Mas ainda tem alguém aí?
Posts de Maio, 2008
Não que faça alguma diferença
27 Maio, 2008Testes idiotas, eu também faço
27 Maio, 2008E me surpreendo com o resultado…

You are The Devil
Materiality. Material Force. Material temptation; sometimes obsession
The Devil is often a great card for business success; hard work and ambition.
Perhaps the most misunderstood of all the major arcana, the Devil is not really “Satan” at all, but Pan the half-goat nature god and/or Dionysius. These are gods of pleasure and abandon, of wild behavior and unbridled desires. This is a card about ambitions; it is also synonymous with temptation and addiction. On the flip side, however, the card can be a warning to someone who is too restrained, someone who never allows themselves to get passionate or messy or wild – or ambitious. This, too, is a form of enslavement. As a person, the Devil can stand for a man of money or erotic power, aggressive, controlling, or just persuasive. This is not to say a bad man, but certainly a powerful man who is hard to resist. The important thing is to remember that any chain is freely worn. In most cases, you are enslaved only because you allow it.
What Tarot Card are You?
Take the Test to Find Out.
Tá, a parte da obsessão eu entendi e concordei. Mas sucesso material? Fala sério.
Panis et circensis
26 Maio, 2008Já fui um jovem cheio de sonhos…
Hoje só sobrou farelo de bolacha e metade de um croissant.
Bukowski
26 Maio, 2008
Tradução minha para A Smile to Remember
um sorriso para relembrar
nós tínhamos peixes dourados e eles nadavam rodando e rodando
no aquário sobre a mesa próxima às cortinas pesadas
cobrindo a foto na janela e
minha mãe sempre sorrindo, querendo que todos nós
fôssemos felizes, me disse: “Seja feliz, Henry!”
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
consegue
mas meu pai continuou a bater nela e em mim várias vezes por semana
furioso dentro de sua fotografia de 30cm x 15cm porque ele não conseguia
entender aquilo que o estava atacando por dentro.
minha mãe, pobre peixe
querendo ser feliz, surrada duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria
por que você nunca sorri?”
e então ela sorriria para me mostrar como fazer, e aquele foi
o sorriso mais triste que jamais vi
um dia, os peixes dourados morreram. Todos os cinco
ficaram flutuando na água, de lado, seus
olhos ainda abertos.
e quando meu pai chegou da rua ele jogou-os para o gato.
ali mesmo no chão da cozinha e nós ficamos assistindo enquanto minha mãe
sorria.
Algumas considerações com 1968 como pretexto
26 Maio, 2008Não se fala por estes dias em outra coisa senão o vertiginoso ano de 1968. E, como é muito freqüente acontecer, abundam as interpretações dos participantes daquela geração de que aquele momento foi a plenitude uma assim chamada “era de ouro”. As memórias daqueles anos, evocadas e edulcoradas hoje, quando a decadência – alguém pensou em José Dirceu – já se apossou dos sonhos de juventude, remontam, talvez por um vício saudosista, o passado como o limiar de uma era brilhante, como um período em que era possível “sentir no ar” que o mundo estava aberto à frente e que se vivia o ápice de um tempo – e, como os pensamentos que seguem esse modelo, o arco final do raciocínio é que esse movimento em direção ao progressoa foi abortado por alguma tragédia ou evento externo e inesperado.
É o que falam os escritos que se referem aos anos 20, por exemplo, à louca “era do jazz” na qual a liberdade sexual e cultural de um grupo de privilegiados fez brotar uma efervescência que sedimentou o caminho para a modernidade. Até que a quebra da Bolsa em 1929 pusesse tudo por terra. Também assim vemos o 1968, que ainda se lamenta porque seus projetos foram “abortados” pela ditadura militar aqui no Brasil e pelo refluxo do conservadorismo no resto do mundo: jovens tomaram as ruas em Paris, em Praga, nos Estados Unidos, defendendo um ideal de amor e poesia, enquanto aqui trabalhos sociais e manifestações de ampla força cultural traziam para o público intelectual classe média um conhecimento maior do chamado “Brasil Profundo” – até que os militares vieram com suas botas e terminaram com tudo, na já amplamente divulgada versão da juventude da época e velharada de hoje (quando eu penso que exemplos citados dessa tentativa de “ver o Brasil” são filmes de Glauber Rocha e Maria Bethânia cantando Carcará no show Opinião quase chego à conclusão de que os milicos estavam no caminho certo – não, na verdade não penso, mas a piada era boa).
