranga, uma das mais extensas e importantes de Porto Alegre. E de um lado, havia lixeiras em profusão, uma, duas, três, praticamente uma cada esquina, literalmente, um montão delas como é o ideal numa cidade grande. E na calçada do outro lado, nenhuma. Não vejo problema em vagabundo atravessar a rua para deixar o papel no lixo do outro lado, mas não é esse o critério, tanto que mais adiante a João Pessoa está com muitas lixeiras dos dois lados. O que me surpreeende é que a Ipiranga é uma rua larga com um arroio passando no meio (não chega a ser largo como o Tietê, mas está lá), logo, essa travessia em nome do bem comum fica mais complicada. A pergunta é: se botaram tantas de um lado, custava botar uma que fosse a cada 100 metros ou 150 do outro?

Menos Young Folks, mais Old Dirt Sluts

29 Abril, 2008

Por recomendação de um amigo, vou procurar no Youtube o que ele considera “a melhor música desde 1979, do Smashing Pumpkins“. Mesmo que eu nunca tenha achado 1979 isso tudo que ele acha, vou lá conferir a tal Young Folks, de um grupo ou trio, sei lá, chamado Peter, Bjorn and John. O que eu encontro é uma musiquinha meia-boca que começa com um assoviozinho boiola e um clipe em animação tosca com um bando de adolescentes viadinhos, os “young folks” da música, que se reúnem para uma festinha provavelmente regada a Quick de morango.

Sabendo de minha afeição pela obra de Leonard Cohen, uma amiga me envia um link para um vídeo no Youtube no qual Antony, dos pra mim ainda desconhecidos Antony and the Johns, canta If it be your willl num tributo ao mestre zen da canção. O que eu vejo é um cara que parece ter a minha idade e que canta como se estivesse chorando, jogando no lixo toda a dignidade doída que a música constrói na voz de seu autor.

Vocal choroso me lembra imediatamente de Damien Rice, que, com The Blower’s Daughter, trilha do filme Closer, dominou qualquer aparelho de emissão sonora há uns três anos (outro que termina sua canção praticamente aos prantos – e o que ele próprio parece não perceber, o que é criminoso, dado que o autor da letra é ele, é que os versos da canção, de alguma qualidade, teriam muito, mas muito mais impacto, uma tragicidade estóica, se ele cantasse aquela merda que nem homem).

O mesmo amigo do primeiro fragmento deste texto me diz para ouvir um troço chamado Guillemots. Curioso com uma música chamada justamente Trains to Brazil, vou lá e o que me aparece é uma versão alegrinha do que o Stereophonics fazia nos anos 1990.

Sério, gurizada. Chega de bons sentimentos

Tá na hora de entregar de novo a música para os sujeitos que quebram quartos de hotel e saem no braço com a polícia.

Antípodas

1 Abril, 2008

Em algum momento, me parece que começamos a andar com as mãos e a segurar os talheres com os pés. O Brasil é desesperador se a gente pára para pensar nele. Temos um caso peculiar por aqui de uma terra em que a lógica parece ter ido passear e perdido o caminho de casa. Convivem na atual praxis brasileira uma combinação letal de fartas doses de controle autoritário e de descontrole anárquico – e o engraçado é que parecemos sempre predispostos a controlar o que deveria ser livre e a não estar nem aí com o que deveria passar por controle.

E falo isso estendendo o foco, não é apenas o governo, em qualquer uma de suas instâncias, que mostra uma sede autoritária digna dos piores tempos estalinistas. É também a população civil como um todo que prefere, literalmente, pagar para não se incomodar (quando pode pagar, claro), e ficar sendo aviltado em silêncio porque se espernear pode ser pior.

Tomemos a política como exemplo. Numa época em que a discussão política parece cada vez mais ladeira abaixo, com partidários hidrófobos que não conseguem conversar civilizadamente sem se chamar de “direita raivosa” ou “petralha safado”, o Tribunal Superior Eleitoral larga uma resolução redigida com as patas que, no seu artigo 18, diz claramente que “propaganda política na internet será feita exclusivamente no site do candidato”.

