Recentemente foi bastante divulgado por aqui (aqui Porto Alegre) o caso de um jovem, um adolescente superdotado que, há algum tempo, mentiu para os pais que faria um churrasco com amigos na casa para poder ficar sozinho, usou o carvão e a churrasqueira para se asfixiar no banheiro enquanto pedia dicas e orientação em um fórum de pretensos suicidas. O rapaz deixou algumas músicas gravadas no computador que foram reunidas em um disco.
Vi muita gente se impressionar por esse fato, mas não exatamente pelos mesmos motivos que eu. Alguns amigos de mesma idade, ao discutir o caso, nitidamente sentiam-se abalados na condição de pais de filhos pequenos, projetando o futuro dessas suas sementes jogadas no mundo quando elas chegarem à adolescência. Acho que é uma maneira de se encarar, embora muito egoísta por não contemplar em momento algum o próprio garoto, e o quanto sofrimento é necessário para fazer alguém desistir da vida e, principalmente, da arte (parece que o disco é bom, bem bom, mas nunca ouvi, então estou só repassando informação de segunda mão) que era, no fim, uma válvula de redenção ou de sublimação de seja lá qual fratura esse moço sentia na alma.
O suicídio nunca é um tema fácil. Para além de qualquer consideração sobre os sentimentos pessoais de cada um, é, em primeiro lugar, um ato individual que ameaça o próprio tecido social. Não existe vida em sociedade com ampla liberdade, infelizmente a verdade é essa. A liberdade irrestrita de todos leva à selvageria e à carnificina, ao primado da força bruta que impõe suas condições ao obter superioridade sobre os demais. Para que a vida em sociedade seja possível é que todos concordam em abrir mão de determinadas prerrogativas de liberdade em nome do bem comum – e é meio… doloroso notar que enquanto escrevo isto, o texto soa por demais iluminista e que o Iluminismo por sua vez soa hoje como uma doutrina ultrapassada num mundo de relativismos por um lado e imposição fanática de uma verdade oficial por outro, seja ela de âmbito religioso, moral ou político.
O suicídio é a última afirmação do indivíduo, a mais radical, a mais autocentrada. O suicídio é partir sem olhar para trás e sem ligar para as conseqüências, e por isso são raras as sociedades, principalmente no ocidente, que as chancelaram oficialmente (sim, eu sei que o Japão teve por milênios uma política oficial que aprovava o suicídio com honra e que até mesmo prescrevia como ele deveria ser executado, mas eu confesso que meu entendimento da mentalidade oriental é ainda mais raso do que todo o resto dos meus conhecimentos, e portanto não arrisco dizer o porquê). Ainda que haja tolerância, raramente haverá aprovação.
A religião cristã desencoraja o suicídio por meio da promessa de dura punição para o que se considera o pecado. A vida, pelo pensamento teocrático, é um dom de Deus e só pode ser tirada por ele, o que, na Idade Média, por exemplo, soava bastante lógico ao se pensar que era uma época em que a religião tinha força de Estado. Se Deus é a Igreja, e a Igreja acumula influência secular por meio de seu suposto poder transcendente no além-vida, dizer que algo atenta contra Deus é dizer que algo atenta contra a sociedad e a forma como ela é constituída num Estado religioso. Daí, obviamente, é só mais um passo para que um Estado fundamentado sobre essa base de fé religiosa resolva estender seu domínio sobre o indivíduo não apenas proibindo-o de se matar e abandonar a construção do todo social, mas decidindo que determinados tipos de morte auto-infligida, desde que executadas sob a orientação da Igreja que é também o Poder político, podem ser usados em benefício desse Estado fundamentalista. E é isso o que vemos no comportamento dos fundamentalistas religiosos que se explodem em áreas povoadas em mortes não só incentivadas como glorificadas pelas organizações que eles representam – organizações que, em alguns casos, lutam para estabelecer um poder político vinculado a um poder clerical.
