Posts de Abril, 2007

Publicitas

27 Abril, 2007

Não sou um sujeito para quem a publicidade faça efeito constantemente. Não sou do tipo que se convence pelo que vai numa propaganda justamente porque sou um consumidor pesadelo dos publicitários: eu não gosto de trocar de produto, eu não sou um cara que compre nada além do necessário e meus gastos supérfluos estão restritos a um tipo de produto que a publicidade maciça ou não aborda ou, quando aborda, não me convence. Explico melhor: papel higiênico, arroz, massa, carne, tudo o que eu compro obedece ao critério “preço no supermercado”, e não uma duvidosa qualidade pela qual valeria pagar mais. Meus gastos supérfluos, contudo, são concentrados em filmes de cinema, livros, gibis, CDs e um eventual café numa mesma padaria sempre (sou um cara de hábitos). E por ser um pedante xarope, não assisto aos filmes da Globo Vídeos, não leio os best-sellers mais vendidos ou mais anunciados. Portanto, como público-alvo minha utilidade para o mercado publicitário é nula (e eu não deixo de me congratular por isso).

Mas sou um cara que, como todo mundo, quando vê televisão, assiste às propagandas e até dá boas risadas delas. Mas foi só recentemente que começou a martelar na minha cabeça essa tese meio furada que eu começo a explicar aqui: a propaganda, como todo construto da imaginação (ou falta de) humana, também pode ser um retrato de sua época, e se assim for, cada vez tenho menos vontade de olhar este nosso tempo nos olhos. A publicidade, apesar da lenga-lenga corporativista, é sim uma obra que se constitui sobre estereótipos (estereótipos uma formas de comunicação universal e muito rápida, ou seja, muito úteis para dar um recado em poucos segundos). E, embora não seja a única responsável pelo mundo que nos cerca, como acreditam comunistas ingênuos, é sim algo que pega no ar um “clima” perceptível e o transforma em fato, reforçando e espalhando esse mesmo clima, então em determinado momento podemos sim dizer que a propaganda se torna responsável pela ideologia, pelos preconceitos e pela moral daquilo que veicula. Porque o humor é, antes de tudo, iconoclasta, mas não é uma desculpa para qualquer coisa, acho.

Senão vejamos. Numa rápida sucessão nos últimos meses, assisti a uma propaganda de uma companhia telefônica na qual as peças mais memoráveis são: uma mulher extorquindo dinheiro de uma idosa para ajudá-la a subir escadas debaixo de chuva e um homem oferecendo ajuda a outra senhora que caiu e se machucou e cobrando por isso. Surpreende na primeira veiculação, e depois a facilidade com que aquela situação desperta o riso provoca uma náusea indefinida.

Depois, uma propaganda de carro investe na idéia de que a marca de automóvel vendida na publicidade passa em alta velocidade por uma rua e o quebra-molas foge sozinho, ou que, ao disputar espaço em um estacionamento, um tanque de guerra desiste diante do carro anunciado.

Depois, a propaganda de um refrigerante cuja campanha foi lançada com o slogan “chegou, pega logo” e uns sujeitos agarravam minas muito receptivas para beijos de telenovela. Outro refrigerante anuncia “as coisas como são” em reclames que destilam tratados sobre arroto, sobre o riso pela desgraça alheia e por aí vai.

Tudo muito bonito, muito engraçado, muito divertido, muito bem-humorado.

E tudo estranhamente representativo de uma época como a nossa, lotada de violência, cinismo, grosseria e mau gosto. É um pensamen to que dialoga, em um certo ponto, com um texto que li recentemente, mas não me lembro em que jornal de língua inglesa na rede, sobre como o atual tesão das platéias de cinema, norte-americanas em um primeiro momento e mundiais mais adiante, é ver personagens serem torturados ou mortos das formas mais explícitas ou cruéis possíveis. Um fenômeno cuja epítome foi O Albergue, mas que poderia ser notada também em Jogos Mortais, no novo Bond e até no exagerado Snakes on a Plain, que se vale do mesmo humor das propagandas já citadas para validar a mesma crueldade.