Como fala por exemplo David Harvey em A condição pós-moderna, ou Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida e Identidade, a noção de luta por um progresso melhor morreu com o século 20, não temos mais essa noção de que o mundo vai evoluir em direção a um futuro utópico (isso é uma noção moderna clássica). O que temos é um presente perpétuo, que não deixa saídas. Acho que a situação pode ser pior para a geração depois da minha, mas para mim, nascido em 1974, criado em um bairro pobre de uma cidade do Interior da metade sul do Rio Grande do Sul, a impressão é sempre de um triste intervalo, de um vazio em que estivemos sempre mergulhados nessa decepção que as gerações antigas sentiam, mas sem o consolo de uma época áurea. Que a chamada “época áurea” era quando ainda tínhamos a esperança de que a situação ruim fosse melhorar. O nosso auge parece ter passado enquanto a gente estava ocupado demais tendo esperança de que ele viria.
Comecei a trabalhar aos 12. Aos 14, arranjei tempo para, com alguns vizinhos, montar uma banda de rock. Em dois anos de atividade, mudamos de formação três vezes (a terceira sem mim) e de nome cinco. E nossos únicos pontos altos foram uma apresentação em Santa Maria em um show coletivo com outras bandas novas da região e um show em que, na nossa cidade, abrimos para o à época já conhecido – embora menos que hoje – Frank Solari. achávamos que podíamos melhorar e que logo alcançaríamos algo.
Não alcançamos. Aquele momento de trabalho duro e ralação era o nosso auge, não teríamos mais do que aquilo.
Em 1984, na incensada democratização do Brasil, eu tinha 10 anos. Impossível participar plena e ativamente daquilo. Em 1989, quando o Lula concorria na primeira eleição direta e eu cheguei a fazer campanha e colar cartaz, eu tinha 15. Início, apenas, e nem votar eu pude. E o candidato que eu havia escolhido perdeu, como perderia todas as eleições seguintes, e eu jamais imaginaria que quando ele finalmente ganhasse quem perderia seríamos nós, os que votamos nele.
Hoje, quando volto para a minha cidade, procuro perscrutar os caminhos dos colegas de infância e juventude. Um, que sonhava passar na ESA e fazer carreira, virou balconista de farmácia em Santa Maria e depois atendente de treiler de xis aqui em Porto Alegre. Outro, o melhor de nós musicalmente falando, desistiu de viver da música e virou cabo da Brigada na região metropolitana. Outro é um mecânico bêbado. Um outro – vizinho, mas não da banda – hoje é biscateiro e tem cinco filhos. Cinco filhos com 32 anos. Um outro chegou a ser músico em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Torrou os poucos miolos que tinha cheirando, fumando e tomando tudo o que apareceu pela frente e foi descoberto há alguns anos como mendigo em Porto Alegre. Repatriado pela mãe, vende artesanato no centro da nossa cidade. Tem ataques de fúria e fala sozinho sentado na calçada. Um outro, que chegou a tocar com a gente mas que não se incorporou ao grupo, sumiu no mundo. Em 2002, encontrei-o de férias na nossa cidade. Estava vivendo na Bahia, era de um grupo de axé e morava numa cidade mais próxima de Brasília do que de Salvador. Achei bom – menos a parte do axé, claro. Mas bem ou mal era um cara com alguma chance, no fim, de ser o único dentre nós que foi adiante na música. Em 2003, noutras férias, soube que desde a última vez que o vira ele havia matado um sujeito numa briga por mulher e estava foragido da justiça.
