Posts de Abril, 2008

Ah, os critérios…

29 Abril, 2008

Foto: Ricardo Giusti / PMPA

Nunca entendo muito bem os critérios de administração pública desta cidade. Mas até aí, tudo bem. Se eu entendesse provavelmente seria administrador e não um palpiteiro em um blog.

Esse cidadão que vocês vêem na foto acima é o diretor do DMLU Mário Monks. Ele está acariciando uma das novas e simpáticas lixeiras metálicas que a prefeitura espalhou pela cidade de Porto Alegre, numa iniciativa que, visando à eleição próxima ou não, eu aplaudo, dado que encontrar uma lixeira no teu caminho era uma tarefa mais ou menos complicada, o que obrigada a todo mundo ficar com os bolsos cheios de papelama ou com o lixo mais melequento na mão por quadras a quadras (isso os otários como eu, porque tem os porcalhões que simplesmente jogam tudo na rua).

Então do que eu estou reclamando, perguntarão vocês? De nada em espécifico. É que esses dias passei pela Avenida Ipiranga, uma das mais extensas e importantes de Porto Alegre. E de um lado, havia lixeiras em profusão, uma, duas, três, praticamente uma cada esquina, literalmente, um montão delas como é o ideal numa cidade grande. E na calçada do outro lado, nenhuma. Não vejo problema em vagabundo atravessar a rua para deixar o papel no lixo do outro lado, mas não é esse o critério, tanto que mais adiante a João Pessoa está com muitas lixeiras dos dois lados. O que me surpreeende é que a Ipiranga é uma rua larga com um arroio passando no meio (não chega a ser largo como o Tietê, mas está lá), logo, essa travessia em nome do bem comum fica mais complicada. A pergunta é: se botaram tantas de um lado, custava botar uma que fosse a cada 100 metros ou 150 do outro?

Menos Young Folks, mais Old Dirt Sluts

29 Abril, 2008

Por recomendação de um amigo, vou procurar no Youtube o que ele considera “a melhor música desde 1979, do Smashing Pumpkins“. Mesmo que eu nunca tenha achado 1979 isso tudo que ele acha, vou lá conferir a tal Young Folks, de um grupo ou trio, sei lá, chamado Peter, Bjorn and John. O que eu encontro é uma musiquinha meia-boca que começa com um assoviozinho boiola e um clipe em animação tosca com um bando de adolescentes viadinhos, os “young folks” da música, que se reúnem para uma festinha provavelmente regada a Quick de morango.

Sabendo de minha afeição pela obra de Leonard Cohen, uma amiga me envia um link para um vídeo no Youtube no qual Antony, dos pra mim ainda desconhecidos Antony and the Johns, canta If it be your willl num tributo ao mestre zen da canção. O que eu vejo é um cara que parece ter a minha idade e que canta como se estivesse chorando, jogando no lixo toda a dignidade doída que a música constrói na voz de seu autor.

Vocal choroso me lembra imediatamente de Damien Rice, que, com The Blower’s Daughter, trilha do filme Closer, dominou qualquer aparelho de emissão sonora há uns três anos (outro que termina sua canção praticamente aos prantos – e o que ele próprio parece não perceber, o que é criminoso, dado que o autor da letra é ele, é que os versos da canção, de alguma qualidade, teriam muito, mas muito mais impacto, uma tragicidade estóica, se ele cantasse aquela merda que nem homem).

O mesmo amigo do primeiro fragmento deste texto me diz para ouvir um troço chamado Guillemots. Curioso com uma música chamada justamente Trains to Brazil, vou lá e o que me aparece é uma versão alegrinha do que o Stereophonics fazia nos anos 1990.

Sério, gurizada. Chega de bons sentimentos

Tá na hora de entregar de novo a música para os sujeitos que quebram quartos de hotel e saem no braço com a polícia.

Alguém já pensou

22 Abril, 2008

Em ir a Assunção para conferir se o Padre Adelir foi votar no Bispo Lugo?

Idealismo fixo alemão

15 Abril, 2008

O que Wittgenstein disse para Bertrand Russell?
– Venha, Kant comigo!
E o que Russell respondeu?
– Ah, vai tomar no Hegel!

Pesquisando tudo dá

15 Abril, 2008

Como o blog andava parado, havia sumido dos primeiros resultados do Google, e por isso eu não tive matéria prima por algum tempo para fazer o levantamento das pesquisas exóticas que trouxeram leitores a esta página.

Até agora, claro:

“ter apertado a mao de sinatra”
Provavelmente foi uma honra, mas não foi comigo, tente de novo em outro lugar.

Hiroshima sombras”
Provavelmente você está falando disto:

 Hiroshima

aquele lance das sombras das pessoas impressas nas paredes de Hiroshima após a explosão da bomba, como na imagem tétrica aí de cima. Mais detalhes sobre esse fenômeno e a bomba, consulte este blog português, que foi de onde eu tirei essa foto mesmo…

“utilidade do papel de arroz”
Pois olha, de acordo com o site http://www.papeldearroz.com.br/ (é sério) o papel de arroz é um produto largamente utilizado na decoração de bolos, doces, pirulitos, etc. Nele se pode imprimir qualquer imagem com a utilização de tintas comestíveis, tendo o cuidado de utilizar somente aquelas que forem comprovadamente autorizadas pelo Ministério da Saúde.

“Rubem Fonseca em israel”
Sorte de vocês que eu estou de bom humor e tenho uma memória cavilosa. Você está procurando a crônica escrita por Rubem Fonseca sobre uma viagem a convite que ele e alguns outros escritores fizeram ao país há uns dois anos. Está no próprio site que Fonseca mantém no Portal Literal (sim, o cara é conectado ao mundo virtual). O link direto está aqui.

