Posts de Março, 2008

Você sabe o que está dizendo?

26 Março, 2008

Ou “provérbios idiotas que você deveria se envergonhar de usar”

Leio na frase de identificação de um conhecido no MSN (que, felizmente, não sabe que eu tenho este blog):

A hora mais escura é a que precede o nascer do sol.
Bonitinho e tals, mas é bobagem. A hora que precede o nascer do sol já conta com nesgas de sua luminosidade, sendo primeiramente acinzentada, depois violácea, depois azul-forte e finalmente a explosão de cores do romper da aurora. Quem inventou essa frase infeliz ou passou tempo demais lendo Luiz Coronel ou tempo de menos vendo o sol nascer de verdade.

O lugar mais escuro é debaixo da lâmpada.
Esta aqui é tida como um provérbio chinês antigo. Ao menos a mala que me deixou isso numa troca de bilhetes entre colegas de serviço que mais se assemelhava a uma discussão em 1996 assim o identificava. Digamos que eu acredite. Lanternas chinesas, todos vão lembrar, são pequenas armações cônicas ou vagamente cilíndricas de papel colorido com uma vela dentro. A luz, portanto, se espalha de forma radial a partir da chama, e é intensificada pela fina espessura do papel, que a colore e em alguns casos amplifica. Mas essa armação cônica tem, na parte de baixo, uma boca em forma cilíndrica. É por onde a luz da vela menos incide, dado que ela tem o elemento combustível que origina a chama (uma bucha ou uma vela de cera) fazendo sombra. Logo, era um provérbio extremamente adequado para aquele período. Usá-lo hoje quando temos luz elétrica halogênica ou fluorescente é coisa de debilóide.

Sonhe de noite e trabalhe de dia.
O mesmo idiota que escreve algo assim num cartão ou dá isso como conselho odiaria encontrar a rua suja ao sair para o trabalho de manhã cedo, com garis por toda parte trancando o tráfego.. Ou o posto 24 horas ou o próprio Garcia’s fechado na saída da festa.

Para franzir a testa, você utiliza 32 músculos. Para sorrir, somente 28. Sorria, nem que seja por economia.
Dado que não estamos falando dos mesmos músculos, a escolha então é entre não usar e deixar atrofiar 32 músculos ou 28. Agora a coisa mudou de perspectiva, não?

Uma caminhada de mil léguas começa sempre com o primeiro passo.
Outro que é tido como provérbio chinês. Mas se esse primeiro passo for para subir no estribo do ônibus ou pisar na embreagem do carro, o resto da frase soa meio estúpida, não? Ei, não me olhe assim, eles têm veículos hoje na China. Aliás, é onde mais se compram automóveis hoje em dia.

Já que eu tava falando nisso…

26 Março, 2008

Fiz o post sobre isso esta semana mesmo, segunda-feira, e agora descubro que lá, na terra dos ôme, a piada também rola. Leiam o texto abaixo, de John Aizlewood, publicadona edição de hoje do jornal The Guardian:

Fácil. Houve um: Stuart Sutcliffe, o desesperançado baixista que reconheceu suas limitações e, em 1961, optou por ficar em Hamburgo com sua namorada em vez de retornar a Liverpool com os outros quatro.

Claro, não é tão simples. Neil Aspinall, o homem que fez mais para manter os Beatles vivos do que qualquer outro – especialmente os próprios Beatles – morreu na segunda-feira. Seu lugar na história permanece tão incerto quanto o foi em vida. Nas notícias matinais, a BBC o aclamou como o “guru” dos Beatles; e pela hora do chá ele já havia sido rebaixado para “amigo”. Na verdade, ele era um Boswell (1) sem pena: primeiro motorista da van, então assistente e por último síndico e administrador da Apple. Ninguém entendia muito bem o que ele fazia, então ele era freqüentemente chamado de quinto Beatle.

Infelizmente para Aspinall e para seu lugar na posteridade, ele não é o único “quinto Beatle”. Na verdade, há tantos desses camaradas que mesmo um sujeito que tenha feito a voz masculina no coro em algum momento pode pleitear seu lugar entre os aspones dos assim chamados Fab-Four. Qualquer um que já tenha alguma vez apertado a mão de um Beatle parece receber a denominação – do afetado Klaus Voorman, que desenhou a capa de Revolver , ao malfadado roadie Mal Evans.

O texto completo está aqui.
1 – referência ao escritor escocês James Boswell (1740 – 1795), amigo e biógrafo de Samuel Johnson, que passou para a língua inglesa como substantivo sinônimo de secretário ou acompanhante freqüente.