Como já comentaram outros de forma mais arguta do que eu, isso impede o uso eleitoral de uma série de recursos nos quais a internet é pródiga e que turbinam iniciativas há alguns anos: campanha viral por meio de vídeos, jogos e sites especiais, comunidades no Orkut, espaço no myspace, fórum especial – tecnicamente isso não está proibido, ou está, não sei, mas o texto é ambíguo o bastante para que saiba que o poder decisório foi transferido da lei (que deveria ser escrita de forma clara) para a cabeça de qualquer juiz em qualquer comarca fundão afora.

Não quero bater na mesma tecla de sempre, mas parece faltar aos integrantes do judiciário com poder decisório para tanto (provavelmente uns tiozinhos com mais de 50 que só aprenderam a mandar e-mail porque seus netinhos de 10 anos de idade ensinaram) uma compreensão básica do que é a internet.

Em tese, o disposto na resolução número 22.718 visa a coibir o abuso de poder econômico por um candidato ou partido. Mas o que não parece ter chegado ao entendimento dos nobres magistrados é que, diferentemente da TV, na qual há hegemonia de determinados canais e a audiência é limitada a um número restrito de canais mesmo entre os que assinam a TV a cabo, na internet um candidato pode despejar um caminhão de dinheiro e ainda assim não ter sucesso em ser visto como gostaria, pelo caráter descentralizado da produção para a internet. Aliás, eu diria o contrário. Por talvez ter mais jogo de cintura para lidar com a rede e suas vantagens, muito provavelmente o desenrolar de um debate e de uma campanha política em larga escala na internet tenderia a beneficiar candidaturas mais “alternativas”, de nomes já conhecidos por quem produz o “conteúdo” na rede. Ou entre o César Schirmer e a Manuela , quem vocês acham que acharia militantes em número e em condições de levar a briga eleitoral para a rede, blogues, fóruns, orkut, fotologs e o que mais aparecer?

É a sanha de controle do Estado brasileiro com medo do potencial descentralizado da rede, na qual as campanhas milionárias e as mais modestas podem se igualar.

Ao mesmo tempo, o mesmo estado que quer apertar o garrote na Internet (sem gente suficiente para fazer esse tipo de trabalho não vai demorar a aparecer outro juiz inepto em termos eletrônicos que determine a retirada de toda a rede do ar, como no caso Ciccarelli de triste memória) recusa-se a divulgar as contas do governo, faz correr em votação secreta processos parlamentares de cassação…

Sim, eu sei, eu sei, um caso tem a ver com Judiciário, os outro têm a ver com Executivo e Legislativo. E que estou vendo tudo em bloco.

É que acho que é justamente essa mania de ver as coisas compartimentadas a desculpa perfeita apresentada sempre por juízes, parlamentares e gestores do executivo em várias camadas. Cada poder diz fazer sua parte e joga tudo para os ombros dos demais. Os juízes dizem que só cumprem a lei e a culpa é dos legisladores, mas todo o conhecimento sobre leis dos insígnes magistrados não é suficiente se usado sozinho sem um mínimo conhecimento social e técnico de determinadas questões.

Ao ver apenas a lei, descontextualizada e aplicada a casos que nossos magistrados não levantaram suas macias bundas de suas macias cadeiras para averiguar com minúcias, nossos juízes agem como autistas.

E nem vou falar da politicalha que se joga sobre qualquer oportunidade egoística de se dar bem, porque esses são um caso perdido mesmo.

Você sabe o que está dizendo?