“como colocar insulfilm em casa”
Contrata alguém que ponha insulfilm e manda pôr na casa, não? Ou você não pode contratar o serviço de alguém porque ia dar na vista? O que você é? Algum mafioso que precisa proteger os negócios escusos e os acertos de contas atrás de vidros escuros? Ops, Olha, pensando bem desculpe, eu não falei isso, foi besteira, viagem da minha cabeça. Dá pra largar, por favor, esse bastão de beisebol e esse martelo? Não, nãããõ.

Da série “Autobiografia em palavras alheias”

15 Abril, 2008

Amor fugado
Me tomas, me dejas, me exprimes y me tiras a un lado
Te vas a otro cielo y regresas como los colibries
Me tienes como un perro a tus pies

Otra ves mi boca insensata
Vuelve a caer en tu piel
Vuelve a mi tu boca y provoca
Vuelvo a caer de tus pechos a tu par de pies

Labios compartidos
Labios divididos mi amor
Yo no puedo compartir tus labios
Y comparto el engaño
Y comparto mis dias y el dolor
Yo no puedo compartir tus labios
Oh amor oh amor compartido

Maná.

Sério, se eu não estivesse podre de bêbado não estaria citando músiccas em espanhol, para deixar claro meu grau de decadência.

O Tempora

7 Abril, 2008

Vejo um programa desses formados por esquetes do que se chamaria de “pegadinhas”, e sempre me impressiono o quanto tantas pessoas reagem violentamente ao estímulo da brincadeira. Senhoras dando bolsadas, sujeitos correndo atrás do ator prontos para fazer uso de espancamento, violência física e outras formas de interação social.

Ouvi dizer que hoje em dia esses programas são só encenações. E sinceramente, pelo que vi, fico torcendo para que sim, mas vou dizer agora o motivo por que eu não me espantaria se fosse verdade… Porque de uma maneira geral eu percebo que as pessoas lá fora parecem estar irritadas, nervosas, enfurecidas, que suas vidas são vividas no limite da civilidade e parece que estamos todos retornando aos tempos anteriores às normais sociais. Que estamos todos nós regredindo ao “estado da natureza”, ao revide violento e gratuito. Que estamos afundando numa espiral de intolerância. E é isso que vejo quando a primeira reação das pessoas aos trotes já é partir para a porrada, os brucutus agarram o ator engraçadinho pelo cabelo, dão tabefes, chutes, saem em perseguição, mulheres dão guarda-chuvadas ferozes e um sujeito lá está provocando riso com o fato de ser agredido.

Pra mim pelo menos é complicado.

Pra vocês não?

Ecos de um diálogo antigo

7 Abril, 2008

Ela – Sonhei contigo essa noite. É impúblicável
Eu – Opa, agora fiquei curioso.
Ela – Não me lembro exatamente do sonho, me lembro é das sensações.
Eu – E como eram as sensações?
Ela – Boas, mas estranhas, levei um susto quando acordei, pensei que não era sonho, que era real.
Eu – Algumas ruins?
Ela – Sim, boas e ruins.
Eu – Hm… Eu te provocava algo ruim no sonho?
Ela – Sim, tu disse que tínhamos que parar, ou tu ia enlouquecer.

Belo conselho.

Pena que eu não segui

Da série “Memesma Memerda”

7 Abril, 2008

Ou “eu não acredito que tu ainda preenche meme de internet”

Nem eu, mas este caso foi uma conjugação entre a circunstância feliz de vários livros lidos, relidos ou terminados de ler recentemente e a circunstância infeliz de estar sem assunto:

Devermos nos emancipar, “libertar-nos da sociedade”, não era problema para Marcuse
Modernidade LíquidaZygmunt Bauman

O tio desaparecera, o amigo de escola permaneceu desaparecido
Nas Peles da Cebola – Günter Grass

The colossus of crime leaned over to the little rustic priest with a sort of sudden interest.
Father Brown Stories – G.K. Chesterton

Eu estava na cozinha de minha mãe, lendo o semanário local.
A Fêmea da Espécie
– Joyce Carol Oates

Quando segurasse na mão, estava ganha a batalha, vinha contar para os outros; já estou segurando na mão.
O Encontro Marcado
– Fernando Sabino

Com efeito, nasce-se cético.
Cioran: entrevistas com Sylvie Jaudeau

A política do corpo

7 Abril, 2008

O corpo e suas satisfações não se tornaram menos efêmeros desde o tempo em que Durkheim louvou as instituições sociais duradouras. O empecilho, no entanto, é que tudo o mais – e principalmente aquelas instituições sociais – se tornou ainda mais efêmero que o “corpo e suas satisfações”. A duração da vida é uma noção comparativa, e o corpo mortal é agora talvez a mais longeva entidade à vista (de fato, a única entidade cuja expectativa de vida tende a crescer ao longo do tempo). O corpo, pode-se dizer, se tornou o único abrigo e santuário da continuidade e da duração; o que quer que possa significar o “longo prazo”, dificilmente excederá os limites impostos pela mortalidade corporal. Esta se torna a última linha de trincheiras da segurança, expostas ao bombardeio constante do inimigo, ou o último oásis entre as areias assoladas pelo vento. Donde a preocupação furiosa, obsessiva, febril e excessiva com a defesa do corpo. A demarcação entre o corpo e o mundo exterior está entre as fronteiras contemporâneas mais vigilantemente policiais. Os orifícios do corpo (os pontos de entrada) e as superfícies do corpo (os lugares de contato) são agora os principais focos do terror e da ansiedade gerados pela consciência da mortalidade. Eles não dividem mais a carga com outros focos (exceto, talvez, a “comunidade”).
Modernidade Líquida
, de Zygmunt Bauman