Os sistemas laicos ocidentais podem não oferecer recompensas no céu para quem vestir um capote de dinamite e apertar o detonados, mas não são muito diferentes no tocante às restrições impostas à selvagem autodeterminação individual dos suicidas. Muitos Esados laicos vêem hoje o suicídio como um crime, o que não tem a mesma força dos tempos em que se tinha o entendimento de que a punição enviada pelo ente divino poderia alcançar o infrator até mesmo no outro mundo. Como um Estado laico só pode punir quem está vivo, quando alguém comete com sucesso a tentativa criminosa de suicídio, , nunca se poderá castigar o autor. Não acho que seja à toa que esses estopins ambulantes que invadem escolas e prédios metralhando o que vêem pela frente terminem suas orgias de violência dando um tiro em si mesmos. O último gesto é também a fuga mais eficiente, porque na lei penal do Estado esse sujeito não poderá mais pagar pelos seus crimes contra terceiros. Os cristãos, judeus, muçulmanos e vários outros sistemas teosóficos que agora não me ocorrem (Mago Mojo, se por acaso estiver lendo isto, agradeceria um comentário com mais alguns) pelo menos acreditam em uma punição além-vida, o que torna sua visão mais consistente.
Dante coloca a floresta dos suicídas no sétimo círculo, perto do centro do Inferno. As árvores e arbustos ali brotam das almas dos suicidas na terra. E até essas almas estavam poluídas, porque as árvores são apenas espinheiros venenosos, sem flores, sem folhas, sem galhos. Apenas troncos retorcidos e espinhos fatais. Faz sentido. É uma bela metáfora poética para exprimir o desespero que leva a uma idéia de atentar contra a própria vida: a sensação de que a alma é um tronco ressequido e espinhoso.
Mas apesar de todo o anátema contra o suicídio e sua aparente facilidade, sua pretensa solução amedrontada para um problema complexo, sempre admirei a coragem física necessária para contrariar o próprio instinto de autopreservação e se infligir um estrago irreversível. É preciso, na hora tida como a de maior covardia moral, uma ultima reserva de grande coragem física. Quem não tem mais vontade de nada precisa gastar a que tem querendo morrer – um paradoxo ao mesmo tempo aterrorizante e hipnótico.
Toda vez que se fala dessa contraposição polêmica Coragem x Covardia referindo-se ao suicídio eu me lembro daquela história dos poetas russos Sergei Iessiênin e Vladimir Maiakóvski. O primeiro se matou em um quarto de hotel e deixou como mensagem um último poema escrito na parede, com o próprio sangue, que reproduzo abaixo na tradução de um dos irmãos Campos – acho que é o Haroldo, mas não tenho certeza:
Adeus, amigo, sem mãos nem palavras
Não guardes um sobrolho pensativo
Se morrer, nesta vida, não é novo,
tampouco há novidade em estar vivo
Impressionado com o patético do episódio, Maiakóvski escreveu um longo poema intitulado A Sergei Iessiênin, cujos últimos versos terminavam com uma refutação dos argumentos do falecido em uma estrutura muito semelhante à usada no derradeiro poema suicida:
Morrer, nesta vida, não é difícil
Difícil é a vida e seu ofício.
Não sei qual deles está certo. Já fui mais propenso a enxergar uma certa beleza romântica na atitude de Iessiênin, o que hoje não vejo de forma alguma. para um artista abrir mão da vida é abrir mão de um tempo para produzir sua arte – é ser vencido pela incapacidade essencial que todos os humanos, artistas inclusos, têm de aprisionar a vida num invólucro de signos e símbolos, de burilar em palavras, em sons, em imagens, em objetos a chave da transcendência, é ser derrotado pela disparida que sempre existe entre o que um artista QUER quando começa uma obra e o que ele CONSEGUE quando a termina. E acho que de todas as derrotas essa é a que de alguma forma me provoca mais pena e sensação de desperdício. Porque o artista que se mata desiste de lutar no único lugar onde tudo depende só dele: sua obra, seu esforço de criação.
Voltando a Maiakóvski, por exemplo, sempre me pareceu que sua entusiasmada defesa da vida perde muito em contundência quando a gente se lembra que ELE PRÓPRIO se matou poucos anos depois de Iessiênin.
Ah, um último comentário: como eu disse em todo este texto, o suicídio é um ato de determinação individual. É um grito último de desafio do indivíduo, e, mesmo que eu não o considere uma saída, vejo a última e desepserada força no tal ato de fraqueza extrema.
Mas babacas que se reúnem em fóruns para ficar, da segurança de sua poltrona frente ao monitor, dando força aos que querem se matar, são mais do que irresponsáveis, são hediondos (e não gosto mais muito dessa palavra pelo significado jurídico que ela andou assumindo devido ao ordenamento legal dos crimes hediondos). São aproveitadores abusivos daqueles que não têm mais nada. Nem a si mesmos.