Posts de Fevereiro, 2008

Da série (A)versões musicais

25 Fevereiro, 2008

Para ser cantado ao ritmo de João e Maria, de Chico Buarque (aquela do “Agora eu era herói…”)

Eu era office boy
E trabalhava para um banco inglês
Ganhava mal que dói
só ia almoçar depois das três

E você
a garçonete lá daquele ar
aonde eu ia à noite pra jantar
bauru com ovo feito em pão de xis…

Hefestus, em campanha por uma MPB que faça real jus ao “popular” da sigla.

Tá, falando sério agora

20 Fevereiro, 2008

Bom, eu devia de qualquer forma algumas notas sobre Fidel e a situação de Cuba. Sei lá direito que notas seriam essas, dado que minha reticência com o regime e suas propostas já vem de muito antes de minha desilusão com o PT, ainda mais brutal, depois que o partido chegou ao poder. Talvez fique melhor organizar o pensamento da maneira como eu vou fazer agora.

* Como boa parte dos jovens no último meio século eu tive simpatia por Fidel em algum momento. Nem que seja por sua realização, a de liderar um bando destroçado e maltrapilho na derrubada de um ditador típico da América Latina: vaidoso, perdido na própria ostentação e sanguinário no trato com os opositores. E por mais que o revisionismo selvagem e predatório dos dias de hoje tente retirar da revolução cubana aquilo que ela foi, o fato é que o movimento foi sim vitorioso com amplo apoio popular na ilha. Mas confesso que, algum tempo depois, já quando havia abraçado o anarquismo na minha também instável e incerta juventude, alguma coisa já me cheirava mal no fato de Fidel estar havia três décadas no poder em Cuba e, com sinais trocados, ter se convertido em um ditador vaidoso, perdido na própria ostentação de seu papel como símbolo revolucionário (a barba, a farda verde-oliva, aquele boné ridículo eram signos tão berrantes quanto os ternos e as medalhas de Batista) e sanguinário no trato com os opositores. Ninguém que faça uma revolução em nome da liberdade de um país e de um povo fica 50 anos no poder sem eleições livros e ainda pode ser levado a sério. E a dolorosa verdade é que há muito tempo Fidel é ele próprio a tirania que seus seguidores desesperados por se agarrar na última relíquia ideológica do século 20 dizem que a experiência cubana nasceu para combater.

* Lula disse que Fidel é um “mito vivo”. Nunca subestime o quanto a ignorância está perto da sabedoria. Por mais achincalhado que seja por sua incultura, Lula, com sua expressão, desvendou melhor que qualquer um o paradoxo insustentável da permanência de Fidel no poder (ainda que nosso presidente provavelmente não tenha se dado conta de que estava fazendo isso). O mito é elemento fundador de um povo, mas é também uma verdade cristalizada na qual se busca uma certeza segura para manter uma certa unidade, um sentimento nacional ou tribal de pertencimento, e isso é assim desde os gregos. Mas nas narrativas míticas há sempre um requisito que, não sendo cumprido por Fidel, é motivo de constrangimento: o mito é no mais das vezes uma narrativa de um passado lendário, protagonizada normalmente por um heróico e nobre personagem que, não só não é da mesma estirpe dos que ouvem suas histórias, não é da mesma linhagem, não está mais presente, digamos assim, como provavelmente encontrou o fim glorioso de uma morte como coroação de um dever, tarefa ou missão cumprida. Provavelmente isso venha da própria noção grega do que seria uma “vida plena e feliz” (sobre isso, sugiro lerem Felicidade, de Darrin McMahon, editora Globo): uma vida que, quando chega ao fim, pode ser avaliada como positiva, não depois. E talvez por isso muitos mitos terminem com a morte virtuosa do personagem ou com o protagonista suportando um destino atroz por sua persistência em agir contrário à vontade dos deuses, e portanto pautado pelos interesses dos homens. Ser, portanto, um “mito vivo” contraria tudo o que há de bom no mito, sua capacidade gregária de estabelecimento de uma identidade , e evoca tudo o que o mito tem de ruim: pensamento pronto, autoritário, sem direito a contestação, sem espaço para a ousadia, apegado a rituais que se bastam em si mesmos e que não deixam margem para a curiosidade intelectual, apenas para a supertição que gera o fanatismo. Não é à toa que é tão importante para os antigos comunas as palavras de ordem, que oferecem um modelo pronto de pensamento às massas de manobra, e a instituição humilhante da “crítica e autocrítica”, forma ritual de comungar com a fé do grupo, dissolução do “eu” em benefício da tribo. Dizer que Fidel é o Prometeu revolucionário chega a ser um abuso, dado que as vísceras arrancadas no topo da rocha não foram as dele, mas do empobrecido povo cubano. Mesmo a morte heróica com o dever cumprido é reeencenada como farsa pelo caquético “mito”: ele sai de cena vivo, e sem honrar com a totalidade de suas tarefas para com o povo cubano, com PIB menor do que 1959 e comendo menos. Alguns dirão que a culpa é do embargo americano, no que provavelmente estarão certos. Mas um mito mata o dragão, não fica se escondendo atrás da rocha proclamando resistência heróica ao mesmo tempo em que faz beicinho e reclama que ele é maior. É da natureza dos mitos vencer desafios díspares, algo que a esquerda iludida com seu complexo de bebê chorão não se deu conta.