26 Março, 2008

Ou “provérbios idiotas que você deveria se envergonhar de usar”

Leio na frase de identificação de um conhecido no MSN (que, felizmente, não sabe que eu tenho este blog):

A hora mais escura é a que precede o nascer do sol.
Bonitinho e tals, mas é bobagem. A hora que precede o nascer do sol já conta com nesgas de sua luminosidade, sendo primeiramente acinzentada, depois violácea, depois azul-forte e finalmente a explosão de cores do romper da aurora. Quem inventou essa frase infeliz ou passou tempo demais lendo Luiz Coronel ou tempo de menos vendo o sol nascer de verdade.

O lugar mais escuro é debaixo da lâmpada.
Esta aqui é tida como um provérbio chinês antigo. Ao menos a mala que me deixou isso numa troca de bilhetes entre colegas de serviço que mais se assemelhava a uma discussão em 1996 assim o identificava. Digamos que eu acredite. Lanternas chinesas, todos vão lembrar, são pequenas armações cônicas ou vagamente cilíndricas de papel colorido com uma vela dentro. A luz, portanto, se espalha de forma radial a partir da chama, e é intensificada pela fina espessura do papel, que a colore e em alguns casos amplifica. Mas essa armação cônica tem, na parte de baixo, uma boca em forma cilíndrica. É por onde a luz da vela menos incide, dado que ela tem o elemento combustível que origina a chama (uma bucha ou uma vela de cera) fazendo sombra. Logo, era um provérbio extremamente adequado para aquele período. Usá-lo hoje quando temos luz elétrica halogênica ou fluorescente é coisa de debilóide.

Sonhe de noite e trabalhe de dia.
O mesmo idiota que escreve algo assim num cartão ou dá isso como conselho odiaria encontrar a rua suja ao sair para o trabalho de manhã cedo, com garis por toda parte trancando o tráfego.. Ou o posto 24 horas ou o próprio Garcia’s fechado na saída da festa.

Para franzir a testa, você utiliza 32 músculos. Para sorrir, somente 28. Sorria, nem que seja por economia.
Dado que não estamos falando dos mesmos músculos, a escolha então é entre não usar e deixar atrofiar 32 músculos ou 28. Agora a coisa mudou de perspectiva, não?

Uma caminhada de mil léguas começa sempre com o primeiro passo.
Outro que é tido como provérbio chinês. Mas se esse primeiro passo for para subir no estribo do ônibus ou pisar na embreagem do carro, o resto da frase soa meio estúpida, não? Ei, não me olhe assim, eles têm veículos hoje na China. Aliás, é onde mais se compram automóveis hoje em dia.

Chega…

17 Março, 2008

Chorão Gilberto 

Oi, eu sou um precursor do emo tristinho com esta
cara de cu porque alguém roubou meu Quick de morango. 
Quer ser meu amiguinho?
 

Vejo no Fantástico matéria sobre 50 anos da Bosta Nova tendo ao fundo o soporífero clássico do cancioneiro nacional Chega de Saudade. Penso imediatamente em duas coisas.

* A Bossa ter 50 anos e ainda ser “nova” não é prova de permanência, é antes de falta de senso. Como aquelas coroas que mentem a idade e se vestem de bustiê e minissaia.

* Se a música diz textualmente: “Chega de Saudade”, até quando vamos ter de agüentar o tom saudosista dessa galerinha ainda presa em um tempo em que o Rio e o Brasil se resumiam (na cabeça deles) a meia dúzia de apartamentos da burguesia de Ipanema?

Atualização: Sentiu-se ofendido? Tenha a bondade de ler este outro texto antes de xingar na caixa de comentários. Obrigado.

Reflexões a bom mercado

2 Janeiro, 2008

Sobre isso, aliás, esses tempo tive um estalo.

Qualquer pretenso artista, mesmo os mais medíocres – talvez principalmente esses – incorporam no discurso uma atitude de martírio em nome da arte, uma posição de quem está sangrando sua obra das entranhas (o que tem se refletido nas declarações e nas obras de toda uma geração de escritoras que tem como projeto de vida ser – Senhor… – Clarah Averbuck).