Escuto sempre essa ladainha idiota da “era de ouro” na qual as mudanças “eram palpáveis” e a “efervescência estava no ar”. Papo de burguês da Capital. Qualquer capital. Para toda uma geração criada nas cidades mais pobres do Estado, não houve o tal período. Houve uma expectativa que foi na verdade o período de glória. A glória de poder esperar algo melhor no dia seguinte.
Fico imaginando como deve ser isso na cabeça de quem tem 18 hoje, num país em que não sobrou nada: nem ética, nem sonho de engajamento político, nem solidariedade, nem exemplos, em que o panorama é de pobre moral, artística e espiritual.
Logo, vítimas dos anos 70, calem essa boca, por favor. A estrela intelectual de vocês não resolveu nada em oito anos. A estrela operária em outros oito fez mais para desacreditar a política e a democracia do que os próprios milicos. Os míticos guerrilheiros engajados na transformação política brasileira por meio da luta armada, como Dirceu e Genoíno, capitularam à corrupção. Calem a boca, por favor, e não se lamuriem por seus fracassos. Vocês pelo menos ainda têm a desculpa de um sonho abortado.
O acordo e o consumo
26 Maio, 2008Não tenho uma posição muito clara a respeito do acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Acho que é mais prejudicial do que benéfico, e quem vai se beneficiar dele são as grandes companhias editoriais, que não contam com minha simpatia, de qualquer forma. Afinal, há uns três, quatro anos, lembro que elas fizeram um escarcéu e conseguiram a liberação de impostos como o IPI e o Cofins, sob o argumento de que esses tributos encareciam o preço dos livros. Os impostos caíram e os livros continuam criminosamente caros – se bem que pra que livros quando desistimos de alfabetizar o povo decentemente, mesmo?
Acho que mais do que a ortografia, vivemos é uma crise de linguagem, que tem também alguma referência cruzada com o que eu falei aí em cima e que toca em algo que eu penso desde que comecei este blog, em 2001: a sociedade hoje funciona melhor como cruzamento de relações de consumo do que de cidadania (sinceramente, essa palavra ficou tão carregada pelo mau uso rançoso esquerdista que eu até hoje me sinto desdconfortável em usá-la). Quando tudo se resume em relações de consumo, passamos do Código Civil para o Código de Defesa do Consumidor, hoje provavelmente mais efetivo que o primeiro.
A linguagem mudou, mais do que a ortografia, a ela aderiu essa noção de consumo. Quando o politicamente correto começou a aparecer por aqui, foi tratado com a pena da galhofa, ridicularizado como um elemento irreal de coerção da linguagem. Uma bobagem destinada a não ter futuro. Como todos podem ver, teve.
A onda teve uma vantagem inegável: ensinou às pessoas que as palavras têm peso e não podem ser usadas impune ou levianamente.
Mas não deixo de enxergar na súbita ascensão do Politicamente correto, com toda sua paranóia lingüistica à cata de preconceitos em tudo o que toca, o início de outro fenômeno desagradável, também relacionado ao que eu falava com relação de consumo. A percepção do poder da palavra chegou às grandes corporações financeiras e foi o fim de todo um idioleto vigente desde, sei lá, nossos avós. O inglês, enquanto linguagem da metrópole e, portanto, da sofisticação, do poder, do pensamento pretensamente superior, passou a ser dominante, substituindo à larga termos que sempre usamos tão adequados quanto.
Não que eu seja contra a oxigenação da linguagem pela incorporação e deglutição de palavras estrangeiras, não me confundam com o Aldo Rebelo. Tem sido assim há anos, e o uso acabou por disciplinar os excessos. O futebol ao chegar aqui era foot-ball, no “goal” tínhamos “goalkeeper”, na frente center-forward, atrás os backs, no meio os center-halfs. Com o tempo, ficamos com o que precisávamos, como Gol e beque, e substituímos e traduzimos por Centroavante e meio-campista.
