Sempre fui desses que vão dispersando partes de si – não, não os leprosos. Falo dos que são ao mesmo tempo produtores incessantes de símbolos que se grudam aos objetos e um desapegado da posse destes mesmos objetos.
Livros, principalmente – e falo isso porque, vocês devem ter notado, os que são de Porto Alegre, a Feira do Livro está em andamento por aqui. Mas não só livros, claro. Em Passo Fundo, numa noite de vinho, velas, delírio e música ruim, larguei por lá uma edição dos Contos de Tchekhov achando que um dia eu teria chance de voltar para buscar não só o volume mas também um pouco mais daquele vinho e daquelas velas e daquele delírio – a música eu até dispensava. Outra vez, depois de um relacionamento que acabou particularmente mal, o alívio de estar outra vez sozinho deu lugar à constatação de que havia esquecido na casa da moça em questão meus dois volumes de Anna Karenina, comprados nos anos 1990 em banca de jornal numa edição econômica da Abril Cultural – sim, eu devo ter um talento para perder esses russos. Um Nick Hornby se foi com uma grande amizade. Acho que eu sinto mais falta do livro, hoje em dia.
Um empréstimo de um disco do Smashing Pumpkins terminou por virar presente definitivo – e volutariamente, também fiz o mesmo certa vez com um dos discos do Belle & Sebastian. Os discos hoje valem mais pelo que rerpesentaram as garotas que os receberam do que por seu conteúdo musical, pra mim ambos dois estelionatos: comprei o Adore por causa da To Sheila e o resto parecia technogay dos anos 80, e o disco do Belle e Sebastian, acho que o Fold your hands… me soou como repetição banal do Tigermilk, então fiquei só com esse.
Houve fotos – e acho que o O passado, do Hector Babenco, e sua maluca tarja-preta com fixação por fotos me lembrou disso também. Houve fotos em conjunto, abandonadas como escombros. Houve fotos só minhas, em outras ocasiões. Duas delas foram para Brasília, e lá ficaram. Mas foi o avesso das superstição. Minha alma não foi capturada porque alguém se apossou das fotos. As fotos foram um presente para sublinhar a posse de outrem da minha alma.
Quanto?
Quanto da gente se pode perder, como camadas de pele descamada, até que um dia tudo seja varrido na tempestade?