Aquela que uma vez eu chamei de Sombra e hoje chamo de coisa nenhuma certa vez me disse, enquanto a gente almoçava em uma tarde de calor,
– Vai dizer que tu nunca imaginou que alguém estava filmando a tua vida e pensando: esse momento merecia trilha sonora.
Na época não me lembro o que eu respondi. Mas sei que hoje em dia a idéia de imaginar trilha sonora para a vida é uma das manias mais batidas de todos os tempos: estou toda hora lendo nas revistas de música nacionais sujeitos que reforçam sua compulsão por ouvir música O TEMPO INTEIRO – as maiúsculas vieram direto do texto de um desses caras, o Ricardo Alexandre, da Bizz (pior é que eu simpatizei com o cara ao ler seu livro sobre o rock dos anos 80 Dias de Luta, mas confesso que depois ele passou a me irritar profundamente com seus editoriais da revista, sempre com aquela postura “música é tudo”).
O fato é que no mundo de hoje, tomado por ruídos e barulhos de toda ordem, é quase impossível não associar algum momento da vida a uma trilha sonora musical, eu mesmo já fiz isso num post antigo lá por 2004, quando havia coisas acontecendo que me deixavam enlevado com essa característica de haver sempre que a gente precisa um som à disposição para capta a essência de sensações fugazes.
A música é a madeleine moderna (sabores evocativos não parecem ter muito lugar na era da junkie-food), o som é o novo “aroma de juventude” (na década da poluição global, não há muitos cheiros bons disponíveis para catalogar com nossas memórias). E isso, no fim, é uma circunstância da vida. E não uma afirmação de personalidade. Porque muitas vezes o som mnemônico, aquele que desperta do limbo alguma sensação enterrada no subconsciente ou um momento arquivado anos antes é um som que fortuitamente estava ali. Como Mr. Jones, do Counting Crows, tocando numa noite no Jekyll em que uma garota linda e cheia de charme com uma leve cicatriz na testa resolveu me dar bola na única noite do mês em que eu havia ido lá sem a intenção de pegar ninguém. Eu até gosto dessa canção, mas não a escolheria para marcar um momento com uma bandeirinha, se pudesse.
Mas o fato é que elas marcam. E a gente se pega de uma hora para outra com uma música associada a algo, e quando esse algo é mistério que não se desvendou, é mais provável que a múcisa seja também ela uma vaga assombração na nossa mente, assim como uma garota louquinha de cabelos negros sempre será a garota louquinha de Just Like a Woman – embora a da canção fosse loira.
A propósito, alguém aí já viu o filme Eddie, com a Sienna Miller?