Mas no momento em que uma loja estipula que desconto é OFF, que grátis é FREE e que entrega a domicílio é DELIVERY, não se está usando uma terminologia só aplicável a um campo novo e com termos técnicos próprios, como foi o do futebol ou mesmo como é o caso da atual informática. Está-se sinalizando com uma piscadela de olho idiomática a proposta de um pacto lingüístico que exclua o populacho usando a língua internacional do dinheiro, do poder financeiro e da hegemonia cultural. É preguiça intelectual, misturada com frescura e com doses constrangedoras de deslumbramento – e isso não tem acordo ortográfico que dê jeito..
O corpo
23 Maio, 2008Visto aqui de baixo, o corpo é o céu.
e os seios solenes
globos nebulosos
abertos em luz
pelos quais escorre
a voz do Senhor
como nos filmes bíblicos
da sessão da tarde.
Visto aqui de baixo, o corpo é o teto.
e os pômulos gloriosos
lustres brilhantes
e a rosácea suave
a contornar os mamilos
discretamente túrgidos
são pequenas chamas
tremulantes
no desatino da pele.
Visto aqui de baixo o corpo é uma árvore
e os seios frutos maduros
dourados com recortes
triangulares de branco
como a casca calada
revelando o sumo
branco da polpa firme.
Visto do corpo, o corpo é o espelho
a curva, o volume,
a luz incidindo na torre tímida
do mamilo em riste
e aqui debaixo,
o corpo se torna promessa
delírio,
tremedeira
rigidez
excitada
esperando
pela
explosão de realidade
que um dia o corpo
- e só o corpo -
talvez conceda
dadivosamente.
Dez músicas
22 Maio, 2008Recentemente comentei com uma garota que deve ter uns, sei lá, 20 anos, que eu gostava de Dylan, e ela me devolveu um olhar de “de onde saiu essa múmia?” enquanto comentava que para ela Dylan era uma mala sem alça, sem voz, um tremendo chato, um insuportável e esses adjetivos hiperbólicos que só a juventude justificam.
Não discuti. Haverá tempo para ela ouvir Dylan ou ela nunca ouvirá, e aí não vai, bem ou mal, fazer diferença. Considerando que o estereótipo do fã de Bob Dylan é o jornalista Eduardo “Peninha” Bueno, muito do que a moça disse deve ter razão de ser, então até entendo sua opinião.
Pra mim, contudo, Dylan foi um dos elementos que colaboraram na minha formação estética. Seu som, de trovador fora de época, sua voz inusitada – não, não estou dizendo que ela é agradável. Pelo contrário, um dos seus mistérios reside justamente no apelo de uma voz metálica e desagradável daquelas e de como ela se ajusta sempre muito bem às canções que ele interpreta. Como fazia muito tempo que eu não exercitava o Nick Hornby em mim, elaborei uma lista de “10 mais”. Não está por ordem de preferência e sim de memória mesmo. Comentários e discordâncias, estejam à vontade.
It ain’t me babe
Triste, melancólica, uma balada de som dolente e agradável, com uma letra ao mesmo tempo muito bonita, muito seca e muito cruel. Não é uma declaração de amor, é uma declaração de não-amor, de covardia e fraqueza, com toda a carga patológica que isso representa.
A Hard Rain’s A-Gonna Fall
Uma letra assustadora, com imagens apocalípticas e ao mesmo tempo inusitadas, um olhar ensandecido sobre um mundo por acabar, embalado em uma melodia folk sem muitas inovações, mas que progride estrofe a estrofe até explodir no refrão como a tempestade que o narrador espera. Um delírio surrealista, como um quadro pintado por alguém com a imaginação de Dalí, concilando a atmosfera opressiva de Hyeronimous Bosch e a crueldade de Francis Bacon.
