Posts de Julho, 2008

Uma tradução

13 Julho, 2008

Tradução feita por este que vos escreve para um poema de Mestre Bukowski.

Tem tudo a ver com este horário…

one thirty-six a.m.
 

Eu rio às vezes quando penso nisso
digo
Céline na máquina de escrever
ou Dostoiéwski…
ou Hamsun…
homens comuns com pés, ouvidos, olhos,
homens comuns com cabelo sobre suas cabeças
sentados lá, datilografando palavras
enquanto estavam em dificuldades na vida
enquando estavam sendo enganados quase até a loucura.

Dostoiéwski se levanta
deixa a máquina e vai mijar,
volta
bebe um copo de leite e pensa
no cassino e
na roleta.

Céline pára, levanta, caminha até a
janela, observa, pensa, meu último paciente
morreu hoje. Eu não tenho que fazer mais nenhum
atendimento aqui.
quando eu o vi pela última vez
ele pagou a conta;
São aqueles que não pagam suas contas,
os que continuam vivendo.
Céline volta, senta-se
à máquina
Ainda tem uns bons dois minutos
e então começa a datilografar.

Hamsun pára à frente de sua máquina pensando,
Eu me pergunto: eles vão acreditar
em todas estas coisas que escrevo?
Ele senta, começa a datilografar.
Ele não sabe o que é um bloqueio de
escritor:
ele é um filho-da-puta prolífico
quase tão magnífico quanto
o sol.
Ele continua datilografando.

E eu rio
não muito alto
para estas paredes, estas
paredes azuis e amarelo-sujo
meu gato dorme sobre a
mesa
escondendo seus olhos da
luz.

Ele não está só esta noite
e nem
eu.

Cacos no piso

13 Julho, 2008

Havia uma ilusão aqui
antes
Ficava bem ali, na
cabeceira da cama
E um certo afeto
derramado
havia manchado o tecido
do sofá que se foi.

Entornávamos no chão
poesia? Não?
coisas mais sólidas
ou antes, líquidas
e o frescor do parquê
no verão era o único
ar incondicional
que nossos corpos exigiam

Antes do inverno tomar a casa,
dormíamos ao relento
em varanda alheia
e o frio nos parecia
um reino
Quando a casa chegou
o sol viciado
pela janela inconveniente
jogou luz demais
e não deixou sombra intacta
em que pudésssemos esconder
nosso afeto.

Havia o indizível
encostado atrás desta porta
que agora fecho
encerrando pó e papéis
jogados em desordem
dividindo espaço
na sala vazia

com os cacos esparsos
de nossas mãos
entrelaçadas

Reorganizando a estante de discos

7 Julho, 2008

Estranho ouvir Fake Plastic Trees de novo.

Há alguns anos era uma audição que vinha acompanhada de uma dor com o peso do mundo, e a voz dolente de Thom Yorke ao cantar if I could be who you wanted… all the time parecia cravar repetidas vezes um punhal de gelo no meu peito.

E hoje a melancolia estética da música ainda está lá. Mas não mais a dor, o punhal de gelo, o coração parecendo desmoronar aos poucos como um morro erodido pela chuva.

Passou. O que fazia a dor estar lá passou.

E é estranho sentir que mesmo a dor deixa saudade.