O milésimo “quinto Beatle”

25 Março, 2008

Neil Aspinall 

Beatle? Não está vendo que eu sou o Lex Luthor, meu filho? 

Leio a seguinte notícia nos portais rede afora:

Morre Neil Aspinall, ex-chefe da gravadora dos Beatles

E me chama a atenção para este trecho específico:

Aspinall, que morreu de câncer no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York, era considerado por muitos na indústria musical o verdadeiro “quinto Beatle”, apelido que também foi dado ao produtor do grupo, George Martin.

George Martin, Pete Best, Stuart Stucliffe, Neil Aspinall, talvez Brian Epstein.

Caraca. Já tem mais gente no posto de “quinto Beatle” do que Beatles, propriamente.

Chega…

17 Março, 2008

Chorão Gilberto 

Oi, eu sou um precursor do emo tristinho com esta
cara de cu porque alguém roubou meu Quick de morango. 
Quer ser meu amiguinho?
 

Vejo no Fantástico matéria sobre 50 anos da Bosta Nova tendo ao fundo o soporífero clássico do cancioneiro nacional Chega de Saudade. Penso imediatamente em duas coisas.

* A Bossa ter 50 anos e ainda ser “nova” não é prova de permanência, é antes de falta de senso. Como aquelas coroas que mentem a idade e se vestem de bustiê e minissaia.

* Se a música diz textualmente: “Chega de Saudade”, até quando vamos ter de agüentar o tom saudosista dessa galerinha ainda presa em um tempo em que o Rio e o Brasil se resumiam (na cabeça deles) a meia dúzia de apartamentos da burguesia de Ipanema?

Atualização: Sentiu-se ofendido? Tenha a bondade de ler este outro texto antes de xingar na caixa de comentários. Obrigado.

Tempo contado

13 Março, 2008

Me dá teu beijo.
teu corpo esguio flexível
teu cabelo, fios de alcatrão
escorrendo por essa face
esse rosto de linhas precisas
pedra dócil ao cinzel
essa imagem que se entalha
a fogo e ácido na alma

Me dá teu beijo
me dá teu toque
me dá estas mãos
pássaros nervosos.
Me tá tua voz
como leite morno
na madrugada gélida
Me dá teu sexo
sal e calor
meu retorno à casa
Meu refúgio e calabouço.
Me dá tudo que puderes
tudo que eu quero de ti
Mas rápido

Me dá teu amor
antes que eu acorde.

Re-querer

12 Março, 2008

Se eu pedir com muito jeito
Se eu forçar um sorriso
e, falando devagarinho,
elogiar o teu penteado
e a cor do teu vestidoSe eu te olhar com doçura
e esconder com eficiência
o meu humor depressivo
e esperar com paciência
que possas falar comigo

Será que tu virias
pra me afastar desta náusea
de tanto sorriso falso
de tanto malentendido
de tanta briga sem causa
de tanto elogio mentido?

 

A morte de si

12 Março, 2008

Recentemente foi bastante divulgado por aqui (aqui Porto Alegre) o caso de um jovem, um adolescente superdotado que, há algum tempo, mentiu para os pais que faria um churrasco com amigos na casa para poder ficar sozinho, usou o carvão e a churrasqueira para se asfixiar no banheiro enquanto pedia dicas e orientação em um fórum de pretensos suicidas. O rapaz deixou algumas músicas gravadas no computador que foram reunidas em um disco.

Vi muita gente se impressionar por esse fato, mas não exatamente pelos mesmos motivos que eu. Alguns amigos de mesma idade, ao discutir o caso, nitidamente sentiam-se abalados na condição de pais de filhos pequenos, projetando o futuro dessas suas sementes jogadas no mundo quando elas chegarem à adolescência.  Acho que é uma maneira de se encarar, embora muito egoísta por não contemplar em momento algum o próprio garoto, e o quanto sofrimento é necessário para fazer alguém desistir da vida e, principalmente, da arte (parece que o disco é bom, bem bom, mas nunca ouvi, então estou só repassando informação de segunda mão) que era, no fim, uma válvula de redenção ou de sublimação de seja lá qual fratura esse moço sentia na alma.

O suicídio nunca é um tema fácil. Para além de qualquer consideração sobre os sentimentos pessoais de cada um, é, em primeiro lugar, um ato individual que ameaça o próprio tecido social. Não existe vida em sociedade com ampla liberdade, infelizmente a verdade é essa. A liberdade irrestrita de todos leva à selvageria e à carnificina, ao primado da força bruta que impõe suas condições ao obter superioridade sobre os demais. Para que a vida em sociedade seja possível é que todos concordam em abrir mão de determinadas prerrogativas de liberdade em nome do bem comum – e é meio… doloroso notar que enquanto escrevo isto, o texto soa por demais iluminista e que o Iluminismo por sua vez soa hoje como uma doutrina ultrapassada num mundo de relativismos por um lado e imposição fanática de uma verdade oficial por outro, seja ela de âmbito religioso, moral ou político.

