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Tinha um nome de heroína de Dostoiévsky, e para mim, ao menos para alguém muito parecido comigo e que em alguns momentos até mesmo poderia ser eu, seria impossível não se apaixonar por uma linda mulher com um nome de heroína de Dostoiévsky. Apresentados por uma amiga comum durante uma Feira do Livro, fui arrebatado de imediato por sua visão artística do mundo, por sua aura de alguém com um contato direto com um mundo do qual eu nunca passei da soleira. Aquela noite se desenrolou com um cerveja, e um churrasco em um grupo de amigos, e ela rindo e de bom humor e já admiravelmente bêbada constrangendo-se a si mesma falando em voz alta indiscrições que provocaram curiosidade dos garçons no momento em que nos dirigíamos todos, eu, ela, uma amiga dela, o casal dos meus amigos, para o carro de onde nos espalharíamos. Ela, contudo, havia soltado uma pista de que estaria outra vez com aquele mesmo grupo na Feira do Livro no sábado seguinte, e lá estava eu, e desta vez conseguimos um passeio só nosso por entre os estandes e estantes desordenados, e conversamos de livros, do mundo, da arte (a dela) e do projeto de arte (o meu). E no fim daquela noite eu tinha um telefone, e mais duas semanas depois daquilo, após uma apresentação na qual ela tocou e me enredou nas teias mágicas de sua música, eu a beijei em frente a seu apartamento. E então ela me disse que estava com alguém, um estar que não era estar e não mudava muita coisa, mas que não modificava o encanto nem tornava tudo menos confuso. Depois daquilo, não nos vimos mais por um ano. E então, outra vez nos encontramos na Feira do Livro, e outra vez bebemos juntos, e falamos, e combinamos um jantar na Cidade Baixa – que começou com a formalidade acanhada de uma confratenização entre amigos antigos e terminou com uma fúria de beijos e afagos no carro dela, quando ela me deu carona até em casa. Ela não subiu, contudo, e queria marcar um café para conversar sobre aquilo tudo. E não teve tempo para ele por outro ano. E no terceiro ano depois da churrascaria, e de sua alegria bêbada e de sua música sedutora, ela finalmente ligou, e o café na Cidade Baixa evoluiu para uma frase, “eu não sei o que sinto por ti, só sei que sinto”, e para outra vez o fogo e o delírio, e desta vez finalmente a casa em que ela me recebeu no meio de jornais espalhados por toda parte, livros fora de ordem e uma cesta de maçãs sobre a mesa com tampo de vidro. Depois daquilo ela viajaria para o Rio, mas voltaria, e ficou de ligar quando voltasse. E ela não ligou, e eu não liguei, e passou mais um ano. E na Feira seguinte ela não estava mais lá. Nunca mais esteve.
Agridoce: Ela era alta – mais alta do que eu. Os cabelos revoltos e negros emoldurando seu sorriso sarraceno e suas sobrancelhas levantinas desciam até o começo da cintura, cintura que ela remexia em arrancos de dança do ventre enquanto agitava as mãos longas e cheias de nervuras, os dedos de pianista, a pele branca ao ponto de se verem as veias. Era mais velha, ela era louca e cheia de dúvidas, e sua voz grave podia sorrir com a sabedoria do deserto ou imitar personagens de desenho animado sem muito intervalo entre uma coisa e outra. Os óculos muito grossos por vezes eram até eficientes em esconder-lhe a beleza do rosto, mas não podiam nada contra o sorriso, que conciliava insegurança e vida na mesma equação. Ela era uma sinfonia de curvas e penedos, um coro de vozes sussurantes que se expressavam por seus movimentos, que pareciam deixar no ar um rastro de vento e brisa de outono. E negava com todos os ossos e nervos e texturas de sua pele o poema por demais sentimental de Affonso Romano de Sant’Anna sobre a mulher madura, que ela era, mas que não economizava gestos como se avara de si mesmo, e sim os esbanjava com uma vivacidade que não devia dever nada aos 20 anos que ela não tinha mais. Seus quadris ondulantes ao som de um tango-milonga. Minha teiniaguá alucinada, guardiã de um tesouro que sumiu com a luz do dia. E cuja furna jamais encontrei de novo.