* Para a permanência de Fidel no poder e seu totalitarismo, os defensores de Cuba estão sempre prontos para defender que, em um país pequeno e sem interlocutores, a abertura democrática seria manipulada pelo capitalismo e impediria a marcha da revolução. Tenho um colega de trabalho que diz exatamente isso. Pois bem: digo em alto e bom som que quem defende esse sofisma canalha é um bosta. Bosta, é a palavra. Bosta porque fecha os olhos ao fato de que a revolução não está avançando, está estagnada, está regredindo, está tudo, menos avançando. E dois: brincar de teórico da política libertária à distância quando quem sofre restrições, censura, prisão política e fuzilamento são os outros é mais do que ser bosta, é ser mau-caráter.

* Por outro lado, uma coisa é preciso que se diga. Mal é anunciada a saída de Fidel e um analista calhorda da CIA divulga informações de que Raúl Castro, o sucessor, deve “abrir a ecnomia cubana”. Peralá, cára-pálida. como é que se “abre” uma economia que sofre embargo unilateral há décadas?

* Ainda outra coisa: Fidel e sua ilha representavam uma esperança de ação alternativa, hoje morta. A aposentadoria de Fidel é a aposentadoria do século 20, e nesse sentido seu valor simbólico é o mesmo da morte de Antônio Carlos Magalhães e de Leonel Brizola, é o fim das figuras de um século que “já vai tarde”, como escreve em um poema o Affonso Romano de Sant’Anna. É o entronizar oficial do cínico e niilista século 21, com vantagens e desvantagens: inação, apatia, nenhum sonho ou ambição coletiva, e sim pequenas realizações medíocres individuais. Mas também é um tempo mais maduro, de soluções menos simplórias.
Quer dizer, eu bem que queria acreditar nisso. Mas cada vez mais percebo que estamos divididos entre a apatia incontornável e o bate-boca comprometido de partidários que mais parecem torcidas organizadas de futebol. O pensamento simplório morreu com o século 2o, mas o pensamento complexo não tomou seu lugar. Acho que no fim o que está agonizando é o pensamento, pura e simplesmente.

* E o saldo de Fidel em Cuba? Daqui, sem nunca ter estado lá, não consigo acreditar que foi tão positivo quanto dizem. Mas mantenho a mente aberta à dúvida. Afinal, eu não moro lá.

Programa de humilhagem

19 Fevereiro, 2008

fidel.jpg

Papai Noel, Velho Batuta

Será que agora, com os pontos que sobraram no plano de Fidelização os cubanos conseguem finalmente uma passagem pra Miami?