Positively 4th Street
Um desabafo contundente de alguém que se sente cercado por pessoas em quem acredita não poder mais confiar. Alguém que perdeu a capacidade sequer de reconhecer quem é verdadeiro ou falso. Ao mesmo tempo, a cantilena triste de um paranóico ressentido, numa melodia também folk, com direito a assobiozinho, mas leve o suficiente para iludir o ouvinte que não conhece a letra.
Just Like a Woman
Melodia de cortar o coração, cadência meio blues, meio canção pop, com uma letra que é uma das mais complexas e bem-sucedidas “descrições de personagens” já escritas. Feita para Eddie Seddwigg, uma maluquinha que Dylan conheceu na época e que foi uma lendária presença no cenário musical dos anos 60: pessoa linda e instável, que ganha nessa homenagem a eternidade como uma instável e fascinante garota, mesclando fragilidade e doçura com sentimentos capazes de levar um vilarejo por diante como o mais cruel vendaval. Mas imagino que, depois de terem visto o filme com a Sienna Miller, vocês já devem ter se dado conta disso.
Mr. Tambourine Man
O retrato dos perdidos na noite suja da história. Insônia, angústia, vazio, reprecutindo numa melodia melancólica e ao mesmo tempo monótona, com poucos pontos de aceleração ou mudanças de andamento, uma levada única nas longas estrofes, uma das que mais acentuam o caráter de lírica trovadoresca do bardo urbano.
Hurricane
Eu poderia dar uma de “indie” e retirar essa da minha lista depois que sua inclusão na trilha sonora do filme aquele com o Denzel Washington a popularizou outra vez, levando-a ao conhecimento de gente que não sabia que ela existia. Mas como cago e ando, continuo reverenciando a mágica obtida aqui nestas longas 11 estrofes que condensam uma trama de conspiração e corrupção com absoluta competência, usando até mesmo recursos cinematográficos como descrição do cenário, mudança de pontos de vista e alternância de vozes narrativas. Tudo para passar muito bem um recado de protesto. Claro que ele também abrevia muito alguns pontos não tão positivos na biografia do personagem Rubin “Hurricane” Carter, coisas que contestariam a versão de simples conspiração. Mas narrativa também é seleção, logo… Ah, sim, a música: não gosto de percussão excessiva, mas aqui Dylan utiliza elementos de percussão que lembram muito tambores tribais e isso acrescenta ao efeito uma sonoridade forte, mesclada à guitarra que passeia cínica pela história, como se também ela comentasse a narrativa.
Love Sick
O Blues ainda se faz presente nesta melodia monocórdica, sustentada por uma batida monótona ao piano que parece simular o bater ritmado do coração do apaixonado desiludido que peramblua pela cidade lembrando seu amor perdido. A batida uniforme sustentada por guitarra e teclados prepara estrofe a estrofe uma vigorosa ascensão da melodia até o ponto em que uma parede sonora se ergue no refrão, como se a música fosse tomada pela febre de amor da qual o personagem padece. Um dos grandes momentos recentes de Dylan, se não o melhor.
Most of the time
Eu falava do Alta Fidelidade no início deste post, e agora esta música está ligada à adaptação cinematográfica do livro. Ela é de um álbum de 1989 chamado Oh Mercyque eu ouvi uma vez só e não registrei como deveria por achar que havia coisas ali que sinceramente NÃO deveriam ter visto a luz do dia. Daí, foi quase como se não tivesse ouvido. O resultado é que quando essa música começa a tocar no filme, numa cena particularmente dramática, eu me pego a ouvir embevecido, parecendo que a letra – construída toda sobre um recurso retórico chamado preterição, pelo qual um sujeito diz que não vai dizer o que está dizendo, está falando sobre mim. Reconheci a voz de Dylan, fui atrás da música, um pop romântico sem o folk de sempre, com o uso até mesmo de alguns elementos aparentemente estranhos como bateria eletrônica, e ela derrubou Desolation Row na minha lista de melhores.