Sabe por que artistas medíocres dizem tanto isso? Porque é verdade, embora não para todos os que se consideram artistas. Grandes artistas muitas vezes se imolam no altar de sua obra antes que digam qualquer coisa a esse respeito. Quando ao artista, nada a dizer, ele faz o que é preciso e o que faria de qualquer jeito, ele vai lá e escreve, e se entrega, e se esmigalha e faz o que faria de qualquer jeito – alguns não conseguirão, e serão engolidos por empregos, rotinas, cotidianos e nunca farão aquilo que precisavam fazer. Mas a arte é darwinista.

O que me surpreende nessa relação de martírio entre o artista e seu público é o papel ocupado por nós, o público. Dia desses li uma coluna em um jornal de um desses desprezíveis tios saudosistas do tempo da “boa e velha MPB” (numa dessas era ate o Arthur Dapieve, mas agora eu não me lembro com certeza) que, ao comentar uma reportagem da Épioca, assinada pelo Cléber Eduardo, sobre toda uma nova geração de cantoras nacionais, lamentava que elas fossem tão técnicas, tão saudáveis e tão claramente sem conflitos pessoais a serem exorcizados no que cantam. Ele citava, como comparação, o exemplo de Maysa. Ele citava o exemplo de Elis Regina. Ele não citava, mas enquanto ele citava essas duas me lembrei do que Ruy Castro escreveu sobre Billie Holliday em Saudades do Século 20. Todas “cantavam com o útero” (só eu achei essa expressão grotesca?), exorcizavam seus demônios pessoais em interpretações cheias de sentimento.

Maysa e Elis (de quem eu artisticamente não gosto, mas vou chegar a alguém com quem tenha identificação mais adiante, as uso aqui porque foram os exemplos da tal crônica) cantavam assim com tanta intensidade porque a música era talvez o único intervalo de paz em suas almas doentes. ALmas plenas de uma angústia que as levou ao sofrimento durante a vida e a uma morte prematura.

Como também prematura foi a morte de Kurt Cobain, alguém a quem finalmente admiro citado neste texto e que viveu circunstâncias parecidas. Ele foi levado à morte por seus demônios, demônios que, em contrapartida, foram responsáveis pela música dilacerante que ele produziu e que eu e muitos outros no período ouvíamos enlevados, identificados com aquela raiva adolescente seu escoadouro.

Todos detestam tablóides, EU detesto tablóides, fotógrafos papparazzi e toda a estrutura que se criou para que artistas e celebridades (não são a mesma coisa) agonizem em público, suas lágrimas a água benta da nova idolatria hig-tech.

Até que ponto nosso papel como público que engole vorazmente aquela angústia e não se dá conta da dor subjacente àquela poesia, àquela arte, não se confunde com a indiferença brutal dos telespectadores de notícias que vidram os olhos na E! em busca do novo e mais quente babado sobre os escândalos de Britney Spears? Sim, porque num mundo em que pessoas que não são artistas se tornam célebres por sua “arte”, a arte, no caso de Lindsay Lohan, Britney e congêneres, não é sua música (de resto anódina) ou seu trabalho de interpretação dramática (ralo e efêmero), mas sim sua vida célebre, suas carreiras como produtoras de escândalos, estas sim artes do espetáculo e do entretenimento nas quais cada apariçaõ supera a outra. Até a última supresa que não será surpresa pra ninguém, a notícia de que alguma delas teve um fim trágico.

Que moral têm os que sentem falta da angústia deprimente de Maysa ou da dor infinita de Kurt Cobain para criticar, num caso como esse?

Não sei, vocês sabem?

Ah, sim, Feliz Ano Novo, e estou de volta.

Ah, sim

6 Novembro, 2007

E mesmo com tantos novos recursos à minha disposição, eu continuo usando poucas fotos, nenhum vídeo, nenhum desenho.

Só eu e estas palavras – e às vezes parece que mesmo isto já ocupa muito espaço.