Posts de Novembro, 2007

Esta falta

12 Novembro, 2007

Chego e busco as palavras
E elas não falam a mesma língua
da semana passada.

Chego e busco uma etérea sensação
imaterial
mas que até ontem
ou talvez anteontem
estava aqui.
Quente e macia
E agora o que há
é este cheiro de umidade
e a chuva agredindo as janelas

Chego em casa e busco
o toque de febre
a pele queimando
de medo e delírio.
Não há mais febre
só o cansaço de um mundo
e uma cicatriz
em forma de sorriso.

Falta o cheiro de pêssego
e promessas
e a voz de murmúrio
córrego e fonte

E nunca algo que faz tanta falta
esteve tão perto e tão presente
no barulho das sacolas de supermercado
na água que sibila para o chá
na espuma que hesito em derramar na esponja

E agora já não sei mais
como tirar de mim
aquilo que não está mais lá

Ah, sim

6 Novembro, 2007

E mesmo com tantos novos recursos à minha disposição, eu continuo usando poucas fotos, nenhum vídeo, nenhum desenho.

Só eu e estas palavras – e às vezes parece que mesmo isto já ocupa muito espaço.

Deixando rastros

6 Novembro, 2007

Sempre fui desses que vão dispersando partes de si – não, não os leprosos. Falo dos que são ao mesmo tempo produtores incessantes de símbolos que se grudam aos objetos e um desapegado da posse destes mesmos objetos.

Livros, principalmente – e falo isso porque, vocês devem ter notado, os que são de Porto Alegre, a Feira do Livro está em andamento por aqui. Mas não só livros, claro. Em Passo Fundo, numa noite de vinho, velas, delírio e música ruim, larguei por lá uma edição dos Contos de Tchekhov achando que um dia eu teria chance de voltar para buscar não só o volume mas também um pouco mais daquele vinho e daquelas velas e daquele delírio – a música eu até dispensava. Outra vez, depois de um relacionamento que acabou particularmente mal, o alívio de estar outra vez sozinho deu lugar à constatação de que havia esquecido na casa da moça em questão meus dois volumes de Anna Karenina, comprados nos anos 1990 em banca de jornal numa edição econômica da Abril Cultural – sim, eu devo ter um talento para perder esses russos. Um Nick Hornby se foi com uma grande amizade. Acho que eu sinto mais falta do livro, hoje em dia.

Um empréstimo de um disco do Smashing Pumpkins terminou por virar presente definitivo – e volutariamente, também fiz o mesmo certa vez com um dos discos do Belle & Sebastian. Os discos hoje valem mais pelo que rerpesentaram as garotas que os receberam do que por seu conteúdo musical, pra mim ambos dois estelionatos: comprei o Adore por causa da To Sheila e o resto parecia technogay dos anos 80, e o disco do Belle e Sebastian, acho que o Fold your hands… me soou como repetição banal do Tigermilk, então fiquei só com esse.

Houve fotos – e acho que o O passado, do Hector Babenco, e sua maluca tarja-preta com fixação por fotos me lembrou disso também. Houve fotos em conjunto, abandonadas como escombros. Houve fotos só minhas, em outras ocasiões. Duas delas foram para Brasília, e lá ficaram. Mas foi o avesso das superstição. Minha alma não foi capturada porque alguém se apossou das fotos. As fotos foram um presente para sublinhar a posse de outrem da minha alma.

Quanto?
Quanto da gente se pode perder, como camadas de pele descamada, até que um dia tudo seja varrido na tempestade?

Unhas

5 Novembro, 2007

Ela rói as unhas.

Passa uma na outra pra aparar arestas, lapida o gume, lambe os restos para amaciá-los e então puxa as fibras que se destacam do conjunto como fios puxados. E seus dedos sobem em espasmos sincopados enquanto as mangas das blusas elegantes (ah, o busto sob aquelas blusas…) tapam metade de suas mãos. Mãos fibrosas, belas em sua placidez de nervuras, veias e tendões, saltando sob a pele como as cordas de um instrumento delicado (onde as teclas? onde os pedais?).
Ela rói as unhas, morde, arranca pedaço, desbasta a superfície dura e tenta polir e deixar alguma regularidade, um resto reto, sem retoques.
E a fragilidade de seu perfil é tão comovente que eu me seguro.
Para não tomá-la nos braços e morder seus dedos, seus pulsos…
Para não convencê-la, ajoelhado, a cravar aquelas unhas em mim.

Limpeza

1 Novembro, 2007

Ela se aproxima e me banha com seu sorriso vítreo e sua voz de córrego murmurando sobre o cascalho.
Sua blusa emana um cheiro gostoso de sabão em pó.
E seu rosto, seu sorriso, sua pele, tonalidade de papel jornal,
seu olhos, caroços luminosos de negras ranhuras

E tudo, tudo nela
parece combinar com esse cheiro infantil tão tardes de domingo, passeio no sol, lençóis no coarador e roupa limpa.
E quando sorri e aperta os olhos e puxa as mãos para dentro da blusa.
Tudo nela.
recende a limpo e correto.

Por ela
O mundo cheira a sabão em pó.
E o dia parece ter porquê.

The Return of the Já Deu

1 Novembro, 2007

Tá, a essa altura duvido que haja alguém ainda aí, dada a freqüência e a constância com que eu sumo. Mas eu não morri. Estou de volta, estou com idéias, estou triste como há anos não estava e estou atravessando essa fase com uma serenidade que eu nunca tive antes, portanto minha fase sombria atual não vai redundar nas lágrimas patéticas que povoavam meus escritos antes. Teremos alguma cagação de regra, alguns textos descornados para musas distantes (já uma tradição da casa, confesso) e um certo quê de ironia que é meu grande diferencial entre o sujeito já velhusco que assina estas anotações e o pobre jovem iludido que as começou há seis anos.

Bem-vindos de volta.