Posts de Junho, 2007

Música serve pra isso

18 Junho, 2007

Aquela que uma vez eu chamei de Sombra e hoje chamo de coisa nenhuma certa vez me disse, enquanto a gente almoçava em uma tarde de calor,

– Vai dizer que tu nunca imaginou que alguém estava filmando a tua vida e pensando: esse momento merecia trilha sonora.

Na época não me lembro o que eu respondi. Mas sei que hoje em dia a idéia de imaginar trilha sonora para a vida é uma das manias mais batidas de todos os tempos: estou toda hora lendo nas revistas de música nacionais sujeitos que reforçam sua compulsão por ouvir música O TEMPO INTEIRO – as maiúsculas vieram direto do texto de um desses caras, o Ricardo Alexandre, da Bizz (pior é que eu simpatizei com o cara ao ler seu livro sobre o rock dos anos 80 Dias de Luta, mas confesso que depois ele passou a me irritar profundamente com seus editoriais da revista, sempre com aquela postura “música é tudo”).

O fato é que no mundo de hoje, tomado por ruídos e barulhos de toda ordem, é quase impossível não associar algum momento da vida a uma trilha sonora musical, eu mesmo já fiz isso num post antigo lá por 2004, quando havia coisas acontecendo que me deixavam enlevado com essa característica de haver sempre que a gente precisa um som à disposição para capta a essência de sensações fugazes.

A música é a madeleine moderna (sabores evocativos não parecem ter muito lugar na era da junkie-food), o som é o novo “aroma de juventude” (na década da poluição global, não há muitos cheiros bons disponíveis para catalogar com nossas memórias). E isso, no fim, é uma circunstância da vida. E não uma afirmação de personalidade. Porque muitas vezes o som mnemônico, aquele que desperta do limbo alguma sensação enterrada no subconsciente ou um momento arquivado anos antes é um som que fortuitamente estava ali. Como Mr. Jones, do Counting Crows, tocando numa noite no Jekyll em que uma garota linda e cheia de charme com uma leve cicatriz na testa resolveu me dar bola na única noite do mês em que eu havia ido lá sem a intenção de pegar ninguém. Eu até gosto dessa canção, mas não a escolheria para marcar um momento com uma bandeirinha, se pudesse.

Mas o fato é que elas marcam. E a gente se pega de uma hora para outra com uma música associada a algo, e quando esse algo é mistério que não se desvendou, é mais provável que a múcisa seja também ela uma vaga assombração na nossa mente, assim como uma garota louquinha de cabelos negros sempre será a garota louquinha de Just Like a Woman – embora a da canção fosse loira.

A propósito, alguém aí já viu o filme Eddie, com a Sienna Miller?

Dialogando

18 Junho, 2007

Dialogando com citações idiotas

E se Deus fosse um de nós?

Acho que, se fosse, dados seus ilimitados recursos, eu pediria para ele pagar a conta da cervejada.

Luz do dia

18 Junho, 2007

Não é à toa que as pessoas elegem a noite como o território da vilania, da decadência, da dissipação. Porque é mais fácil ser torpe na luz difusa de nossas fontes elétricas de energia.

Com a luz do sol, mesmo o que poderia ter alguma beleza revela sua imperfeição, todo o esplendor de seu trágico e doloroso vício.

 Ser torpe à luz do dia é ser duas vezes mais torpe.

Morrendo pela boca

14 Junho, 2007

Na minha terra tem um ditado bastante preciso, embora muito pouco elegante, que postula que a boca fala e o cu paga. Eu já havia mencionado na outra página, em algum momento, que eu era um dos pobres iludidos que, durante a eleição do Lula, sentia uma onda de esperança – talvez a última de minha vida adulta – com a possibilidade de um afinal atuante governo Lula, mas que aquilo era mesclado com uma certa apreensão do que nos restaria se até esse governo se mostrasse mais uma promessa falha. Eu até havia procurado o texto original mas não achei. Aí agora, por acaso, procurando outras coisas que eu queria reler para talvez usar a idéia em uns trecos que estou escrevendo, encontrei. E me senti hoje com muita pena do idiota que eu fui naqueles tempos. Quase como se eu quisesse voltar ali e dar a real de que não viria coisa boa (quando eu escrevi a primeira manifestação de desencanto, o Brasil passava pelo choque do Mensalão e daqueles escândalos todos). Como o governo Lula tem sido pródigo em nos municiar de NOVOS escândalos para que nossos desabafos não percam a atualidade, finalmente decidi republicar o texto daquela época, publicado pouco depois da primeira posse do Lula e pouco depois da Copa de 2002 – o que mostra como um breve período de anos pode mudar completamente os contextos – o Enéas até já deu com a cola na cerca depois daquilo.

Lula
Não sei quanto a vocês, mas para mim ainda não parece ter caído a ficha de que o Lula é o presidente.
Para mim, que estou votando sistematicamente nele desde que tirei meu título de eleitor, não deixa de ficar no ar uma espécie de angústia. Aquela angústia que antecede o desespero, porque é como se estivéssemos tentando de absolutamente tudo.
Nada pode estar mais perto do desespero absoluto do que a realização da maior esperança. E agora? Agora temos no poder um sujeito em quem eu pelo menos votei três vezes. E agora? Agora o PT tem à sua disposição o cargo de maior poder do país – e para influenciar mais os destinos do país só se fundassem uma célula petista nos Estados Unidos para concorrer à casa branca. Agora é o momento da maior coragem, aquele momento em que não se permitirão mais desculpas. Não se permitirão mais erros – e nenhum outro presidente esteve tão proibido de errar quanto Lula, por tudo o que ele representa de diferente para os que votaram nele, ele está proibido de ser igual, minimamente que seja igual, porque se fosse para ser igual, mais fácil teria sido eleger o Serra.
Dá medo. Tanto medo quanto imaginar que o Inter pode cair para a segunda divisão – e o pior é que são duas possibilidades absolutamente possíveis a esta altura. E se nem com Lula tivermos sucesso? Agora sim é que está batendo o tal “medo de ser feliz” da musiquinha de campanha. Mas o medo de que a nossa última alternativa também se revele falha. Que esperança nos sobrará? Um retorno das formas mais arcaicas e conservadoras, na assustadora pessoa do Enéas? É o momento em que estamos suspensos da borda do abismo. E daqui só se alguém nos puxar, mas não sabemos se os braços dele são fortes o suficiente, se a corda vai resistir.
Nunca o futebol foi uma metáfora tão forte…
Porque era exatamente assim que os amantes de futebol estavam sentindo as coisas quando o Felipão assumiu – para aqueles que execram futebol a metáfora não tem sentido, mas eu sinto pena destes porque não têm a empatia necessária para se colocar no lugar de outro. Para quem tem apenas como muleta psicológica ser representado pela única seleção presente em todas as copas, ficar fora seria trágico. E Felipão era a última saída, até começar a descer ladeira abaixo e perder para Honduras e Bolívia.
Mas aí veio a Copa. E hoje o milagre já é história.
Que Lula, mesmo que nos primeiros tempos faça fiascos pontuais contra as Honduras da política e da gestão nacional, nos traga mais tarde uma copa. A de um país menos esquizofrênico em suas crueldades e menos perverso em suas misérias
.

Talvez, no fim, estejamos todos mais adultos depois disso tudo.

Saudavelmente mais adultos.

Voltando

14 Junho, 2007

Abraços a todos os que andaram espiando por aqui enquanto seu anfitrião sumia de novo. Foram só umas férias necessárias. Estamos de volta. Abraços.