O suicídio é a última afirmação do indivíduo, a mais radical, a mais autocentrada. O suicídio é partir sem olhar para trás e sem ligar para as conseqüências, e por isso são raras as sociedades, principalmente no ocidente, que as chancelaram oficialmente (sim, eu sei que o Japão teve por milênios uma política oficial que aprovava o suicídio com honra e que até mesmo prescrevia como ele deveria ser executado, mas eu confesso que meu entendimento da mentalidade oriental é ainda mais raso do que todo o resto dos meus conhecimentos, e portanto não arrisco dizer o porquê). Ainda que haja tolerância, raramente haverá aprovação.

A religião cristã desencoraja o suicídio por meio da promessa de dura punição para o que se considera o pecado. A vida, pelo pensamento teocrático, é um dom de Deus e só pode ser tirada por ele, o que, na Idade Média, por exemplo, soava bastante lógico ao se pensar que era uma época em que a religião tinha força de Estado. Se Deus é a Igreja, e a Igreja acumula influência secular por meio de seu suposto poder transcendente no além-vida, dizer que algo atenta contra Deus é dizer que algo atenta contra a sociedad e a forma como ela é constituída num Estado religioso. Daí, obviamente, é só mais um passo para que um Estado fundamentado sobre essa base de fé religiosa resolva estender seu domínio sobre o indivíduo não apenas proibindo-o de se matar e abandonar a construção do todo social, mas decidindo que determinados tipos de morte auto-infligida, desde que executadas sob a orientação da Igreja que é também o Poder político, podem ser usados em benefício desse Estado fundamentalista. E é isso o que vemos no comportamento dos fundamentalistas religiosos que se explodem em áreas povoadas em mortes não só incentivadas como glorificadas pelas organizações que eles representam – organizações que, em alguns casos, lutam para estabelecer um poder político vinculado a um poder clerical.

Os sistemas laicos ocidentais podem não oferecer recompensas no céu para quem vestir um capote de dinamite e apertar o detonados, mas não são muito diferentes no tocante às restrições impostas à selvagem autodeterminação individual dos suicidas. Muitos Esados laicos vêem hoje o suicídio como um crime, o que não tem a mesma força dos tempos em que se tinha o entendimento de que a punição enviada pelo ente divino poderia alcançar o infrator até mesmo no outro mundo. Como um Estado laico só pode punir quem está vivo, quando alguém comete com sucesso a tentativa criminosa de suicídio, , nunca se poderá castigar o autor. Não acho que seja à toa que esses estopins ambulantes que invadem escolas e prédios metralhando o que vêem pela frente terminem suas orgias de violência dando um tiro em si mesmos. O último gesto é também a fuga mais eficiente, porque na lei penal do Estado esse sujeito não poderá mais pagar pelos seus crimes contra terceiros. Os cristãos, judeus, muçulmanos e vários outros sistemas teosóficos que agora não me ocorrem (Mago Mojo, se por acaso estiver lendo isto, agradeceria um comentário com mais alguns) pelo menos acreditam em uma punição além-vida, o que torna sua visão mais consistente.

Dante coloca a floresta dos suicídas no sétimo círculo, perto do centro do Inferno. As árvores e arbustos ali brotam das almas dos suicidas na terra. E até essas almas estavam poluídas, porque as árvores são apenas espinheiros venenosos, sem flores, sem folhas, sem galhos. Apenas troncos retorcidos e espinhos fatais. Faz sentido. É uma bela metáfora poética para exprimir o desespero que leva a uma idéia de atentar contra a própria vida: a sensação de que a alma é um tronco ressequido e espinhoso.

Mas apesar de todo o anátema contra o suicídio e sua aparente facilidade, sua pretensa solução amedrontada para um problema complexo, sempre admirei a coragem física necessária para contrariar o próprio instinto de autopreservação e se infligir um estrago irreversível. É preciso, na hora tida como a de maior covardia moral, uma ultima reserva de grande coragem física. Quem não tem mais vontade de nada precisa gastar a que tem querendo morrer – um paradoxo ao mesmo tempo aterrorizante e hipnótico.