Veneno da Madrugada

19 Fevereiro, 2008
Quatro e meia.
Não consigo dormir e a escuridão do quarto (está quente e a janela está aberta, dando de frente para o quarto do vizinho, e por isso mantenho a luz apagada, para que ela não se infiltre pelas persionas e perturbe o sono de seja lá quem for que esteja lá dentro) se torna mais opressiva conjugada com a melancolia inevitável desta hora.
Esta é a hora em que eu me sinto menor. É nesta hora que eu queria um filho? Um alguém para não me deixar dormir por um motivo nobre, alguém que eu pudesse conhecer desde a infância, alguém que eu visse formar-se diante de meus olhos
Quatro e meia.
A hora em que o desespero rasteja para as bordas do ser, crava suas unhas nas paredes e espia para dentro como quem procurasse morada e resolvesse se instalar por ali. A hora em que até mesmo a tristeza parece entristecer. É a hora em que o medo de não dormir mais provoca impulsos de confidência. E é nesta hora que é bom ter um blog, porque a esta hora eu já estaria escrevendo um e-mail para um pobre coitado que no dia seguinte leria sem entender nada e se alarmaria com os motivos que levaram o e-mail a ser enviado, e que provavelmente já não existiriam mais com a luz do sol.
Acontece isso com mensagens, das mais simples às mais desesperadas. A gente deixa em cada escrito um pedaço do que tínhamos de particular quando tudo começou. E quando esse texto é lido, provoca outra mensagem do outro lado, que chega quando o momento já é outro, e às vezes a resposta vem como a voz que se refere a um sonho, a algo que era compreensível e parte do contexto naquele momento, mas não agora.
Já são vinte pras cinco.
A hora em que eu sei que deveria me meter na cama e tentar dormir afundando os olhos na escuridão do quarto – o que há de errado, afinal? uma hora você apaga, por mais que role desesperado por um tempo que parece horas. Vai ver nem se passa tanto tempo assim, a percepção da passagem do tempo é subjetiva, sabemos disso há muito tempo, e agora está sendo reforçado pela biografia do Einstein, essa mais recente, que estou lendo. Alguém esses dias me perguntou de livros que eu estava lendo, aqui mesmo nesses comentários, e esse é um, e eu não tenho ainda um comentário consistente, preciso chegar ao fim do livro, me surpreende apenas o como a maneira como o biógrafo apresenta Einstein conjuga a genialidade com a personalidade obtusa de um sujeito que se viu desesperado depois que as implicações da sacada genial que ele teve sobre o conceito de Relatividade Geral saiu de seu controle. A Relatividade levou naturalmente ao Campo Quântico, e em vez de saudar essa percepção, Einstein a renegou e passou seus últimos anos batendo cabeça atrás de uma mal-sucedida tentativa de provar seu “campo unificado”. Boa leitura, amigos, eu recomendo, estou saindo da minha brutal ignorância em matéria de Ciências graças um pouco a ela.
Quinze pras cinco.
Morcegos se divertem guinchando perto da janela que eu deixo aberta. Sei que são morcegos porque um dia um deles entrou por uma fresta da janela da área de serviço e caiudentro de um balde que estava dentro do tanque. Ficou a noite toda arranhando o plástico e tentando sair dele, imagino que o balde ainda devesse estar molhado e as asas ficaram pesadas. fechei a porta do quarto e deixei-o lá até a manhã seguinte, quando o sol seria inclemente em atravessar a cobertura de acrílico e deixar a área mais clara do que o morcego gostaria. Aí peguei o balde e o sacudi pela janela, deixando que o morcego se virasse para amortecer a queda de quatro andares, mas sei que não morreu, ele planou confuso até o solo, debatendo as asas e tentando se esconder do sol.
Também eu me debato, mas nas sombras, e amanhã quando o sol entrar por esta janela aberta serei acordado por sua luz invasiva e tentarei planar eu também de volta ao térreo da minha vida ativa de assalariado.
Dez pras cinco.
Boa parte da angústia parece ter sangrado para as palavras na tela e agora uma certa leveza se instala. Talvez eu até conseguisse dormir um pouco se tentasse.
Bom conversar com vocês.
Pena que amanhã o contexto será outro, e qualquer manifestação de qualquer um de vocês soará como um sonho, um recado que vocês mandam para alguém que não sou mais eu. Porque amanhã o dia terá varrido um pouco esse peso que eu nem sei de onde vem.
Beijo nas crianças.

Ficções Reais de Amores Inventados – 3

18 Fevereiro, 2008

J

Foi colega de faculdade, estudou comigo por dois anos e eu nunca havia reparado nela. No final de 1993 eu a vi em uma festa, cabelo comprido um pouco descuidado, sem os óculos de todo o dia, e seu rosto revelava um mistério novo. E um dia, no início de 1994, ela cortou o cabelo e apareceu na minha frente tão bonita que não parecia a mesma pessoa. Ela gostava de outro cara na época, o que quase me fez, com a cagonice de que não me orgulho, bater em retirada. Mas eu disse foda-se e a cortejei com toda a timidez de um afeto hesitante, medroso de entrega. Um dia dividimos um guarda-chuva até a casa dela, que era perto da minha. Eu a deixei na porta, afaguei seu rosto e fui embora me amaldiçoando por não tê-la beijado. No outro dia, eu a puxei para mim com a loucura e a coragem dos desesperados. E aí começamos.