O que me preocupa não são as propagandas, elas são, como eu disse, um sintoma, num primeiro momento – embora deixem de ser quando legitimam a realidade que comentam. O que me intriga é que, no momento em que espíritos tão toscos quanto publicitários já consideram tão natural usar em suas obras esse clima de cinismo, individualismo e agressividade descortês, é porque o clima geral já foi pra banha faz muito tempo.

Morreu Boris Yeltsin

27 Abril, 2007

O diria disso o Renato Russo?

O Tempo e a Vida

24 Abril, 2007

Pois, ainda que não existisse uma só antena de televisão, um só jornal, um só historiador ou um só economista no mundo, o autor de romances continuaria defrontando-se com o território do não-escrito, que sempre será, para além do abundandte ou do parco da informação cotidiana, infinitamente maior do que o território do escrito.

Sabia-o Tristram Shandy, cujo problema era escrever dez vezes mais rápido do que tinha vivido e cem vezes mais rápido do que estava vivendo a fim de admitir sua vida na sua obra: assim, condenava-se a escrever como um escravo e a deixar de viver.

Mas sabe-o também qualquer cidadão do mundo do mundo atual, o não-dito ultrapassa todo o dito ou mal dito no discurso cotidiano da informação e da política.

Geografia do Romance, de Carlos Fuentes (pág. 14).

Meu primeiro contato com a obra de Carlos Fuentes foi um livro misto de ensaio e memória intitulado Eu e os Outros, que li emprestado de uma biblioteca há uns 10 anos, mais ou menos. Daí, fui para alguns de seus romances disponíveis em português, A morte de Artemio Cruz e Gringo Velho. Nenhum dos dois me provocou tanta admiração quanto a obra ensaísta de Fuentes. Ao começar a ler o Geografia do Romance e me deparar com esse trecho, logo no início, só posso dizer que minha impressão se confirma: o Fuentes teórico do que pratica é superior ao Fuentes que pratica o que teoriza.

Mas é só uma impressão pessoal.

Problemas de Fraternidade

24 Abril, 2007

E o retorno não poderia ter um prenúncio mais animador:

A banda Los Hermanos comunica a decisão de entrar em recesso por tempo indeterminado. Por conta disso não há previsão de lançamento de um novo disco.

Primeiro a Sandy e o Júnior. Agora os “Hermanos”. Não são tempos de fraternidade estes que vivemos.

Faltava uma casa nova

24 Abril, 2007

Acho que uma das coisas que andava dificultando minhas atualizações no antigo endereço era que justamente aquele lugar, embora meu, não parecia mais para mim.

Durante o período em que escrevi o outro blogue – seis anos, com interrupções mais ou menos breves, mas ainda assim seis anos – eu, o eu físico que digita estas linhas, mudou de endereço quatro vezes, e o blogue continuava lá, porque servia. Quando o novo sistema mandou meus comentários para a puta que pariu eu mesmo escrevi que poderia ser uma oportunidade de um novo começo, mas demorei ainda para perceber que o novo começo merecia um lugar novo – de preferência um em que eu não apanhe tanto da tecnologia.

E aquela apresentação ainda me descrevia, mas faltava algo. Eu já não ando mais tão deprimido, achei uma combinação química satisfatória e vivo um momento de alguma luminosidade numa existência que muitas vezes eu via mais sombria do que realmente era. Logo, não poderia haver momento melhor para abrir um lugar novo.

Um amigo meu que não sabe que o am igo dele é este mesmo que escreve estas linhas abriu esses tempos um blogue, e foi aí que eu conheci este servidor novo, que me pareceu simpático. Portanto, estava descoberto o novo sítio em que eu edificaria uma nova oficina. O fogo já arde na forja, o calor é pior que o de Porto Alegre no auge do verão, mas há uma sensação de comodidade que há tempos eu não sentia.

Sintam-se em casa.