Em algum momento, as coisas que eu te dei estavam em gavetas no trabalho, gavetas nas quais escondias minha existência. Eu conservava tudo o que acontecia em mim, a febre, o perigo, o amor. Enquanto teus gestos e teus atos pareciam uma tentativa desesperada de jogar coisas fora, jogar a mim e a nós no lixo metafórico da não-existência. Tratavas tudo vindo de mim como lepra e risco. E deixaste trancadas nas gavetas do trabalho coisas nas quais eu havia depositado um pouco de algo indefinível e ridículo, porque ingênuo, para te oferecer. Odiavas o tom de minhas palavras recentes. Enquanto eu odiava aquelas gaveta, onde minhas cartas jaziam dentro de um saco plástico, invólucro transparente para cadáveres em cenas de crime. O que vivíamos era um crime? Talvez ainda fosse, não acompanhei as mudanças do código penal. Se crime fosse, eu era a vítima, e aquele seria doravante meu lugar: enterrado sem identificação e justiça.
Comigo naquelas gavetas apenas teu silêncio, tua loucura, tua inconstância, teu exercício leviano de poder, consciente ou não. Só tua ausência
Não tenho nada para jogar no lixo porque tudo o que tenho de ti é imaterial, e eu, ao contrário de ti, ainda o guardo em segurança e não às escondidas, ainda protejo o que houve. Nada foi tirado de mim, talvez alguma frustração, muita tristeza e uma colossal raiva tenham sido acrescentadas, mas os afetos não diminuiram.
Já me arrependi de tudo o que escrevi.
Mas sei que desta vez não vou apagar.
2 junho, 2010 às 1:23 am |
Achei!
2 julho, 2010 às 3:48 pm |
Que maravilha que tu me achou! Eu andava te procurando sem sucesso. Me manda um e-mail!.
Beijo.
22 junho, 2010 às 7:51 am |
Bom dia!!! Passei para ver teu blog, amei este texto. Vivi e vivo algo muito parecido… os sentimentos são iguais!!!
2 julho, 2010 às 3:54 pm |
QUe bom que gostaste, Andréa. Vou tentar atualizar por aqui com mais frequência.
Abraço.
4 agosto, 2010 às 10:15 pm |
As gavetas tudo o’que eu exactamente vivo ainda bem que não sou só eu .Se não for um texto não me confundi.