Bom, eu devia de qualquer forma algumas notas sobre Fidel e a situação de Cuba. Sei lá direito que notas seriam essas, dado que minha reticência com o regime e suas propostas já vem de muito antes de minha desilusão com o PT, ainda mais brutal, depois que o partido chegou ao poder. Talvez fique melhor organizar o pensamento da maneira como eu vou fazer agora.
* Como boa parte dos jovens no último meio século eu tive simpatia por Fidel em algum momento. Nem que seja por sua realização, a de liderar um bando destroçado e maltrapilho na derrubada de um ditador típico da América Latina: vaidoso, perdido na própria ostentação e sanguinário no trato com os opositores. E por mais que o revisionismo selvagem e predatório dos dias de hoje tente retirar da revolução cubana aquilo que ela foi, o fato é que o movimento foi sim vitorioso com amplo apoio popular na ilha. Mas confesso que, algum tempo depois, já quando havia abraçado o anarquismo na minha também instável e incerta juventude, alguma coisa já me cheirava mal no fato de Fidel estar havia três décadas no poder em Cuba e, com sinais trocados, ter se convertido em um ditador vaidoso, perdido na própria ostentação de seu papel como símbolo revolucionário (a barba, a farda verde-oliva, aquele boné ridículo eram signos tão berrantes quanto os ternos e as medalhas de Batista) e sanguinário no trato com os opositores. Ninguém que faça uma revolução em nome da liberdade de um país e de um povo fica 50 anos no poder sem eleições livros e ainda pode ser levado a sério. E a dolorosa verdade é que há muito tempo Fidel é ele próprio a tirania que seus seguidores desesperados por se agarrar na última relíquia ideológica do século 20 dizem que a experiência cubana nasceu para combater.
* Lula disse que Fidel é um “mito vivo”. Nunca subestime o quanto a ignorância está perto da sabedoria. Por mais achincalhado que seja por sua incultura, Lula, com sua expressão, desvendou melhor que qualquer um o paradoxo insustentável da permanência de Fidel no poder (ainda que nosso presidente provavelmente não tenha se dado conta de que estava fazendo isso). O mito é elemento fundador de um povo, mas é também uma verdade cristalizada na qual se busca uma certeza segura para manter uma certa unidade, um sentimento nacional ou tribal de pertencimento, e isso é assim desde os gregos. Mas nas narrativas míticas há sempre um requisito que, não sendo cumprido por Fidel, é motivo de constrangimento: o mito é no mais das vezes uma narrativa de um passado lendário, protagonizada normalmente por um heróico e nobre personagem que, não só não é da mesma estirpe dos que ouvem suas histórias, não é da mesma linhagem, não está mais presente, digamos assim, como provavelmente encontrou o fim glorioso de uma morte como coroação de um dever, tarefa ou missão cumprida. Provavelmente isso venha da própria noção grega do que seria uma “vida plena e feliz” (sobre isso, sugiro lerem Felicidade, de Darrin McMahon, editora Globo): uma vida que, quando chega ao fim, pode ser avaliada como positiva, não depois. E talvez por isso muitos mitos terminem com a morte virtuosa do personagem ou com o protagonista suportando um destino atroz por sua persistência em agir contrário à vontade dos deuses, e portanto pautado pelos interesses dos homens. Ser, portanto, um “mito vivo” contraria tudo o que há de bom no mito, sua capacidade gregária de estabelecimento de uma identidade , e evoca tudo o que o mito tem de ruim: pensamento pronto, autoritário, sem direito a contestação, sem espaço para a ousadia, apegado a rituais que se bastam em si mesmos e que não deixam margem para a curiosidade intelectual, apenas para a supertição que gera o fanatismo. Não é à toa que é tão importante para os antigos comunas as palavras de ordem, que oferecem um modelo pronto de pensamento às massas de manobra, e a instituição humilhante da “crítica e autocrítica”, forma ritual de comungar com a fé do grupo, dissolução do “eu” em benefício da tribo. Dizer que Fidel é o Prometeu revolucionário chega a ser um abuso, dado que as vísceras arrancadas no topo da rocha não foram as dele, mas do empobrecido povo cubano. Mesmo a morte heróica com o dever cumprido é reeencenada como farsa pelo caquético “mito”: ele sai de cena vivo, e sem honrar com a totalidade de suas tarefas para com o povo cubano, com PIB menor do que 1959 e comendo menos. Alguns dirão que a culpa é do embargo americano, no que provavelmente estarão certos. Mas um mito mata o dragão, não fica se escondendo atrás da rocha proclamando resistência heróica ao mesmo tempo em que faz beicinho e reclama que ele é maior. É da natureza dos mitos vencer desafios díspares, algo que a esquerda iludida com seu complexo de bebê chorão não se deu conta.
* Para a permanência de Fidel no poder e seu totalitarismo, os defensores de Cuba estão sempre prontos para defender que, em um país pequeno e sem interlocutores, a abertura democrática seria manipulada pelo capitalismo e impediria a marcha da revolução. Tenho um colega de trabalho que diz exatamente isso. Pois bem: digo em alto e bom som que quem defende esse sofisma canalha é um bosta. Bosta, é a palavra. Bosta porque fecha os olhos ao fato de que a revolução não está avançando, está estagnada, está regredindo, está tudo, menos avançando. E dois: brincar de teórico da política libertária à distância quando quem sofre restrições, censura, prisão política e fuzilamento são os outros é mais do que ser bosta, é ser mau-caráter.
* Por outro lado, uma coisa é preciso que se diga. Mal é anunciada a saída de Fidel e um analista calhorda da CIA divulga informações de que Raúl Castro, o sucessor, deve “abrir a ecnomia cubana”. Peralá, cára-pálida. como é que se “abre” uma economia que sofre embargo unilateral há décadas?
* Ainda outra coisa: Fidel e sua ilha representavam uma esperança de ação alternativa, hoje morta. A aposentadoria de Fidel é a aposentadoria do século 20, e nesse sentido seu valor simbólico é o mesmo da morte de Antônio Carlos Magalhães e de Leonel Brizola, é o fim das figuras de um século que “já vai tarde”, como escreve em um poema o Affonso Romano de Sant’Anna. É o entronizar oficial do cínico e niilista século 21, com vantagens e desvantagens: inação, apatia, nenhum sonho ou ambição coletiva, e sim pequenas realizações medíocres individuais. Mas também é um tempo mais maduro, de soluções menos simplórias.
Quer dizer, eu bem que queria acreditar nisso. Mas cada vez mais percebo que estamos divididos entre a apatia incontornável e o bate-boca comprometido de partidários que mais parecem torcidas organizadas de futebol. O pensamento simplório morreu com o século 2o, mas o pensamento complexo não tomou seu lugar. Acho que no fim o que está agonizando é o pensamento, pura e simplesmente.
* E o saldo de Fidel em Cuba? Daqui, sem nunca ter estado lá, não consigo acreditar que foi tão positivo quanto dizem. Mas mantenho a mente aberta à dúvida. Afinal, eu não moro lá.