Agridoce: a pele era muito branca, e os cabelos, castanhos, lisos que ela de vez em quando, muito de vez em quando, arruinava com alguma permanente . Os olhos, castanho-esverdeados, mudavam de cor conforme a luz, caleidoscópio impassível. Ela sorria discreta mostrando uma falha entre os dentes, tinha uma voz grave, com modulação que raramente se alterava. Ela andava devagar, era econômica em gestos e palavras e foi a mulher mais inteligente que já conheci. Ela se encolhia no colchão à meia-luz e apertava o peito sentindo dores que não conseguia explicar. Não se dava com os avós mas chorou a noite toda quando o avô morreu, pela oportunidade de reconciliação sempre adiada e agora pra sempre perdida. Ela gostava de sundae de chocolate e de balinhas de côco, e uma vez fui buscá-las na Vila Jardim numa manhã de sábado – encontrando, contra todas possibilidades em contrário.
Com ela descobri o melhor e o pior de mim – e demorei muito tempo para aceitar que eu não podia me desvencilhar dela, como tentei fazer por anos, porque ela havia sido responsável por uma parte da minha formação. Só depois que entendi isso ela deixou de me assombrar – literalmente, por anos eu a chamei de ”sombra” – e virou um nome associado a lembranças passadas, e não o passado condicionando minha vida. Mas havia o lado amargo: ela não gostava de demonstrações públicas de afeto, era teimosa, competitiva e sentia-se ameaçada quando detectava um campo de ação ou conhecimento no qual eu era ou parecia ser mais capaz ou mais instruído do que ela. Depois de muito tempo, ela se tornou impaciente com minha raiva permanente, minha depressão crônica, meu negativismo incurável. E se foi.

Ela gostava de sonhar e planejar viagens, e infelizmente a maioria dos planos ela foi concretizar sozinha.

Sublimação

18 Fevereiro, 2008
Pelo período de seis meses, construímos, eu e ela, uma história fictícia no mundo real. Por meio de não-gestos plenos de significação, de aproximações delicadas, de interdições, de uma série de pequenos atos que deveriam levar à consumação de um sentimento forte de paixão e desejo que havia, mas que não ousamos tornar real. Porque quando chegávamos perto demais dessa realidade corríamos, eu e ela, para o papel ou para o e-mail, como várias vezes fiz, no momento em que fui assaltado por uma necessidade brutal de espancar o teclado com a fúria com a qual eu queria abraçá-la, e de escrever com o jorrro e o deleite e a insensatez e a entrega e a falta de limites que eu queria para me jogar sobre ela – o que ela não permitiu que eu fizesse.
Fizemos tudo isso porque era o único caminho para nossa não-história, para aquilo que, relutante e consensualmente, escolhemos não viver.
E esse foi nosso caminho triste: sublimar impulsos de gozo e fúria e toque e os beijos nunca trocados e as carícias só imaginadas neste plano da linguagem – aqui entendida sem a dádiva de um trocadilho de duplo sentido.
Sublimação e sublime tem a mesma origem.
Quem derivou uma da outra não devia saber o que estava fazendo… 

Re-citando

15 Fevereiro, 2008

A carne é triste – porque é cara.
E eu não li todos os livros – talvez só os piores.

E Deus é 10

Mas só se for à vista – à prazo tem 100% de acréscimo.

(A)Versões musicais

14 Fevereiro, 2008

Retomando a produção nunca interrompida mas pouco divulgada de paródias bagaceiras.

Para ser cantado ao ritmo de Boa Sorte/Good Luck, de Vanessa da Matta e Ben Harper (que dupla, senhor!):

Se você quiser me dar
vou traçar
o teu rabo
Que legal!

Se disser que tá ruim
vai assim
azar
a expectativa é desleal

Flashback

13 Fevereiro, 2008

O cabelo era preto e sedoso e tinha um cheiro suave que se mesclava ao leve aroma de sabão em pó que se desprendia do blusão que ela vestia para se proteger do frio da precoce da madrugada de abril. Ela encostou a testa em meu peito enquanto eu mergulhava a mão nos cabelos dela como quem corre os dedos por aquelas cortinas de franjas, e inebriado pelo aroma aproximava meu rosto do rosto dela. E por um momento, um frágil momento, os lábios chegaram a se tocar.