Like a Rolling Stone
Não sei se tenho algo de útil a dizer sobre esta música, um retrato de decadência comovente e ao mesmo tempo agressivo. Dizer o quê? que sua letra é perfeita, imagética, narrativa e aijdna por cima rimada? valeria para quase todas as músicas que eu elenquei aqui. Que seu som sintetiza os avanços que Dylan estava fazendo na época ao eletrificar seu som e comprar briga com todos aqueles que o adoravam havia bem pouco tempo? Já foi dito isso, e bem melhor do que eu poderia, por pessoas de real talento musical ou ao menos sensibilidade de ouvinte. Que é uma música tão boa que resiste a versões? E que ficou realmente do caralho na voz de Mick Jagger? E que ver Dylan em dueto com Jagger no palco quando os Stones estiveram no Brasil, cantando exatamente ESSA música, seria o suficiente para colocar essa canção em qualquer lista de melhores que eu fizesse? Vamos preterir. O que eu tinha pra dizer já foi dito. Não direi nada.
Visions of Johanna
Sempre na minha cabeça essa música trava um duelo por um lugar na lista com a também bela I’ll keep it with Mine, mas o fato é que I’ll Keep… muitas vezes me parece mais bonita na versão totalmente irreconhecível grava por Nico em seu The Fairest of the Seasons, o que eventualmente decide a questão a favor de Visions, canção doída, melancólica, lenta, balada que evolui no ritmo com que um rio lamacento arranca detritos do leito e os carrega com a correnteza. Um fantástico retrato de obsessão e assombro.
Ainda haveriam outras miles.
Mas uma lista de 10, infelizmente, nunca pode ser maior do que 10. Nesse sentido, a matemática, por ser o reino da ordem, é também um instrumento autoritário.
Cinco coisas
22 Maio, 2008que você deve ter em mente se for um personagem de novela do Manoel Carlos
1 – Mantenha sua mulher longe do Antônio Fagundes.
2 – Torça para ser coadjuvante. Se você for protagonista ou tiver um papel de alguma relevância, mesmo com um elenco repleto de gostosas, vai precisar, em algum momento, dar um trato na Regina Duarte.
3 – Saiba que você vai morar em um prédio diante de uma exuberante praia do Rio de Janeiro, mas que você nunca vai sequer pisar na areia porque está o tempo todo enfurnado em casa tomando café da manhã, mesmo que seja quatro da tarde ou oito da noite.
4 – Dado que a trilha sonora é sempre bossa nova, torça para que a minoria da vez no “marketing social” do autor da novela sejam os surdos.
5 – Contrariando os Titãs, que diziam que “miséria é miséria em qualquer canto”, ser do núcleo pobre de uma novela que se passa predominantemente na Zona Sul do Rio é melhor do que viver nas favelas do Agnaldo Silva – o que, por sua vez, é sempre melhor do que morar em qualquer favela da vida real.
À moda de Monterroso
22 Maio, 2008Microcontos com no máximo 50 caracteres. Excluindo os espaços, o título e a pontuação (podem contar).
Episódio
Na janela, o bilhete:
– Não pense em mim hoje.
– Tarde demais.
Pensei.
Diário de Adolescência
Grito por socorro
nas páginas antigas.
E hoje não me escuto.
História de Amor nº 5
– Se eu tentasse me matar tu voltava?
– Só se tu conseguisse.
Setenta anos
A vida secou o rio de meu rosto.
Ficou só este solo gretado.
Encontro às escuras
Quando ele viu a coleção de CDs de pagode
O tesão por ela se foi.
Recaída
Limpou-se no lençol, exausta
Eu mudo.
– Que tu sente por mim?
– Raiva.
Sazonal
Sonhava os cabelos loiros à luz do outono.
No Outono, ela se foi.
O Dia Seguinte
Ela anotou o número.
ele usava tantos bolsos
que perdeu.