Ausências antigas vertem das
paredes. E memórias relegadas
chovem radioativas nas
dançantes partículas de
água e silêncio que
revestem as ruas para
depois cederem espaço a
um vento que sopra decepções ancestrais.
Vozes velhas viajam nesse
vento, vazias. Vozes de
alter egos mortos bebendo nos
beijos palavras de amores perdidos.
Vozes afônicas de tanto grito
trancado, mudo estático.
Vozes que mancham o
cenário de fundo da
memória como
óleo vazando de um mecanismo defeituoso
A casa no inverno é fria de
esquecimento
A matéria úmida das
promessas não cumpridas absorve qualquer
vestígio de sol.
E o esfregão
não limpa ou
seca. Apenas espalha os
cacos recendendo a
pinho de uma história
mal contada
Maltratada
A casa no inverno afoga seus
mortos. Na certeza desesperada de
que tanto tempo e ainda é inverno.
Haverá um verão, se
ainda tarda tanto?