E aí ela cedeu ao peso de tudo que carregava nos últimos sete anos – e que continuou sustentando nos sete meses seguintes, talvez sustente até hoje – e se afastou como se repelida por uma corrente elétrica de baixa amperagem.

– Não, esse tipo de paixão não tem lugar na minha vida.

E se afastou alguns passos, parou no meio do caminho, voltou até mim e afagou a pele áspera de minha face mal barbeada.

– Promete que a gente ainda vai escrever sobre isso?

Escrever naquele momento seria substituir o peito que eu sentia ribombando pela frágil descrição de pulso acelerado, sangue correndo lamacento nas veias e febre que parece estourar as têmporas. Escrever seria trocar aquelas sensações estroboscópicas que eu vivia por palavras que não dariam conta do que as sensações representavam.

Mas eu não tinha escolha.

E por isso prometi.

Ficções Reais de Amores Inventados – 2

12 Fevereiro, 2008

S

Em 2003, um e-mail intrigante e indignado surgiu na minha caixa de mensagens. Era uma garota fula da vida porque em um texto eu havia desancado uma banda depois de vê-los em um daqueles shows aos quais eu ia muito às segundas-feiras, quando ainda não era tão recluso quanto me tornei nos último anos. Ela comentou que morava em uma cidade do Interior e que a tal banda se apresentaria lá, ela estava pensando em ir mas depois de ler o que eu escrevi sobre os caras, desistiu, e ficou braba comigo por estragar seu programa.
Achei o episódio tão divertido que respondi educadamente dizendo que ela poderia simplesmente ter achado que eu era um imbecil e ido ao show assim mesmo. Ela respondeu que ficou braba porque, ao ler o texto, considerou que eu provavelmente tinha razão. E começou uma intensa embora breve troca de e-mails. Ela escrevia com humor e ironia, tinha tiradas poéticas, fantasiava mundos inventados, cheios de bruma e felinos.
Um dia, por coincidência, sem planejamento, fui passar uma semana na cidade em que ela morava. Mandei uma mensagem para que, se ela estivesse interessada, entrássemos em contato. Ela ligou. E nos conhecemos constrangidos no bar que ela e uns amigos freqüentavam. Nos falamos praticamente todos os dias, mas foi apenas no último, quando eu estava para voltar a Porto Alegre, que eu misturei vinho com cerveja e perdi a inibição de me aproximar dela e a noite em sua casa foi lírica e lúbrica, Cássia Eller entoando Nando Reis e corpos buscando em si mesmo o calor que a noite da cidade invernal nos negava.
Cheguei a voltar outra vez àquela cidade, desta vez apenas para vê-la, e fiquei lá um fim-de-semana. Depois do qual ela parou de me escrever e de atender aos meus telefonemas. Um dia ela me mandou uma explicação para isso, mas ela já não importa mais, hoje. Ela simplesmente não sentiu. Só.

Agridoce: Ela era alta. Dependendo do salto, ficava maior do que eu. Mulher grande, ossos grandes, curvas, braços longos. A pele era pálida, mas era inverno. E seus cabelos eram compridos e lisos, escuros, desciam abaixo dos ombros e pareciam sempre perfumados de alecrim – nunca soube se se era xampu ou loção. A voz era grave, grossa, e toda vez que falava parecia que ela estava usando um tom mais alto do que o necessário. Mas ainda assim seu riso vibrava límpido no ar, como um toque de uma colher em um copo de cristal. Ela se vestia com elegância, mas na casa que dividia com outras três pessoas preferia um moletom velho e gasto, bege pintalgado de manchas nas mais diversas tonalidades e cores. Ela bebia vinho com as pernas encolhidas no sofá e tinha as mãos sempre frias. Os olhos eram agressivos, escuros e meio assustadores, olhavam fixo como se a gente estivesse em dívida. Embora ela própria tivesse como profissão de fé jamais se sentir em dívida com alguém. Antes de conhecê-la, eu a apelidei de Bast numa referência à deusa egípcia dos gatos, pelos quais tinha fixação. Ela gostou e se assinava assim, às vezes Bubastis, variação.

Uma divindade de uma civilização morta. É mais ou menos a evocação que minha mente forma dela passado hoje depois de tantos anos.