Toda vez que se fala dessa contraposição polêmica Coragem x Covardia referindo-se ao suicídio eu me lembro daquela história dos poetas russos Sergei Iessiênin e Vladimir Maiakóvski. O primeiro se matou em um quarto de hotel e deixou como mensagem um último poema escrito na parede, com o próprio sangue, que reproduzo abaixo na tradução de um dos irmãos Campos – acho que é o Haroldo, mas não tenho certeza:
Adeus, amigo, sem mãos nem palavras
Não guardes um sobrolho pensativo
Se morrer, nesta vida, não é novo,
tampouco há novidade em estar vivo

Impressionado com o patético do episódio, Maiakóvski escreveu um longo poema intitulado A Sergei Iessiênin, cujos últimos versos terminavam com uma refutação dos argumentos do falecido em uma estrutura muito semelhante à usada no derradeiro poema suicida:
Morrer, nesta vida, não é difícil
Difícil é a vida e seu ofício.

Não sei qual deles está certo. Já fui mais propenso a enxergar uma certa beleza romântica na atitude de Iessiênin, o que hoje não vejo de forma alguma. para um artista abrir mão da vida é abrir mão de um tempo para produzir sua arte – é ser vencido pela incapacidade essencial que todos os humanos, artistas inclusos, têm de aprisionar a vida num invólucro de signos e símbolos, de burilar em palavras, em sons, em imagens, em objetos a chave da transcendência, é ser derrotado pela disparida que sempre existe entre o que um artista QUER quando começa uma obra e o que ele CONSEGUE quando a termina. E acho que de todas as derrotas essa é a que de alguma forma me provoca mais pena e sensação de desperdício. Porque o artista que se mata desiste de lutar no único lugar onde tudo depende só dele: sua obra, seu esforço de criação.

Voltando a Maiakóvski, por exemplo, sempre me pareceu que sua entusiasmada defesa da vida perde muito em contundência quando a gente se lembra que ELE PRÓPRIO se matou poucos anos depois de Iessiênin.

Ah, um último comentário: como eu disse em todo este texto, o suicídio é um ato de determinação individual. É um grito último de desafio do indivíduo, e, mesmo que eu não o considere uma saída, vejo a última e desepserada força no tal ato de fraqueza extrema. 

Mas babacas que se reúnem em fóruns para ficar, da segurança de sua poltrona frente ao monitor, dando força aos que querem se matar, são mais do que irresponsáveis, são hediondos (e não gosto mais muito dessa palavra pelo significado jurídico que ela andou assumindo devido ao ordenamento legal dos crimes hediondos). São aproveitadores abusivos daqueles que não têm mais nada. Nem a si mesmos.

Passeio Noturno

12 Março, 2008

Eu os vejo lá fora
os bêbados contra a parede
buscando um pouco de lucidez
no fundo de seus olhos fechados
com as mãos na parede
tentando escorar o mundo que gira.
Os tristes e patéticos
bêbados loucos
grudados às paredes
como aquelas sombras que ficaram
impressas
quando a bomba caiu em Hiroshima.
Sombras de cinzas
decalcadas na parede.
Sempre a parede

Alguns deles
escorregam tijolos abaixo
quase em câmera lenta
como gângsters mortos
em um filme barato de Kung Fu.

Eu os vejo
prontos para afundar
com a cabeça rodopiando sobre o pescoço
no ritmo
em que suas entranhas giram por dentro

Eu os vejo
derramados sobre a sarjeta
sobre a urina o vômito o lixo
eu sei que eles agora
se sentem tão mal
que pedem a morte
mas que amanhã a estas horas
terão vindo buscar mais
daquilo que os enjoa.

Eu os vejo com os olhos turvos
Seus rostos sem amparo
escorados na parede
Eu os vejo com a
boca seca
E se não fosse um deles
passaria reto
sem sentir pena
ou olhar pra trás.

Da série Pesquisando e Andando

6 Março, 2008

Essa fazia tempo que eu não abordava justamente porque blog novo e semiabandonado não rende muita pesquisa no Google e, portanto, não rende post sobre pesquisas que vão parar no lugar errado. Como agora que o blog está em atividade de novo o pessoal tem aparecido outra vez, meu contador de visita diz que vieram parar aqui nesta págfina incautos procurando as seguintes expressões:

tatuagens de samurai 1
Bá, vou ficar devendo. Que eu soubesse, quem usava tatuagem era a Yakuza – e eles eram uma máfia, não um clã samurai.

verdade cristalizada 1
Bonito isso. Vendem na mesma prateleira que figos cristalizados? É usado para decorar doces?

textos inventados para ler 1
Ahn… Me corrijam se eu parecer imbecil, mas quais textos são inventados para NÃO ler?