Posts de Janeiro, 2008

Reflexões a bom mercado

2 Janeiro, 2008

Sobre isso, aliás, esses tempo tive um estalo.

Qualquer pretenso artista, mesmo os mais medíocres – talvez principalmente esses – incorporam no discurso uma atitude de martírio em nome da arte, uma posição de quem está sangrando sua obra das entranhas (o que tem se refletido nas declarações e nas obras de toda uma geração de escritoras que tem como projeto de vida ser – Senhor… – Clarah Averbuck).

Sabe por que artistas medíocres dizem tanto isso? Porque é verdade, embora não para todos os que se consideram artistas. Grandes artistas muitas vezes se imolam no altar de sua obra antes que digam qualquer coisa a esse respeito. Quando ao artista, nada a dizer, ele faz o que é preciso e o que faria de qualquer jeito, ele vai lá e escreve, e se entrega, e se esmigalha e faz o que faria de qualquer jeito – alguns não conseguirão, e serão engolidos por empregos, rotinas, cotidianos e nunca farão aquilo que precisavam fazer. Mas a arte é darwinista.

O que me surpreende nessa relação de martírio entre o artista e seu público é o papel ocupado por nós, o público. Dia desses li uma coluna em um jornal de um desses desprezíveis tios saudosistas do tempo da “boa e velha MPB” (numa dessas era ate o Arthur Dapieve, mas agora eu não me lembro com certeza) que, ao comentar uma reportagem da Épioca, assinada pelo Cléber Eduardo, sobre toda uma nova geração de cantoras nacionais, lamentava que elas fossem tão técnicas, tão saudáveis e tão claramente sem conflitos pessoais a serem exorcizados no que cantam. Ele citava, como comparação, o exemplo de Maysa. Ele citava o exemplo de Elis Regina. Ele não citava, mas enquanto ele citava essas duas me lembrei do que Ruy Castro escreveu sobre Billie Holliday em Saudades do Século 20. Todas “cantavam com o útero” (só eu achei essa expressão grotesca?), exorcizavam seus demônios pessoais em interpretações cheias de sentimento.

Maysa e Elis (de quem eu artisticamente não gosto, mas vou chegar a alguém com quem tenha identificação mais adiante, as uso aqui porque foram os exemplos da tal crônica) cantavam assim com tanta intensidade porque a música era talvez o único intervalo de paz em suas almas doentes. ALmas plenas de uma angústia que as levou ao sofrimento durante a vida e a uma morte prematura.

Como também prematura foi a morte de Kurt Cobain, alguém a quem finalmente admiro citado neste texto e que viveu circunstâncias parecidas. Ele foi levado à morte por seus demônios, demônios que, em contrapartida, foram responsáveis pela música dilacerante que ele produziu e que eu e muitos outros no período ouvíamos enlevados, identificados com aquela raiva adolescente seu escoadouro.

Todos detestam tablóides, EU detesto tablóides, fotógrafos papparazzi e toda a estrutura que se criou para que artistas e celebridades (não são a mesma coisa) agonizem em público, suas lágrimas a água benta da nova idolatria hig-tech.

Até que ponto nosso papel como público que engole vorazmente aquela angústia e não se dá conta da dor subjacente àquela poesia, àquela arte, não se confunde com a indiferença brutal dos telespectadores de notícias que vidram os olhos na E! em busca do novo e mais quente babado sobre os escândalos de Britney Spears? Sim, porque num mundo em que pessoas que não são artistas se tornam célebres por sua “arte”, a arte, no caso de Lindsay Lohan, Britney e congêneres, não é sua música (de resto anódina) ou seu trabalho de interpretação dramática (ralo e efêmero), mas sim sua vida célebre, suas carreiras como produtoras de escândalos, estas sim artes do espetáculo e do entretenimento nas quais cada apariçaõ supera a outra. Até a última supresa que não será surpresa pra ninguém, a notícia de que alguma delas teve um fim trágico.

Que moral têm os que sentem falta da angústia deprimente de Maysa ou da dor infinita de Kurt Cobain para criticar, num caso como esse?

Não sei, vocês sabem?

Ah, sim, Feliz Ano Novo, e estou de volta.

Do fundo da Adega

2 Janeiro, 2008

Amy Winehouse fez um sucesso astronômico com uma música na qual dizia:

They tried to make me go to rehab but I said ‘no, no, no’

Quem já não pensou ao ver alguma coisa associada ao nome da cantora na mídia que talvez ela tivesse feito melhor dizendo “sim”?